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Grand Strategy: a indústria que queremos
A indústria que queremos é de fato aquela que gera valor e riqueza para todos os stakeholders
IGOR LUCENA
Postado em 23 de março de 2021
Grand Strategy: a indústria que queremos
Foto: Pexels

A Primeira Revolução Industrial, que se iniciou em 1760, no Reino Unido, foi o evento da época mais importante do ponto de vista histórico, pois efetivamente transformou as primeiras guildas manufatureiras em fábricas que operam por meio de sistemas mecanizados e hierarquizados para a produção em massa.

Com a expansão dos descobrimentos da América, em especial com o avanço do Império Português no interior do continente e o fim do mercantilismo, as indústrias mecanizadas se tornaram o ‘motor’ do desenvolvimento econômico das nações.

Com o tempo e com o desenvolvimento dos transportes a vapor, ferrovias, computadores, circuitos digitais, internet, energia atômica e mais duas revoluções em pouco mais de 200 anos, as características das indústrias mudaram radicalmente, entretanto o que não mudou foi sua capacidade de inovar e oferecer para a sociedade novas tecnologias e produtos que fazem parte do dia a dia e tornam as nações mais ricas e prósperas.

Aprimoramento da indústria no mundo

Percebe-se que as nações que alcançaram os mais altos índices de desenvolvimento nos últimos 300 anos são aquelas que efetivamente focaram suas estratégias de desenvolvimento no aprimoramento da indústria, bem como foram as mesmas que criaram estratégias geoeconômicas envolvendo empresas estatais, companhias multinacionais, incentivos de médio e longo prazo e principalmente deram apoio às pequenas e às médias empresas, que conjuntamente desenvolveram um ecossistema de empresas globais que não apenas dominam grandes ‘fatias’ de mercados no mundo, mas também conseguem ao mesmo tempo desenvolver suas regiões de origens.

Esses exemplos se iniciaram na Europa, em especial na Alemanha, na França, no Reino Unido e nos Países Baixos. Logo depois isso também ocorreu no Canadá e nos Estados Unidos. No início do século XX, a expansão industrial desenvolveu em especial o Japão, a Coréia do Sul e a antiga colônia de Hong Kong. No final do século passado, até mesmo nações como a China e a Índia foram rapidamente transformadas em potências mundiais por meio do poder transformador da indústria.

A indústria no Brasil e no Ceará

No Brasil, esse movimento não foi uniforme e se concentrou na região sudeste do país por meio de um conjunto de fatores históricos e conjunturais que até hoje não foi capaz de ser expandido com a velocidade necessária para as outras regiões, por tratar-se de uma nação de dimensões continentais. Entretanto, é inegável o resultado do desenvolvimento econômico que ocorreu no Brasil, em especial nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Segundo dados do Banco do Nordeste do Brasil, o Ceará responde pela 11ª economia do nosso País e pela 3ª do Nordeste. O PIB cearense abrange aproximadamente 2,1% do PIB brasileiro e 15,1% do PIB nordestino. Sua economia está sustentada principalmente nas atividades ligadas aos Serviços (76,1%), seguidos das atividades da Indústria (19,2%), e da Agropecuária, que participa com 4,7%.

Neste contexto, como sociedade cearense, dentro de uma perspectiva histórica e baseada em dados concretos, podemos afirmar que não conseguiremos melhorar nossa participação no PIB brasileiro sem melhorar a participação da indústria cearense quanto ao nosso PIB. De acordo com dados de órgãos internacionais de desenvolvimento, é possível que o PIB do Ceará possa alcançar no médio prazo até 5% da economia nacional, mas para isso teremos que evoluir a participação da indústria de 19,2% para cerca de 40%, o que é um grande desafio, mas que não podemos desanimar.

Se pensarmos no potencial industrial do Ceará, podemos inferir que existem investidores internos que ao longo dos anos conquistaram projeção nacional, principalmente na área de alimentos, bebidas, têxteis e metalurgia. Entretanto, é notório que nenhuma das nações citadas acima, principalmente as asiáticas, foi capaz de desenvolver suas regiões mais longínquas sem a ajuda de investidores externos como já ocorre com os investimentos sul-coreanos na área de siderurgia.

Como ampliar nosso parque industrial?

Mas como efetivamente conseguiremos alcançar esse patamar de 40%? Como será possível ampliar nosso parque industrial e consequentemente transformar o nosso Estado em uma região mais rica e mais próspera para nossa população?

Primeiro é importante relatar que órgãos como a Federação das Indústrias do Estado, o Governo do Estado, as prefeituras municipais, os empresários e as companhias devem trabalhar em conjunto para criar o que se denomina de “Grand Strategy”, um plano de longo prazo, que atravesse governos, sejam eles de esquerda ou de direita, com objetivos definidos do ponto de vista geoeconômico não apenas para atrair novas indústrias ao Ceará, mas que as atuais empresas sejam capazes de obter mercados consumidores em outras regiões do Brasil e principalmente no exterior, tornando assim necessário que as atuais indústrias instaladas tenham que expandir suas plantas, ampliando a empregabilidade e a renda do Estado.

Em situação análoga, não seremos capazes de ampliar efetivamente nossa participação industrial se não focarmos no Foreign Direct Investment Greenfield; ou seja, o investimento direto do exterior focado na implantação de novas atividades produtivas, como, por exemplo, a instalação de uma nova indústria. É notório que a instalação da siderurgia ampliou consideravelmente a balança comercial cearense, pois grande parte de sua produção segue para exportação e ao mesmo tempo gerou um conjunto de empreendimentos na região próxima da companhia, o que expõe as externalidades positivas de um investimento de grande porte.

A “Grand Strategy”

O desafio neste contexto, e o que se espera, é que essa “Grand Strategy” seja capaz de unificar um projeto capaz de atender às necessidades de investidores internos e externos, mostrando com robustez que o estado do Ceará é considerado um palco estratégico dentro das disputas internacionais de poder geoeconômico, seja por nossa posição geográfica, seja pela evolução integracional dos Hubs Aéreo, Marítimo e Tecnológico (cabos submarinos) ou outros fatores que favorecem a instalação e a expansão dos negócios industriais em terras cearenses.

Apesar de esse desafio ser grande, fomos capazes de nos prepararmos para um novo momento que de fato já chegou, o da Quarta Revolução Industrial, em que o núcleo da revolução se dá nas tecnologias para automação, na troca de dados, no 5G, e utiliza conceitos de cyber-segurança, Internet das Coisas e computação na nuvem.

A indústria que queremos é de fato aquela que gera valor e riqueza para todos os stakeholders, todas as partes interessadas, sejam os acionistas, investidores, dirigentes, funcionários, governos, clientes, comunidade, sindicatos e fornecedores. Ao maximizar o valor das indústrias do Ceará, tornaremos todos esses agentes mais ricos, mais prósperos e mais sustentáveis. Esse é o objetivo principal da Grand Strategy.

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