O Jardim América, em Fortaleza, tem uma história diferente da formação espontânea de muitos bairros da cidade. A região foi planejada para ampliar as áreas residenciais da capital e começou a ser estruturada em 1932, com a inauguração da Praça Presidente Roosevelt, em homenagem ao ex-presidente dos Estados Unidos. A construção do bairro contou com recursos obtidos junto a norte-americanos que estavam no Ceará e que contribuíram para a preparação de uma área que era marcada por terrenos alagados.
A praça se tornou o marco inicial da região, que recebeu primeiro o nome de Jardim das Américas e, posteriormente, passou a ser chamada simplesmente de Jardim América. Hoje, o bairro está entre Montese, Benfica e Damas e tem cerca de 12 mil habitantes.
Jardim América foi planejado para ampliar as áreas residenciais de Fortaleza
A criação do bairro ocorreu em uma área que precisava passar por obras para se tornar adequada à ocupação residencial. A intervenção envolveu a preparação do terreno e a construção de canais para lidar com as características da região.
O historiador Felipe Sampaio explica a participação dos norte-americanos nesse processo e relaciona a escolha do nome do bairro ao contexto histórico daquele período. Ele falou sobre o assunto com a TV Cidade Fortaleza:
"O interventor federal do Ceará, Menezes Pimentel, conseguiu verbas dos americanos que estavam aqui no Ceará, na base do Pici, para terraplanar, para construir os canais, para preparar esse terreno para as moradias. E nós estamos exatamente naquele que é considerado o marco zero da praça, o marco zero do bairro, que é a Praça do Jardim América. E essa praça, originalmente, tinha um busto em homenagem ao presidente Roosevelt. Então o nome Jardim América é uma homenagem aos Estados Unidos no contexto da Segunda Guerra Mundial."
O planejamento modificou uma área que anteriormente era associada a alagamentos. A ocupação residencial fez o bairro ganhar novas características ao longo das décadas, enquanto alguns dos seus espaços públicos permaneceram como referências para os moradores.
Norte-americanos ajudaram na preparação do terreno do bairro
Antes da urbanização, a região era conhecida como Laguna e apresentava áreas alagadas. A transformação do espaço incluiu ações de terraplanagem, construção de canais e preparação para receber moradias.
A memória desse período também aparece nos relatos de moradores antigos. Raimundo Sabino da Silva chegou a Fortaleza vindo de Aquiraz há mais de 60 anos e escolheu o Jardim América para viver.
"Aqui não tinha nada mesmo não, só era mato. Aqui era Lampião. Era Lampião aqui na época. Não tinha nem energia, não tinha nada. Não tinha água aqui, não tinha nada", disse ele, ao relembrar esse tempo.
Praça é um dos principais pontos de encontro do bairro
A antiga Praça Presidente Roosevelt permanece como uma das principais referências do Jardim América. Depois de uma reforma realizada há mais de dez anos, o espaço passou a ser chamado de Frei Galvão.
O local reúne moradores para diferentes atividades, como caminhadas, conversas, brincadeiras e práticas esportivas. A área também recebe pessoas que já deixaram o bairro, mas continuam frequentando o espaço.
Yara Santana, controladora de preços em supermercado, destaca a estrutura da praça e a utilização do espaço pelas famílias:
"Nos outros bairros é difícil ter uma praça assim tão espaçosa, ampla, com cantos direcionados para lazer, tipo um piquenique. Então a gente resolveu vir fazer isso aqui hoje, pra ser em família."
Além da praça, a caixa-d’água é outro elemento facilmente associado à paisagem do Jardim América e se tornou um dos símbolos do bairro.
Cine América e outras referências fazem parte da memória local
Com o crescimento da região, algumas referências deixaram de existir. Entre elas está o Cine América, antigo espaço de encontro dos moradores.
O historiador Felipe Sampaio lembra que o cinema tinha uma função que ia além da exibição de filmes e reunia crianças e jovens em torno de outras formas de convivência.
"Nas matinês de sábado, as pessoas se encontravam no cinema não somente para ver os filmes de faroeste, mas para a troca de gibis, de revistas, de figurinhas. Isso aqui também acabou sendo um campo de futebol. Era campo do Dom Bosco Futebol Clube."
Festival de quadrilhas movimenta o Jardim América em julho
No mês de julho, o Jardim América recebe o Festival de Quadrilhas Juninas. Neste ano, foram 12 dias de programação, com mais de 70 apresentações. A programação leva música e manifestações culturais para as ruas e também contribui para movimentar o comércio da região.
Antônio Filho, presidente do Instituto Amigos do Jardim América, acompanha a trajetória da festa desde os primeiros anos: "o nosso festival já tem 17 anos. Começou num tablado."
O festival se consolidou como uma das manifestações que fazem parte do calendário cultural do bairro.
Capela de Santa Teresinha mantém tradição religiosa e comunitária
A religiosidade também integra a história da região. Na comunidade Salgadeira, a Capela de Santa Teresinha funciona como espaço de encontro entre diferentes gerações.
A capela foi fundada em 1988. A primeira missa foi celebrada pelo padre Sérgio, sacerdote italiano. A origem do espaço está relacionada ao trabalho dos italianos da Congregação de São João Batista Piamarta.
Vilma Pontes, responsável pela igreja, conta como a comunidade mantém o espaço ao longo dos anos:
"Ela foi fundada em 1988. A primeira missa foi celebrada com o padre Sérgio, um italiano. Porque isso aqui começou com a obra dos italianos da congregação de São João Batista Piamarta. Então a gente procura manter e melhorar cada vez mais o nosso trabalho."
A capela também funciona como espaço de formação e participação comunitária para os jovens do bairro.
Pablo Aymar, conselheiro da capela, relata que o envolvimento com o local começou dentro da própria família e continuou ao longo de diferentes fases da vida:
"Minha família já era engajada na capela, então toda a família, naturalmente, já foi se engajando ali na capela, no grupo de crianças, no grupo de jovens, coroinhas, enfim. Eu atualmente sou coroinha da Paróquia de Nazaré, também aqui na Capela, e coordeno os jovens aqui na comunidade."
Moradores ajudam a preservar a identidade do Jardim América
Entre as transformações urbanas e as referências que desapareceram, o Jardim América mantém espaços e tradições que continuam reunindo os moradores.
A praça, o festival de quadrilhas e a capela são exemplos de locais e atividades que permanecem associados à convivência no bairro. A história também é preservada por moradores que acompanharam as mudanças na região e pelas novas gerações que continuam participando da vida comunitária.
Para Antônio Filho, presidente do Instituto Amigos do Jardim América, a identidade do bairro está relacionada à oferta de serviços e à convivência entre os moradores.
"Nós temos tudo, né? Tudo ao redor do nosso bairro. E hoje é um bairro de referência cultural. Referência na tranquilidade, onde as pessoas se encontram. Vou falar uma frase de um amigo que diz assim: Jardim América, eu amo, eu cuido."




