O Brasil reduziu nas últimas duas décadas a diferença de desempenho escolar em relação à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), embora continue abaixo do grupo nas três áreas avaliadas pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Os dados da edição de 2025 foram divulgados nesta terça-feira (8) pela OCDE.
O Brasil alcançou 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. A média dos 23 países da OCDE considerados na comparação foi de 466 pontos em leitura, 469 em matemática e 486 em ciências. Com isso, a diferença brasileira em relação à média internacional ficou em 58 pontos em leitura, 92 em matemática e 77 em ciências.
Considerando a referência de que 20 pontos correspondem aproximadamente a um ano escolar, a distância em matemática equivale a cerca de 4,6 anos de escolaridade em relação à média dos países da OCDE. Apesar da diferença, o intervalo diminuiu desde 2006. Em leitura, passou de 102 para 58 pontos, uma redução de 44 pontos. Em matemática, caiu de 131 para 92 pontos, enquanto em ciências recuou de 113 para 77 pontos.
Resultado do Brasil ficou estável em relação a 2022
Os resultados de 2025 ficaram próximos dos registrados pelo Brasil na edição anterior do Pisa, realizada em 2022. Entre as três áreas avaliadas, ciências teve a maior evolução, passando de 403 para 409 pontos. O levantamento reuniu cerca de 760 mil estudantes de 91 países. No Brasil, participaram 30.140 estudantes.
Entre os brasileiros avaliados, 72,4% estavam matriculados em escolas da rede estadual. Do total de instituições participantes, 96,9% estavam localizadas em áreas urbanas. A maioria dos estudantes brasileiros, 84,7%, estava matriculada na 1ª ou 2ª série do Ensino Médio durante a aplicação das provas, realizadas entre abril e maio de 2025. Nesta edição, ciências foi a área que recebeu maior destaque, com o maior número de itens aplicados aos estudantes.
Brasil teve recuperação melhor que a média da OCDE após a pandemia
Os resultados também mostram como o desempenho brasileiro evoluiu depois dos impactos provocados pela pandemia de covid-19. Entre 2018 e 2025, o Brasil recuperou e ultrapassou seu desempenho anterior à pandemia em ciências. Em leitura e matemática, as perdas registradas no período foram menores do que as observadas, em média, nos países da OCDE.
No Brasil, a aplicação do Pisa é coordenada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia vinculada ao Ministério da Educação (MEC). O país participa do programa desde 2000 e esteve presente em todas as edições realizadas desde então.
Pisa 2025 avaliou uso de ferramentas computacionais
A edição de 2025 marcou o nono ciclo do Pisa desde o lançamento do programa. Além das áreas tradicionais, a avaliação incorporou a dimensão “Aprendizagem no Mundo Digital”. O novo domínio foi dividido em dois atributos: Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais (RPFC) e Processos de Aprendizagem Autorregulada.
Neste primeiro volume de resultados, a OCDE divulgou os dados referentes à Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais. As informações sobre Processos de Aprendizagem Autorregulada serão divulgadas em 2027.
Em RPFC, o Brasil obteve 406 pontos, enquanto a média da OCDE foi de 500 pontos. Entre os 19 países selecionados para essa avaliação, a Coreia do Sul apresentou a maior média, com 538 pontos. O Paraguai registrou a menor pontuação, com 352.
81% dos estudantes brasileiros estudam em escolas com restrição a celulares
O Pisa 2025 também investigou o ambiente escolar e a relação dos estudantes com dispositivos digitais. No Brasil, 81% dos estudantes avaliados frequentavam escolas que adotavam algum tipo de restrição ao uso de celulares. Em 2022, o percentual era de 37%.
A proporção brasileira ficou acima da média dos países da OCDE, de 49%. Os dados apontam uma associação entre regras para o uso dos aparelhos e menor probabilidade de os estudantes relatarem distrações provocadas por dispositivos digitais.
O resultado ocorre após a implementação da Lei nº 15.100/2025, que estabeleceu regras para o uso de celulares na educação básica no país. O relatório do Pisa de 2022 já havia apontado uma relação entre o uso excessivo de dispositivos digitais e o desempenho dos estudantes nos países analisados.
Curiosidade e valorização da escola aparecem nos resultados
O levantamento também avaliou aspectos relacionados à postura dos estudantes diante da aprendizagem. No Brasil, 72% dos participantes disseram ter interesse por diversos assuntos. Outros 59% afirmaram se esforçar mais quando enfrentam desafios.
Também caiu a parcela de estudantes que considera a escola uma perda de tempo. O percentual chegou a 16%, abaixo da média da OCDE, de 24%, e 6,9 pontos percentuais menor do que o registrado no Brasil em 2022.
Os resultados apontam ainda uma associação entre a valorização da educação e o desempenho acadêmico. Entre os estudantes brasileiros, aqueles que reconhecem o valor da educação e rejeitam a ideia de que a escola é uma perda de tempo tiveram, em média, 35 pontos a mais em ciências do que os colegas. Na média da OCDE, a diferença foi de 27 pontos.
Estudantes brasileiros demonstram preocupação com meio ambiente
O Pisa 2025 também analisou a percepção dos estudantes sobre questões ambientais. No Brasil, 84% dos participantes disseram acreditar que podem gerar impactos positivos para o meio ambiente. Outros 87% afirmaram confiar na força da ação coletiva para enfrentar desafios ambientais. Além disso, 77% disseram saber trabalhar em grupo para promover mudanças positivas. Os percentuais ficaram acima das médias registradas nos países da OCDE.
Entenda o Pisa
Coordenado pela OCDE, o Pisa é uma avaliação internacional aplicada, em geral, a estudantes de aproximadamente 15 anos. O exame busca medir até que ponto esses jovens desenvolveram conhecimentos e habilidades considerados necessários para participar da vida social e econômica.
A avaliação mede a capacidade dos estudantes de aplicar conhecimentos de matemática, leitura e ciências em situações relacionadas à vida real. Os resultados permitem comparar o desempenho de sistemas educacionais de diferentes países.
A cada edição, uma das áreas recebe maior ênfase. Em 2025, o foco principal foi ciências. A edição também incluiu uma avaliação de língua estrangeira e o novo domínio relacionado à aprendizagem no mundo digital.
O Pisa é um exame amostral e não é aplicado a todos os estudantes de 15 anos. No Brasil, o Inep seleciona as escolas participantes, organiza a aplicação e analisa os dados. O país participa da avaliação desde 2000. O calendário do programa foi alterado durante a pandemia de covid-19. A edição prevista para 2021 foi realizada em 2022, enquanto a avaliação inicialmente prevista para 2024 foi transferida para 2025.
A OCDE reúne 38 países e produz estudos, estatísticas e recomendações relacionadas a políticas públicas e desenvolvimento econômico e social. O Brasil não é membro da organização, mas participa de programas como o Pisa. Em 2022, o país recebeu um convite formal para iniciar o processo de adesão à OCDE. A entrada, porém, depende do cumprimento de requisitos e da aprovação dos países membros.




