Mesmo com a proibição do uso de celulares nas escolas brasileiras, o excesso de telas continua sendo um dos principais desafios enfrentados por famílias e educadores. Crianças e adolescentes passam cada vez mais tempo conectados a celulares, tablets, videogames e redes sociais, cenário que tem levantado preocupações sobre os impactos no aprendizado, na convivência social e na saúde mental.
O tema é abordado na série especial Por Trás das Telas, exibida pelo Jornal da Cidade, da TV Cidade/Record. A reportagem mostra que a discussão vai além da limitação do uso dos aparelhos e envolve a construção de hábitos saudáveis, educação digital e participação ativa dos responsáveis.
Especialistas alertam que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos pode afetar a concentração, a criatividade, a interação social e o desenvolvimento emocional. Por isso, a busca por equilíbrio entre o ambiente digital e as experiências presenciais tem ganhado espaço dentro das famílias e das escolas.
Como o excesso de telas afeta crianças e adolescentes
A tecnologia oferece benefícios importantes para comunicação, entretenimento e acesso à informação. No entanto, quando utilizada sem limites ou acompanhamento adequado, pode trazer consequências para diferentes aspectos do desenvolvimento infantil.
Segundo a neuropsicóloga Maria Luiza Melo, não basta controlar apenas o tempo de uso. Também é fundamental acompanhar os conteúdos acessados pelas crianças.
A especialista destaca que a internet reúne materiais de diferentes naturezas e que a supervisão dos responsáveis é essencial para garantir experiências adequadas à idade.
Além disso, o diálogo constante sobre segurança digital e comportamento online é apontado como uma ferramenta importante para formar usuários mais conscientes.
Qual o tempo de tela recomendado para cada idade
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites de exposição aos dispositivos eletrônicos de acordo com cada faixa etária.
As orientações são as seguintes:
- Até 2 anos: nenhum contato com celulares, tablets ou videogames;
- De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia;
- De 6 a 10 anos: até 2 horas por dia;
- De 11 a 18 anos: até 3 horas por dia.
A entidade também orienta que os conteúdos sejam apropriados para a idade e, sempre que possível, acompanhados por pais ou responsáveis.
Especialistas ressaltam que a qualidade da experiência digital é tão importante quanto a quantidade de tempo conectada.
Famílias buscam alternativas ao uso excessivo do celular
Muitas famílias têm procurado alternativas para diminuir o tempo de exposição aos aparelhos eletrônicos.
A advogada Cláudia Borges, por exemplo, incentiva o filho Miguel, de quatro anos, a participar de atividades como desenho, pintura e contação de histórias.
Segundo ela, estimular experiências fora do ambiente digital exige dedicação, mas contribui para o desenvolvimento da criatividade e da imaginação.
Outra experiência apresentada na reportagem é a de João Lucas, de oito anos. A família percebeu que o excesso de televisão estava reduzindo o interesse da criança por brincadeiras e atividades ao ar livre.
A solução encontrada foi criar uma rotina organizada, com horários definidos para o uso das telas e acompanhamento constante dos conteúdos assistidos.
Entre as atividades mais recomendadas por especialistas estão:
- Leitura;
- Jogos educativos;
- Atividades artísticas;
- Esportes;
- Passeios ao ar livre;
- Brincadeiras em grupo;
- Momentos de convivência familiar.
Educação digital e supervisão são apontadas como soluções
Para a assistente social Cristiana Cordeiro, a tecnologia deve ser vista como uma ferramenta que exige orientação constante.
Ela destaca a importância de os responsáveis acompanharem vídeos, jogos, influenciadores e demais conteúdos consumidos pelas crianças e adolescentes.
O objetivo não é afastar os jovens do ambiente digital, mas ajudá-los a desenvolver senso crítico e hábitos seguros de navegação.
A educação digital também envolve ensinar sobre privacidade, respeito nas redes sociais e uso consciente das plataformas online.
Escolas investem em atividades ao ar livre e socialização
As instituições de ensino também têm buscado estratégias para estimular experiências além das telas.
Em Fortaleza, 53 Centros de Educação Infantil contam com pátios naturalizados, espaços planejados para incentivar o contato com a natureza, a interação social e o desenvolvimento integral das crianças.
Segundo a coordenadora de Educação Infantil, Conceição Cavalcante, esses ambientes favorecem o desenvolvimento motor, emocional e cognitivo.
Além das brincadeiras ao ar livre, os espaços incentivam a observação, a curiosidade e a descoberta do ambiente, elementos considerados importantes para o crescimento saudável.
Tecnologia pode ser aliada do aprendizado
Embora o debate frequentemente esteja associado à redução do uso de celulares, especialistas ressaltam que a tecnologia também pode contribuir para a educação quando utilizada de forma planejada.
O presidente da Comissão de Educação Básica da Assembleia Legislativa do Ceará, Marcos Sobreira, destaca que o estado tem investido em recursos digitais voltados para o ensino.
Entre os exemplos estão tablets utilizados para acesso a conteúdos pedagógicos, livros digitais e plataformas educacionais.
A diferença está no propósito do uso. Enquanto o consumo excessivo e sem acompanhamento pode trazer prejuízos ao desenvolvimento infantil, ferramentas digitais aplicadas ao aprendizado podem ampliar oportunidades educacionais.
Mais do que restringir o acesso aos dispositivos, especialistas defendem uma construção conjunta entre famílias, escolas e poder público para promover uma relação equilibrada com a tecnologia.
O desafio não é eliminar as telas da rotina, mas ensinar crianças e adolescentes a utilizá-las de forma consciente, segura e compatível com as necessidades do desenvolvimento humano.




