A Praia de Iracema é um dos espaços mais conhecidos de Fortaleza e passou por diferentes fases ao longo da história. O local já foi vila de pescadores, balneário e ponto de encontro de músicos, artistas e intelectuais. Hoje, o bairro reúne moradores, famílias, turistas, atividades esportivas, gastronomia e manifestações culturais.
Antes de receber o nome atual, a região foi conhecida como Porto das Jangadas, Praia dos Peixes e Grauçá. A transformação começou a ganhar força a partir das primeiras décadas do século XX, quando o local passou a ser frequentado também por proprietários de casas de veraneio.
Para a líder comunitária Cássia Vasconcelos, o bairro mantém diferentes características que fazem parte da identidade da cidade. Ela falou sobre o tema com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza:
“A Praia de Iracema é um lugar de gente simples, é um lugar para as pessoas, para a cidade. A cidade se encontra na Praia de Iracema. É um polo cultural, é um polo gastronômico, é um polo de história.”
Fim da vila de pescadores
Uma das mudanças que alteraram a dinâmica da região ocorreu com a dragagem do Porto do Mucuripe. A intervenção modificou as condições das marés e dificultou a chegada das jangadas à área que era conhecida como Praia dos Peixes.
Com a mudança, os pescadores passaram a se concentrar no Mucuripe. Ao mesmo tempo, surgiu a comunidade da Draga, ligada à região da praia, mas sem a mesma característica de comunidade pesqueira.
O historiador Waldejares Oliveira explica a transformação:
“A dragagem do Porto Mucuripe fez com que as marés mudassem, e consequentemente não fosse mais possível que as jangadas chegassem aqui. Então o movimento das jangadas que fazia a Praia do Peixe ser atrativa para os pescadores deixou de existir por causa do porto. Nesse momento histórico, nós vamos observar o surgimento da comunidade da Draga, que está ligada à praia, mas sem ser uma comunidade de pescadores, e o Mucuripe passa a ter essa abrangência de pescadores.”
Em 1925, uma campanha estimulada por moradores levou à escolha do nome Praia de Iracema. A denominação faz referência à personagem criada pelo escritor José de Alencar, conhecida na literatura como a “virgem dos lábios de mel”.
As ruas do bairro também receberam nomes de povos indígenas, como Tremembés, Potiguaras, Guanacés e Tabajaras.
Igreja de São Pedro e Edifício São Pedro
Outro marco da história da região surgiu em 1939, com a inauguração da Igreja de São Pedro Apóstolo. O templo permanece no bairro.
Em 1951, foi inaugurado o Edifício São Pedro, construído originalmente para funcionar como hotel. O empreendimento ficou conhecido como “Copacabana Palace Cearense” e tinha inspiração em hotéis de Miami, com formato que remetia a um grande navio ancorado na praia.
O prédio funcionou como hotel durante cerca de três décadas. A abertura da Avenida Beira-Mar, na década de 1960, contribuiu para a mudança da dinâmica da região e para a perda de importância do empreendimento.
Waldejares Oliveira explica que o imóvel passou posteriormente a ser utilizado como residência particular, o que também contribuiu para a perda de suas características originais.
“O edifício São Pedro foi erguido com a perspectiva de ser um hotel. E foi um hotel durante mais ou menos uns 30 anos. O que transformou esse hotel em um espaço decadente foi exatamente a Avenida Beira Mar como nós conhecemos hoje. Quando ela foi aberta, nos anos 1960, a orla passou a ser mais abrangente e esse espaço passou a perder status. Quando o prédio passa a ser uma residência particular, isso tira dele todo o glamour e a manutenção.”
O edifício acabou demolido em 2024, 73 anos depois de sua construção.
Patrimônio, arte e boemia
A Praia de Iracema também concentra construções e espaços associados à história cultural de Fortaleza. Entre eles estão o Estoril, a Ponte Metálica, o Bar do Pirata, o Poço da Draga e o Centro Cultural Belchior.
O prédio que hoje abriga o Centro Cultural Belchior também recebeu o Cais Bar, conhecido como ponto de encontro da boemia da década de 1980.
A produção artística também passou a fazer parte da paisagem do bairro. Em 1984, foi inaugurada a “Torre da Praia”, obra do artista José Leonilson. O monumento recebeu das crianças o apelido de “Caixa d'Água dos Peixinhos”.
Em 1990, foi inaugurada a obra “Iracema”, de Zenon Barreto. A estrutura de metal e ferro representa a personagem de José de Alencar com um arco voltado para o mar e se tornou um dos símbolos de Fortaleza.
Praia de Iracema também é espaço para esporte e lazer
A rotina atual do bairro inclui atividades esportivas, caminhadas e encontros na orla. O professor e atleta Rickson Moura destaca a variedade de opções encontradas na região:
“A gente olha para um lado e se encanta, olha para o outro e se encanta. Tem futebol e beach soccer, tudo que o pessoal quiser. É uma maravilha.”
O atleta Iago Sousa também aponta elementos da paisagem e da convivência como características que chamam sua atenção:
“O que mais me encanta aqui é o público, né? É esse clima, esse vento gostoso batendo na cara. Esses coqueiros aqui que fazem som, pra gente fazer uma sombrinha, tomar uma aguazinha de coco com os amigos, né? Bater uma bola, um futebol e um vôlei, né?”
A região também é procurada por visitantes de outras cidades. O professor Daniel Tiepo, que esteve em Fortaleza pela segunda vez, relata a experiência de permanecer na área.
“Gosto muito da área de Praia de Iracema porque fico hospedado por aqui, posso fazer caminhada pela orla... Em poucos quilômetros eu tô ali no Mercado dos Peixes, que é bem legal também. Aqui é bem animado à noite, vale muito a pena. Eu não conhecia Fortaleza, conheci esse ano, é a segunda vez que eu venho e pretendo trazer minha família pra passear por aqui.”
O empresário Mario Bezerra também cita diferentes opções encontradas no bairro:
“Muita coisa bacana. As lanchonetes, a praia, a orla. A orla é uma das mais bonitas do Brasil, com certeza.”
O primeiro avião a pousar em Fortaleza
A Praia de Iracema também foi palco de um episódio relacionado à história da aviação na capital cearense. O primeiro avião a pousar em Fortaleza chegou à área da orla e permaneceu apenas um dia na cidade.
A aeronave era pilotada por Paul Vercher. Em seu livro de memórias, ele registrou que a população de Fortaleza, que na época era de aproximadamente 100 mil habitantes, foi até a Praia de Iracema para acompanhar a chegada do avião. A movimentação foi tão grande que um feriado chegou a ser decretado na cidade. No próximo ano, o pouso completará 100 anos.
Ao longo desse período, a Praia de Iracema passou de uma área ligada à pesca para um bairro marcado pelo turismo, pela cultura, pela gastronomia, pelo lazer e pela memória de diferentes gerações.
Para Cássia Vasconcelos, a relação entre moradores e visitantes permanece como uma das características do local:
“Aqui é o lugar de todos, é o lugar onde a gente se encontra, é o lugar da cerveja, é o lugar do abraço, é o lugar do melhor e maior pôr do sol do nosso estado.”




