Com mais de 155 milhões de brasileiros aptos a votar em outubro, as fake news nas eleições 2026 voltam ao centro do debate público. O avanço da inteligência artificial tornou mais sofisticada a produção de conteúdos falsos, aumentando o desafio de eleitores, autoridades e especialistas para identificar informações manipuladas durante o período eleitoral.
Se antes a desinformação se concentrava em textos e montagens simples, agora vídeos, áudios e imagens criados por ferramentas de inteligência artificial conseguem reproduzir rostos, vozes e comportamentos com um grau de realismo que dificulta a identificação de fraudes.
Para especialistas, o cenário exige atenção redobrada dos cidadãos, principalmente diante da proximidade das eleições e do aumento da circulação de conteúdos políticos nas redes sociais e aplicativos de mensagens.
Como a inteligência artificial amplia o desafio das fake news nas eleições 2026
A dificuldade para identificar conteúdos produzidos artificialmente já é percebida pelos próprios eleitores.
A vendedora Lauiany de Souza afirma que, em alguns casos, ainda é possível notar inconsistências em vídeos ou imagens. No entanto, ela reconhece que a diferença entre um conteúdo real e outro gerado por inteligência artificial está cada vez menos perceptível.
Essa percepção é reforçada por uma pesquisa realizada por uma empresa especializada em análise de dados. Durante um experimento, participantes assistiram a um vídeo autêntico e outro criado por inteligência artificial.
O resultado mostrou como a identificação se tornou complexa:
- Apenas 45,3% conseguiram identificar corretamente o vídeo gerado por IA;
- 33,9% acreditaram que o conteúdo verdadeiro era artificial;
- 83,2% consideram importante que conteúdos produzidos por IA sejam identificados ao público.
Para o perito em Computação Forense Marcos Monteiro, embora algumas ferramentas ainda apresentem falhas perceptíveis, a confirmação de uma manipulação frequentemente depende de análise técnica especializada.
“Na prática, hoje, para você verificar que aquilo foi feito por inteligência artificial, é necessária uma perícia”, afirma.
Por que os deepfakes são uma preocupação para a Justiça Eleitoral
Entre as tecnologias que mais preocupam especialistas estão os chamados deepfakes.
A técnica utiliza inteligência artificial para criar vídeos, imagens ou áudios que simulam pessoas reais, reproduzindo expressões faciais, voz e comportamentos com alto grau de realismo.
Segundo especialistas, esse tipo de conteúdo pode ser utilizado para disseminar informações falsas, atribuir declarações inexistentes a figuras públicas ou criar situações fictícias capazes de influenciar o debate público.
A preocupação cresce especialmente em períodos eleitorais, quando conteúdos enganosos podem alcançar milhões de pessoas em poucas horas.
Especialistas alertam para os impactos da desinformação eleitoral
Além da tecnologia, pesquisadores destacam que a desinformação geralmente é produzida de forma planejada para causar impacto político, social ou institucional.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Ceará, deputado estadual Renato Roseno, relata que já foi alvo de fake news e enfrentou dificuldades para identificar os responsáveis pelas publicações.
Segundo ele, mesmo após decisões judiciais determinando a retirada dos conteúdos, os autores não foram localizados.
A cientista política Mariana Dionísio chama atenção para outro fator: os algoritmos das plataformas digitais.
De acordo com a pesquisadora, essas ferramentas podem direcionar conteúdos aos usuários de maneira estratégica, influenciando percepções e comportamentos sem que o processo seja totalmente percebido.
O que diz o TSE sobre inteligência artificial nas campanhas
Diante do avanço da tecnologia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial durante as campanhas eleitorais.
Entre as medidas adotadas estão:
- Obrigatoriedade de identificação de conteúdos produzidos por inteligência artificial;
- Restrições ao uso irregular de robôs em campanhas;
- Previsão de responsabilização para plataformas que descumprirem determinações legais;
- Proibição do uso de deepfakes na propaganda eleitoral.
As medidas buscam ampliar a transparência e reduzir o impacto da desinformação no processo democrático.
Como identificar notícias falsas durante as eleições
Especialistas recomendam uma postura crítica diante de conteúdos compartilhados em redes sociais e aplicativos de mensagens.
Algumas medidas podem ajudar:
- Verificar a origem da informação;
- Consultar veículos jornalísticos reconhecidos;
- Buscar confirmação em órgãos oficiais;
- Utilizar plataformas de checagem de fatos;
- Desconfiar de conteúdos que provoquem forte reação emocional imediata;
- Evitar compartilhar informações sem confirmação.
Marcos Monteiro destaca que a procedência do conteúdo continua sendo um dos principais critérios para avaliar sua credibilidade.
A autônoma Mirtes Girão afirma que procura conhecer o histórico dos candidatos antes de formar opinião e evita tomar decisões com base apenas em mensagens recebidas por terceiros.
Com a aproximação do processo eleitoral, especialistas reforçam que o combate à desinformação depende não apenas da atuação da Justiça Eleitoral e das plataformas digitais, mas também da atenção dos próprios eleitores. A verificação dos fatos e a busca por fontes confiáveis continuam sendo ferramentas fundamentais para fortalecer o debate público e proteger a integridade das eleições.




