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Onde está a riqueza?

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Onde está a riqueza?
Foto: GCMais

Um dos maiores desafios da humanidade não é saber o quão rico são o planeta Terra e seus habitantes. Isso é um fato pontual, principalmente porque podemos medir o patrimônio imobiliário, as ações de mercado, os valores das empresas e outros indicadores que mostram a dimensão da riqueza gerada pela humanidade ao longo dos anos.

O maior problema é como se mensura a distribuição dessa riqueza e principalmente sua acumulação ao longo do tempo para uns e não para outros, o que na realidade demonstra o maior problema do capitalismo moderno, a desigualdade existente entre ricos e pobres e um abismo que se aprofunda em todas as nações e se torna uma preocupação em comum de governos europeus, nos Estados Unidos, e até mesmo na China que, apesar de ser um modelo autoritário de governo, sabe que consideráveis aumentos na desigualdade e nas insatisfações sociais são riscos altíssimos para o regime, principalmente em um projeto do qual há orgulho por ter diminuído drasticamente a pobreza e a desigualdade nos últimos 40 anos.

Neste contexto, podemos inferir como cada classe social gera riqueza para si ao longo do tempo. As classes mais baixas, independentemente do país a que pertencem, possuem geração de renda e de riqueza basicamente do fruto da venda da sua força de trabalho, o que em muitos casos serve apenas para as necessidades básicas de subsistência; ou seja, não há poupança ou geração de outros ativos mês a mês.

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Quando olhamos a composição da riqueza da classe média, principalmente dentro dos países do G20, que é o grupo das principais economias do planeta, encontramos a concentração da riqueza na aquisição de bens imobiliários; ou seja, a classe média possui um salário e adquire casas, apartamentos, casas de veraneio e outros bens. O maior problema é que devido a uma liberação do crédito, principalmente nas economias desenvolvidas, o nível de endividamento desses imóveis fica próximo aos 80%; ou seja, quando ocorreu um evento fatídico como a crise de 2008, que ‘despencou’ os preços dos imóveis em mais de 20%, a riqueza líquida (bens – dívidas) ficou zerada, pois nessa faixa de renda a geração de recursos vem quase que exclusivamente do salário e da valorização imobiliária.

O mais importante diferencial é observado quando olhamos a geração de renda da classe alta, os 20% superiores da pirâmide social do G20, pois é nesse percentual que encontramos altos salários, participações societárias em empresas, fundos de investimento e instrumentos financeiros que se tornam dominantes, representando quase 3/4 (três quartos) da riqueza de 1% superior da pirâmide, enquanto o patrimônio imobiliário se torna cada vez menor, chegando a apenas 1/10 (um décimo) do total da riqueza do topo da pirâmide.

A diferença na composição da riqueza tem um efeito decisivo sobre a média dos retornos anuais sobre o patrimônio dos diversos grupos sociais. Se as taxas de retorno dos ativos se apresentam relativamente constantes ao longo do tempo, isso significa que o que aumenta a desigualdade é de fato a diferença na composição desses ativos e a sua taxa própria de retorno. Se analisarmos o período de 30 anos nos Estados Unidos, entre 1983 e 2013, já descontando a inflação, o retorno anual dos ativos financeiros foi, em média, 6,3% ao ano, enquanto o retorno anual do mercado imobiliário foi de apenas 0,6%.

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Nesse sentido, se capitalizarmos isso por mais 30 anos, pode-se abrir um abismo patrimonial de 60% na acumulação de riqueza entre os mais ricos e a classe média; ou seja, o 1% mais rico apresenta desempenho melhor sobre a classe média e os mais pobres basicamente pelos retornos que eles obtêm com seu patrimônio mais diversificado, o que é na prática um importante fato gerador para o aumento da desigualdade a um longo prazo.

O trabalho da economia política neste ano de 2021 que está iniciando é sem dúvida entender tal fenômeno, que é natural e intrínseco do Capitalismo, e adotar políticas que sejam capazes de aliviar esses efeitos. O Capitalismo é um sistema que funciona e foi o modelo de produção que mais diminuiu a pobreza na humanidade; todavia, ao longo da história, surgiram problemas como as crises financeiras, os monopólios e os oligopólios dentre outros problemas que foram ajustados dentro do sistema por meio de novas teorias e políticas públicas inovadoras. Hoje o maior desafio para o Capitalismo é sem dúvida a desigualdade, e a pergunta que nos cabe fazer é: como vamos mais uma vez conseguir ajustar nosso sistema para que ele não se torne um problema social sem solução?

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