No Dia da Consciência Negra, realizado em 20 de novembro, data que marca a morte de Zumbi dos Palmares — símbolo da luta contra a escravidão — o maracatu cearense ganha destaque como uma expressão cultural fundamental para a preservação da identidade negra e para a reafirmação da ancestralidade africana. No Ceará, grupos dedicados mantêm viva essa tradição composta por dança, música e teatro, unindo arte e resistência política.
Reconhecido como patrimônio imaterial e símbolo da negritude, o maracatu reverencia antigos reinados africanos e gerações atravessa no Estado, fortalecendo a memória cultural da população negra.
História do Maracatu no Ceará
O pesquisador e coordenador do Maracatu Solar, Pingo de Fortaleza, explica que os primeiros registros dessa manifestação cultural remontam ao século XIX. "Existiam alguns embriões desses grupos no final do século XIX. Contudo, o primeiro grupo que surgiu com caráter carnavalesco, voltado para o carnaval, foi o Maracatu Az de Ouro, fundado em 1936 por um negro da periferia chamado Raimundo Alves Feitosa, conhecido como Raimundo Poca Berta, que já participou de outros folguedos."
Há duas décadas, o Maracatu Solar no passado e apresenta ao abordar temas ligados a entidades e orixás de religiões afro-brasileiras, promovendo profundas reflexões culturais e políticas. Diferente do formato tradicional, o grupo não utiliza o “negrume” — pintura preta no rosto.
Pingo detalha essa transformação estética: "O Ednardo chamou na sua canção de falso negrume, depois o Gilmar de Carvalho citou como negrume. Em meus livros mais recentes, prefiro chamar essas pinturas de 'fantasias de negro', pois acompanham fantasias que simbolizam o ato de fantasiar o negro."
Segundo ele, a estética dos grupos sofre mudanças constantes: "Alguns grupos apresentam variações em suas concepções estéticas e formas de atuação. Dentro desse contexto, o Maracatu Solar se destaca por características bastante particulares."
Pertencimento e identidade afro-brasileira
Integrante do Maracatu Solar há oito anos, o instrutor de batuque e professor de educação física Janderson compartilha que sua participação ampliou sua conexão com as raízes afro-brasileiras: "Refletir sobre o pertencimento à cultura afro-brasileira me ajudou a entender melhor minha identidade dentro dessa cultura. Como professor, isso foi fundamental para levar esse tema para a sala de aula, trabalhando com meus alunos do ensino médio a cultura popular típica do Ceará."
Para a educadora Erika, que há seis anos representa a rainha nas apresentações, o maracatu funciona como um instrumento de cura e autoafirmação: "Diante de tantas violências, racismo e preconceito, muitas vezes negamos nossa raça e nosso lugar social. O contato com as danças da cultura afro-brasileira tradicional me trouxe reconhecimento e orgulho. No Maracatu Solar, continuo esse processo de valorização da minha ancestralidade."
Cultura afro-brasileira
Apesar das apresentações atingirem seu auge no carnaval, o trabalho desses grupos é contínuo. O Maracatu Solar promove ações formativas diárias: "Somos um ponto de cultura. Oferecemos aulas sistemáticas de dança, são uma orquestra solar de tambores e temos aulas semanais de percussão. Atualmente, cerca de 250 alunos participam dessas atividades formativas", explica Pingo.
A historiadora Cícera Barbosa, coordenadora da Galeria da Liberdade, reforça o maracatu como uma herança africana viva: "É uma forma de lembrar e celebrar a cultura negra. Pensar nas loas, no toque do tambor, na coletividade, nas comunidades onde estão os maracatus é celebrar essa cultura negra brasileira."
Ela destaca que essa manifestação cultural antecede as políticas públicas de igualdade racial: "O maracatu está inserido nas expressões culturais afro-brasileiras desde antes da criação dessas políticas. Inclusive, no Ceará, comemoramos o Dia Estadual do Maracatu em 25 de março."
Cícera também ressalta o papel fundamental da negritude na história do Ceará, ainda pouco conhecido: "No século XIX, a presença negra em Fortaleza era marcante, desde profissões como doceiras, quitandeiras, até as resistências contra violências coloniais. Esses corpos transatlânticos costuraram várias noções de liberdade, que têm raízes profundas aqui no Ceará."
Ela reforça: "A liberdade começou em Redenção, muito antes da Lei Áurea. Viva a força representativa do maracatu e da cultura africana presente na cultura brasileira e cearense."
Com a aproximação do carnaval, os grupos intensificam os preparativos. "O meu abraço e um bom carnaval 2026 para todos! Os preparativos estão a todo vapor", conclui o coordenador.
O maracatu cearense segue firme como símbolo de resistência, identidade e celebração da negritude, ganhando significado especial no Dia da Consciência Negra.




