Pelo menos 26 palestinos foram mortos neste sábado (10) enquanto tentavam obter ajuda humanitária na Faixa de Gaza, segundo hospitais e testemunhas. As mortes ocorreram em diferentes pontos do território, em meio à crescente escassez de alimentos e ao agravamento da crise humanitária.
Funcionários de hospitais relataram que corpos chegaram de áreas próximas a rotas de comboios de alimentos e pontos de distribuição privados. No sul, dez pessoas foram mortas enquanto aguardavam caminhões de ajuda perto do recém-construído corredor Morag, que liga Rafah a Khan Younis, informou o Hospital Nasser. Outras seis morreram no norte, próximo à travessia de Zikim, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza e o Hospital Shifa, na Cidade de Gaza.
No centro do território, testemunhas relataram disparos de advertência seguidos de tiros contra a multidão que se aproximava de um ponto de distribuição operado pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF). O Hospital Awda, no campo de refugiados de Nuseirat, afirmou que quatro pessoas morreram, vítimas de disparos israelenses. “Primeiro, atiraram para o alto. Depois, começaram a atirar nas pessoas”, disse Sayed Awda, que estava no local.
Ainda segundo o Hospital Nasser, outras seis pessoas foram mortas ao tentar chegar aos centros da GHF em Khan Younis e Rafah. Apesar de contar com apoio dos EUA e de Israel como alternativa ao sistema de ajuda da ONU, as operações da fundação têm sido marcadas por episódios de violência e caos. Em nota à Associated Press, a GHF afirmou que “não houve incidentes em ou próximos aos nossos locais hoje” e atribuiu os episódios a saques a comboios de ajuda.
O Exército israelense negou envolvimento em incidentes perto de pontos de distribuição no centro de Gaza. Ainda neste sábado, ataques aéreos mataram sete pessoas, segundo hospitais locais — três perto do porto pesqueiro da Cidade de Gaza e quatro, incluindo duas crianças, em uma tenda em Khan Younis. Israel não comentou os ataques, mas acusou o Hamas de operar em áreas civis.
Mortes por fome em alta A ofensiva aérea e terrestre de Israel, que já deslocou a maior parte da população de Gaza, empurrou o território para um cenário de fome generalizada. Duas crianças palestinas morreram neste sábado de causas relacionadas à desnutrição, elevando para 100 o número de crianças mortas pela fome desde o início da guerra. No total, 117 adultos também morreram por desnutrição desde o fim de junho, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Essas mortes não estão incluídas no balanço oficial de 61,4 mil vítimas palestinas desde outubro de 2023. O órgão, parte do governo do Hamas, afirma que cerca da metade dos mortos são mulheres e crianças, dado considerado confiável por especialistas independentes e pela ONU.
Protestos e pressão política em Israel A possibilidade de expansão da ofensiva israelense na Cidade de Gaza provocou reações dentro e fora do país. Famílias de reféns e organizações civis convocaram uma greve geral para a próxima semana, exigindo a suspensão das operações militares.
Em Tel Aviv, dezenas de milhares de pessoas participaram de um dos maiores protestos anti-governo dos últimos meses. Familiares de reféns alertam que aprofundar a ofensiva colocará em risco os cerca de 50 sequestrados que ainda permanecem em Gaza — 20 deles acreditados como vivos.
Lishay Miran-Lavi, cujo marido Omri é um dos reféns, fez um apelo ao presidente dos EUA, Donald Trump, e ao enviado especial Steve Witkoff para que intervenham. “A decisão de enviar o exército mais profundamente em Gaza é um perigo para meu marido, Omri. Ainda podemos evitar essa catástrofe”, afirmou.
Cisjordânia sob tensão Neste domingo, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, visitou a parte norte da Cisjordânia ocupada, anunciando que o Exército permanecerá nos campos de refugiados da região até o fim do ano. Mais de 40 mil palestinos foram deslocados desde janeiro, no maior êxodo na área desde 1967. Segundo Katz, os alertas sobre ataques contra israelenses na região caíram 80% desde o início da operação.




