O Grupo Cidade de Comunicação realizou, na tarde desta quarta-feira (25), a primeira edição da “Roda da Cidade”, projeto voltado à leitura, escuta e construção coletiva de repertório. O encontro marcou o início de uma iniciativa permanente dentro da instituição, com proposta de continuidade e novos debates ao longo do ano.
A obra escolhida para abrir o ciclo foi o romance “A Palavra que Resta”, do escritor cearense Stênio Gardel. O livro serviu como ponto de partida para a discussão entre os participantes, em um espaço estruturado para troca de experiências e diferentes perspectivas.
Espaço permanente de leitura e diálogo
A “Roda da Cidade” foi apresentada como um projeto contínuo, e não como um evento isolado. A proposta é criar um ambiente de reflexão em meio à rotina profissional, estimulando a formação cultural e o diálogo interno.
Durante o encontro, os participantes puderam compartilhar impressões sobre a obra e debater os temas centrais do romance. A dinâmica foi organizada de forma a permitir a participação voluntária, sem exigência de leitura integral do livro ou obrigatoriedade de fala.
Ao final da edição inaugural, também foram discutidos os próximos passos do projeto, com o objetivo de consolidar a Roda como movimento coletivo dentro do grupo.
"Roda da Cidade" com livro de Stênio Gardel
Publicado nacionalmente e reconhecido pela crítica, “A Palavra que Resta” narra a trajetória de Raimundo, personagem de 71 anos que decide aprender a ler e escrever. Criado na zona rural, ele não frequentou a escola na infância porque precisou trabalhar na roça com o pai. Anos depois, já distante da família e do sertão, guarda apenas uma carta recebida há mais de cinquenta anos.
A correspondência foi enviada por Cícero, com quem Raimundo viveu um relacionamento afetivo mantido em segredo. Após a descoberta da relação, Cícero deixou a cidade, restando apenas a carta que o protagonista nunca conseguiu ler.
Em entrevista ao portal GCMais, Stênio Gardel explicou que a idade avançada do personagem está diretamente ligada à ideia central da narrativa. “A idade do Raimundo surgiu a partir da ideia de uma pessoa que guarda uma carta por muito tempo. Para que essa carta tivesse força, eu realmente precisava que ela fosse mantida fechada e incógnita por muito tempo. Por causa disso, o Raimundo tinha que começar a história já mais idoso, aprendendo a ler e escrever”, afirmou.
Sobre a ambientação, o autor destacou que o livro não delimita um espaço geográfico específico. “O livro não é específico, não tem um lugar determinado na história. Muito dessa identificação parte da linguagem. Eu utilizei muito das vozes que eu ouvi crescendo, e mesmo já depois de adulto, para construir as vozes desses personagens”, disse.
O escritor também comentou a repercussão da decisão de não revelar o conteúdo da carta ao longo da narrativa. “Algumas pessoas adoram que eu não revelo a carta. Se frustram, mas aceitam. E tem aquelas que não aceitam e vão no meu direct dizer um monte de coisa”, relatou.
Segundo Gardel, um dos retornos que mais o impactam é o reconhecimento pessoal dos leitores nos temas abordados. “Tem depoimentos que realmente me dizem que aquele livro foi importante por se reconhecer ou por reconhecer alguém da família. Eu ouvi de uma leitora que a avó tinha o sonho de aprender a ler antes de morrer, e que a leitura ajudou essa avó a realizar esse sonho”, contou.
Ao definir o romance em uma palavra, o autor destacou “possibilidades”. “No final das contas, a última palavra do livro é ‘começo’. E começo é possibilidade, é um mar de caminhos para você criar”, afirmou.
[gallery size="large" columns="2" ids="622711,622710,622709,622707"]
Mediação reuniu literatura e psicologia
O encontro foi mediado por Rafael Caneca (@pacotedetextos), graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará e assessor jurídico no Ministério Público do Estado do Ceará. Escritor desde a infância, ele mantém há mais de dez anos o perfil literário “Pacote de Textos”, integra o coletivo Delirantes e é autor do romance “Não volte sem ele”, resultado de pesquisa sobre os campos de concentração criados no Ceará na década de 1930.
Durante a mediação, Rafael se apresentou como leitor e conduziu a conversa a partir da ideia de que a leitura representa deslocamento e possibilidade de transformação. A abordagem buscou explorar como a literatura permite revisitar experiências e ampliar perspectivas.
A roda também contou com a participação de Nara Barreto (@narafgbarreto), psicóloga clínica e psicoterapeuta, com formação em Gestalt-terapia e em Intervenções Grupais. Especialista em Escrita e Criação, ela atua na clínica individual e na condução de grupos terapêuticos com mulheres. No encontro, trouxe um olhar voltado à elaboração emocional, ao silêncio e à literatura como ferramenta de cuidado.
Outro integrante do diálogo foi Lucas Varella (@psilucasvarella), psicólogo organizacional e professor universitário, que contribuiu com reflexões relacionadas ao comportamento humano e às dinâmicas do mundo do trabalho.
Grupo Cidade de Comunicação
Fundado em 30 de agosto de 1978, o Grupo Cidade de Comunicação completa 47 anos em 2025. Com sede em Fortaleza, o conglomerado reúne televisão, emissoras de rádio e plataformas digitais, consolidando-se como um dos maiores complexos de mídia eletrônica do Ceará. A criação da “Roda da Cidade” integra as ações institucionais voltadas ao fortalecimento cultural e à promoção do debate interno.




