Os índices de gravidez na adolescência registraram queda de quase 40% no Ceará nos últimos nove anos, segundo dados da Estratégias de Prevenção da Gravidez na Adolescência na Atenção Primária, publicada pela Secretaria da Saúde do Ceará.
Em 2016, 19,04% dos nascidos vivos no estado eram filhos de mães entre 10 e 19 anos, faixa etária considerada para caracterizar a gravidez na adolescência. Em 2025, o percentual caiu para 11,39%. Em números absolutos, o total anual de nascidos vivos de mães adolescentes passou de 24.034 para 11.627 no período, o que representa uma diferença de 12.407 casos entre o início e o fim da série histórica.
Com a redução, o Ceará passou de quase um em cada cinco nascimentos nessa faixa etária para pouco mais de um em cada dez.
Indicador tem impactos sociais e de saúde
A coordenadora de Atenção Primária à Saúde (Coaps) da Sesa, Thaís Facó, explica que a gravidez precoce produz repercussões que vão além da gestação. “Entendemos que esse é um indicador que tem repercussões biopsicossociais na vida dessa menina, da sua família e da comunidade”, afirma.
Ela destaca que o indicador também está relacionado a riscos clínicos. “Esse é um indicador que tem relação direta com mortalidade materna infantil, considerando que mães adolescentes têm mais risco de evoluir para complicações na gravidez, podendo repercutir também em prematuridade e mortalidade infantil”, ressalta.
Segundo a gestora, a redução dos índices reflete adolescentes que puderam adiar a maternidade, ampliar as possibilidades de permanência na escola e estruturar outros projetos de vida.
Gravidez na adolescência no Ceará e fortalecimento da Atenção Primária
A queda no indicador é atribuída ao fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS), que funciona como principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e é de responsabilidade dos municípios. Nesse contexto, a Sesa atua na coordenação estadual, oferecendo suporte técnico, formação continuada e estruturando políticas que qualificam o cuidado nos territórios.
De acordo com Thaís Facó, o resultado é consequência de um processo contínuo de organização da rede. “A Atenção Primária é o espaço onde é possível atuar de forma preventiva, com acompanhamento próximo das adolescentes, qualificação do pré-natal e ampliação do planejamento reprodutivo. O papel do Estado é apoiar tecnicamente os municípios para que esse cuidado aconteça com qualidade”, afirma.
Entre as iniciativas implementadas está o Projeto De Braços Abertos – atenção desde o primeiro cuidado, lançado em 2023. A estratégia organiza e qualifica os processos de trabalho nas regiões de saúde por meio de três eixos: Educação Permanente, Planificação e Rede de Articuladores. O projeto apoia a organização do pré-natal, a estratificação de risco e o planejamento reprodutivo, em suporte à atuação municipal.
Outro eixo de atuação envolve o Programa Saúde na Escola (PSE), iniciativa do Ministério da Saúde executada em parceria com os municípios. No Ceará, os 184 municípios aderem ao programa, que funciona por ciclos bianuais e prevê articulação entre as redes de saúde e educação.
A assessora técnica da Coaps, Ana Beatriz Pinheiro, explica que o Estado atua por meio de um grupo de trabalho intersetorial estadual. “A gente atua por meio do grupo de trabalho intersetorial estadual, apoiando os municípios, para que as ações aconteçam de forma integrada entre saúde e educação”, afirma.
Segundo ela, as equipes da Atenção Primária desenvolvem atividades educativas nas escolas ao longo do ano, abordando temas como saúde sexual e reprodutiva e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. “O objetivo é fomentar o diálogo com os adolescentes dentro do ambiente escolar, ampliando o acesso à informação e à prevenção”, destaca.
Planejamento reprodutivo amplia acesso à informação e métodos contraceptivos
No Hospital Geral de Fortaleza, unidade da Rede Sesa, o serviço de planejamento reprodutivo é apontado como exemplo de como a política pública se traduz no atendimento direto à população. A atuação dialoga com a prevenção da gravidez na adolescência ao ampliar o acesso à informação qualificada, métodos contraceptivos e acolhimento sem julgamento.
A enfermeira da unidade, Laiane Melo, explica que o planejamento reprodutivo é um direito garantido por lei e assegura a homens e mulheres a possibilidade de decidir se desejam ter filhos, quantos filhos terão e em que momento da vida. “O serviço oferece orientação qualificada sobre métodos contraceptivos, incluindo indicações, contraindicações e critérios de elegibilidade, garantindo escolhas informadas e adequadas à realidade de cada paciente”, comenta.
Ela reforça que o cuidado vai além da prevenção. “Não se trata apenas de evitar uma gravidez, mas de garantir escolhas conscientes e possíveis para esses adolescentes. Planejar não é proibir. É dar informação e apoio para que cada adolescente possa decidir com autonomia”, ressalta.
O atendimento é realizado por equipe multiprofissional, com acolhimento, apresentação dos métodos disponíveis, esclarecimento de dúvidas e entrevista individual para definição da estratégia mais adequada. “A gente trabalha para que o adolescente se sinta acolhido e tenha informações claras para fazer escolhas conscientes, sem julgamento”, afirma.
O serviço integra a rede pública estadual e funciona de forma articulada com os demais pontos de atenção à saúde, compondo a estratégia de fortalecimento da Atenção Primária e contribuindo para a redução dos índices de gravidez na adolescência no Ceará.




