“A gente fica impotente sobre como proceder com essas perdas. Perdi um primo irmão com essa maldita doença, esse maldito vírus. É muito doloroso perder e saber que não podemos sequer nos despedir”. O desabafo é de Silvia Lima, funcionária da Secretaria de Educação do Ceará e prima de Crisóstomo Morais, uma das 10 mil vidas perdidas no Estado durante a pandemia do novo coronavírus.
Até a publicação desta reportagem, o Ceará registrou 10.004 mil mortes pelo novo coronavírus. Os primeiros casos foram confirmados em 15 de março, mas de acordo com a Secretaria de Saúde (Sesa), o vírus começou a circular, pelo menos, desde janeiro, 56 dias antes do Ministério da Saúde detectar a presença da doença.
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Crisóstomo Morais faleceu em maio, após complicações pela Covid-19 | Foto: Arquivo pessoal[/caption]
Crisóstomo Morais residia em Maracanaú, município vizinho a Fortaleza. Desde cedo tratava de problemas cardíacos, integrando o grupo de risco por algum tipo de comorbidade, responsável por 51% das mortes por coronavírus no Ceará. Na segunda semana de maio precisou ser internado por complicações ocasionadas pela Covid-19. A família não conseguiu preparar o coração. A despedida sem despedida aconteceu dias após a internação, na mesma semana em que as famílias celebravam, de uma maneira diferente, o Dia das Mães.
“Não estar presente com a família nesse momento tão dolorido, tão difícil, me deixa sem palavras”, emociona-se Silvia, ao recordar a morte do primo. “Perdi amigos, colegas de trabalho. Fica a dor, fica a saudade [pausa]. O vírus é devastador. Temos que ter o máximo de cuidado para perder mais entes queridos. Meu primo foi embora, o vírus tá vivo e devastando muitas vidas”.
O governador Camilo Santana utilizou as redes sociais para comentar o dado:
https://twitter.com/CamiloSantanaCE/status/1345147906110713856
Luto
De acordo com a psicóloga Marília Barreira, todos os rituais que envolvem o luto devem ser vivenciados. Com a crise sanitária, o processo mudou. “O luto se torna mais difícil de ser aceito quando o corpo fica desaparecido por anos e não é encontrado ou então quando o falecimento é devido a Covid-19 e não há velório ou enterro, por exemplo, pois é um processo que ficou incompleto, sem despedidas”, explica.
O início de ano pode aflorar ainda mais a emoção. O apoio familiar se torna assim, imprescindível para superar a dor. “É preciso compreender que, num processo de luto, geralmente, o último lugar que uma pessoa gostaria de estar é numa festa, mesmo que seja uma celebração religiosa. Por isso, a melhor opção é o diálogo. O próprio psicólogo pode ajudar nessa conversa com a família”, orienta.
[caption id="attachment_15329" align="aligncenter" width="455"]Com a pandemia, velórios e sepultamentos foram adaptados para evitar aglomeração | Foto: Reprodução / TV Cidade[/caption]
A busca pela vacina
“Para que a gente possa voltar à normalidade será fundamental a disponibilização das vacinas para todos os cearenses e para todos os brasileiros”, foi o que disse o governador do Ceará, Camilo Santana, no último dia 16 de dezembro.
A esperança do gestor é a mesma da maior parte dos cientistas e dos governantes no Brasil e no exterior: a imunização. A expectativa é de que a vacinação contra Covid-19 seja capaz de controlar a pandemia e encerrar essa triste contagem de óbitos.
O Brasil enfrentou um difícil debate político nas últimas semanas sobre essa campanha. Governadores de diversos estados cobraram um plano de vacinação do Planalto Central, o Ceará entre eles. O documento foi apresentado pelo Ministério da Saúde em 16 de dezembro.
Desde então, governador e prefeitos cearenses vêm tomando uma sequência de ações para garantir a vacinação aqui. O que a população mais espera é a definição de uma data de início da campanha, que ainda não foi definida. Mas a promessa de Camilo Santana é que os postos de saúde já estejam vacinando em fevereiro de 2021.
“A previsão é já ter vacina nos postos de saúde em meados de fevereiro. Tá bem perto”, disse o governador, em entrevista ao Grupo Cidade de Comunicação.
“Tenho lutado para que a vacina chegue ao nosso estado o mais rápido possível. Reforcei a importância dessa rápida aquisição e distribuição, independente de qual laboratório, desde que devidamente registrada. O mais importante é que tenhamos a vacina o mais rápido possível”.
Para garantir a logística dessa proposta, o Governo vem comprando insumos em grande quantidade, como seringas e agulhas. A Universidade Federal do Ceará, no dia 18 de dezembro, disponibilizou oito refrigeradores de alta potência para essa campanha de vacinação.
No último dia 30 de dezembro, alguns municípios cearenses já começaram a receber os equipamentos. Banabuiú, Itaitinga, Paraipaba, Paracuru e Quixeramobim possuem, agora, um refrigerador com capacidade de armazenar até 9 mil doses do imunizante.
Um dia antes, em 29 de dezembro, o Ministério da Saúde anunciou as primeiras possíveis datas do início da vacinação no Brasil. No melhor cenário, a campanha deve começar em 20 de janeiro. Mas, em um cenário menos favorável, a imunização deve começar até o dia 10 de fevereiro, segundo o Governo Federal.
“Isso [a vacinação no dia 20 de janeiro] vai depender de uma série de fatores, inclusive de logística, e dos laboratórios estarem em dia com o seu processo de submissão contínua e do processo de registro com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Não depende de nós, depende do laboratório cumprir com a sua parte”, declarou Élcio Franco, secretário executivo do Ministério da Saúde.



