O Movimento de Mulheres Olga Benario realizou a ocupação de um prédio público abandonado no Centro de Fortaleza, no Ceará, e criou a Ocupação de Mulheres Dandara dos Santos. A iniciativa integra uma mobilização nacional promovida pelo movimento em diferentes estados do país para denunciar o aumento dos casos de feminicídio e cobrar políticas públicas de proteção às mulheres.
A ação ocorre no momento em que o movimento completa 15 anos de atuação. Segundo a organização, a data também foi escolhida para manter viva a memória da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 na cidade do Rio de Janeiro. A parlamentar ficou conhecida pela atuação em defesa dos direitos humanos e pelo enfrentamento à violência contra populações vulneráveis.
Em Fortaleza, a ocupação recebeu o nome de Ocupação Dandara dos Santos, em homenagem a Dandara dos Santos, mulher trans fortalezense torturada e assassinada em um crime que teve repercussão nacional e passou a simbolizar a violência contra mulheres e pessoas trans.
Novo uso para prédio público abandonado
O local ocupado pelo movimento é o antigo Centro de Referência Janaína Dutra, estrutura vinculada à Prefeitura de Fortaleza. De acordo com integrantes da mobilização, o prédio estava abandonado e vinha sendo utilizado de forma irregular, além de representar risco para moradores da região.
Segundo a coordenação do movimento, a ocupação busca dar nova função ao espaço, transformando-o em um ponto de acolhimento para mulheres em situação de violência e vulnerabilidade social.
As integrantes afirmam que a iniciativa também pretende chamar atenção para o que classificam como falta de políticas públicas suficientes para enfrentar a violência de gênero no país.
“A ação é uma reação do conjunto das mulheres brasileiras que estão cansadas de tanta violência e de enterrar suas irmãs, mães, amigas e filhas”, informou a coordenação do movimento.
Ocupação Dandara dos Santos em Fortaleza denuncia aumento do feminicídio
Dados citados pelo movimento indicam que, em 2025, o Brasil registrou 1.528 vítimas de feminicídio, número considerado o mais alto da última década. Ainda segundo informações divulgadas pelo grupo, cerca de 3,7 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência de gênero no país, de acordo com levantamento do DataSenado.
No Ceará, os dados apontam aumento de 49,3% nos registros de feminicídio. Com isso, o estado passou da quinta para a quarta posição entre os mais violentos para mulheres no país, conforme os números citados pelo movimento.
Diante desse cenário, as integrantes afirmam que a ocupação busca pressionar autoridades públicas para ampliar ações de proteção e prevenção à violência contra mulheres.
Histórico de atuação do movimento no Ceará
Esta não é a primeira iniciativa do Movimento Olga Benario no estado. Em 2022, a organização criou a Ocupação Preta Simoa, instalada no bairro Benfica, em Fortaleza. O espaço funcionou como abrigo para mulheres em situação de vulnerabilidade, mas sofreu despejo no ano seguinte.
Apesar da desocupação, integrantes do movimento afirmam que a rede de apoio construída naquele período continuou prestando acolhimento a mulheres vítimas de violência. Muitas delas, segundo a organização, procuram o movimento em busca de moradia temporária ou apoio diante de dificuldades econômicas e sociais.
Segundo uma das coordenadoras que acompanha os acolhimentos semanalmente, o movimento tenta há anos dialogar com os governos estadual e municipal para desenvolver ações conjuntas de proteção às mulheres.
De acordo com ela, no entanto, as propostas apresentadas ainda não tiveram encaminhamento efetivo.
“Há anos tentamos diálogo com o poder público para garantir que as necessidades reais das mulheres sejam atendidas. Nosso trabalho continua sendo realizado com a disposição da militância e o apoio da sociedade civil”, afirmou.
Carta de reivindicações e mobilização social
Durante a ocupação, o movimento apresentou uma carta de reivindicações elaborada por mulheres cearenses. O documento reúne dez propostas voltadas ao fortalecimento de políticas públicas de proteção às mulheres e ao enfrentamento da violência de gênero.
Entre os pontos apresentados estão ações de prevenção, ampliação de serviços de acolhimento e medidas voltadas à proteção de meninas e mulheres em situação de risco.
As integrantes da ocupação afirmam ainda que a mobilização depende do apoio da população para manter as atividades no local. O movimento informou que recebe doações financeiras, além de produtos de limpeza, materiais de papelaria, móveis e outros itens necessários para a manutenção do espaço.
Mais informações sobre a iniciativa e formas de apoio podem ser encontradas nas redes sociais do movimento, por meio do perfil @movimentoolga.ce no Instagram.




