Uma infecção fúngica grave e pouco conhecida tem ganhado atenção no Ceará: a coccidioidomicose. Com sintomas como febre, tosse, dor de cabeça, dor no peito e falta de ar, a doença tem sido registrada com frequência crescente no estado e está diretamente associada à prática ilegal da caça ao tatu, crime ambiental comum em regiões do semiárido cearense.
De acordo com a infectologista Lisandra Damasceno, do Hospital São José (HSJ), da rede pública estadual de saúde, o clima quente e seco favorece a proliferação do fungo causador da infecção. “A maioria dos casos no Ceará está ligada à caça ao tatu. Esse animal cava tocas profundas e, ao revolver o solo para capturá-lo, os caçadores levantam poeira com esporos do fungo, que são facilmente inalados”, explica.
Além da caça, outras atividades que envolvem escavação, como a abertura de poços e obras de terraplenagem, também oferecem risco. Segundo a médica, em temperaturas acima de 37°C, o fungo se transforma em levedura e pode provocar infecções sistêmicas graves. Em alguns casos, a doença evolui rapidamente para pneumonias agudas ou crônicas, podendo afetar órgãos como cérebro e ossos.
Casos da doença no Ceará
Conforme o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs), os primeiros registros da coccidioidomicose no Ceará datam de 2015. Entre 2015 e 2017, 15 casos foram notificados em municípios como Fortaleza, Saboeiro, Arneiroz, Cariús, Icó, Irauçuba e Independência. Três desses casos evoluíram para óbito após caçadas a tatu.
A partir de 2023, com a criação do Grupo de Trabalho de Micoses Endêmicas, o monitoramento passou a ser mais sistemático. De 2023 a 2025, foram registrados 22 casos da doença no estado, sendo 15 confirmados por exames laboratoriais. As ocorrências estão espalhadas por cidades como Apuiarés, Catunda, Jaguaribe, Morada Nova, Parambu, Saboeiro e Tarrafas.
Prevenção e alerta
A orientação dos profissionais de saúde é clara: respeitar a legislação ambiental, evitando a caça ao tatu, e adotar medidas de proteção ao lidar com o solo seco, como o uso de máscaras PFF2 ou N95. “A doença tem cura, mas o diagnóstico precoce é fundamental. Ao perceber sintomas respiratórios após contato com solo seco, especialmente em áreas rurais, a pessoa deve procurar atendimento médico”, reforça a infectologista.
O alerta vale especialmente para trabalhadores rurais, agricultores, escavadores e moradores do interior do Ceará, onde o ambiente é mais propício à propagação do fungo. A coccidioidomicose é mais um exemplo de como crimes ambientais podem ter consequências diretas e perigosas para a saúde humana.




