Mais de 60 corpos foram levados para a Praça São Lucas, no Complexo da Penha, entre a noite de ontem e a manhã desta quarta-feira (23), um dia após a operação com mais mortos da história do Rio de Janeiro. Somando com os 64 mortos confirmados ainda no dia de ontem, o número total de mortos pode chegar aos 129.
Ao menos 65 corpos foram deixados na praça conforme eram retirados de diferentes pontos da comunidade por moradores. Cerca de 25 deles estavam em uma área de mata no alto da Serra da Misericórdia, além de outros espalhados em diferentes regiões. Familiares das vítimas acompanharam, em desespero, a remoção dos corpos.
As mortes ainda não foram incluídas na contagem oficial do governo do Rio, que ontem confirmou 64 vítimas da operação. O comandante da Polícia Militar afirmou que, até o momento, não é possível confirmar se as novas mortes estão relacionadas à ação policial.
Durante a madrugada, seis corpos também foram deixados por um carro na porta do Hospital Getúlio Vargas, que recebeu ainda feridos da operação — o estado de saúde deles não foi atualizado até o momento.
A remoção dos corpos foi feita por rabecões da Defesa Civil, conduzidos por bombeiros militares. Nenhum policial foi visto na Praça São Lucas durante o trabalho de recolhimento na manhã de hoje. O Instituto Médico Legal (IML) do Rio foi fechado para receber exclusivamente as vítimas da operação; outros corpos serão encaminhados ao IML de Niterói, segundo a Polícia Civil.
Familiares começaram a chegar ao local para fazer a identificação das vítimas. Eles estão sendo triados na sede do Detran, ao lado do IML, no Centro do Rio. A Defensoria Pública e a Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado (Raave) acompanham o processo e prestam apoio às famílias.
A Zona Norte amanheceu com ruas mais vazias e pontos de ônibus sem movimento. Em um trajeto de 13 quilômetros pela região, foram vistas viaturas em pelo menos 12 pontos diferentes. O policiamento é mais intenso na Linha Amarela, Avenida Braz de Pina e vias próximas aos Complexos da Penha e do Alemão. O clima permanece tenso: um carro queimado bloqueia uma das entradas da Vila Cruzeiro.
Na Rua Aimoré, três veículos incendiados marcam o local onde barricadas foram erguidas durante a operação. Comércios permanecem fechados e há pouca circulação de moradores. O bairro da Penha, onde fica o complexo, abriga mais de 50 mil pessoas.
Operação já é a que registrou mais mortos na história do Rio de Janeiro
A megaoperação contra integrantes do Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, já é a mais letal da história do Estado, de acordo com dados do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).
No total, cerca de 2,5 mil policiais civis e militares participaram da ofensiva desta terça-feira. No Alemão e na Penha, 48 escolas tiveram as atividades afetadas. Além do clima de medo nas favelas, houve interferência na Linha Amarela e tentativas de bloqueio da Avenida Brasil.
De acordo com o relatório Chacinas Policiais, produzido pelo Geni/UFF, no período de 2007 a 2021, foram realizadas 17.929 operações policiais em favelas na Região Metropolitana do Rio, das quais 593 terminaram em chacinas, com um total de 2.374 mortos. Isso representa 41% do total de óbitos em operações policiais no período.
Além disso, o estudo mostra que o Jacarezinho era, até então, a localidade com o maior número de mortos em chacinas. Em média, a cada 10 operações realizadas no Jacarezinho ocorrem 7 mortes.
O relatório também aponta que das 593 chacinas policiais ocorridas entre 2007 e 2021, 64,6% ocorreram na capital (383 ocorrências, com 1.599 mortos), 21,4% na Baixada Fluminense (127 ocorrências, com 475 mortos) e 14,0% no Leste Fluminense (83 ocorrências, com 300 mortos), portanto, a região que concentra o maior número de chacinas é a capital, seguida da Baixada Fluminense e do Leste Fluminense.
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