O Centro de Fortaleza reúne parte importante da história, do comércio e da circulação de pessoas na capital cearense. A área se estende do oceano ao bairro Benfica e do Meireles até a Jacarecanga, abrigando pontos históricos, equipamentos culturais e um intenso comércio popular. Mesmo não sendo o bairro mais populoso da cidade, o local recebe diariamente centenas de milhares de visitantes.
A região tem cerca de 28 mil moradores, mas concentra aproximadamente 68 mil trabalhadores. Além disso, cerca de 350 mil pessoas passam pelo bairro todos os dias. Entre compras, trabalho e turismo, o Centro continua sendo uma referência econômica e cultural para Fortaleza.
Praças históricas, igrejas tradicionais e ruas inteiras dedicadas ao comércio ajudam a explicar por que a região segue tão movimentada.
Comércio popular do Centro de Fortaleza movimenta ruas tradicionais
Entre os polos de vendas mais conhecidos está o chamado Buraco da Gia, localizado na rua José Avelino, área famosa pela comercialização de roupas que abastecem comerciantes de todo o país. Durante a madrugada, permissionários se preparam para receber compradores que vêm em busca de mercadorias para revenda.
O permissionário Wellington Júnior explica que o nome do local surgiu de uma característica antiga da área. Segundo ele, havia um grande buraco no terreno e, em dias de chuva, era comum a presença de pequenos anfíbios.
“Porque aqui existia um grande buraco, e quando chovia, as gias saíam. Hoje a gente tem galerias climatizadas. O Buraco da Gia já existe há 40 anos e faz parte da tradição de Fortaleza. As pessoas de todo o Brasil e do interior do nosso estado vêm comprar mercadoria para revender em suas cidades”, afirma Wellington Júnior.
Outro ponto tradicional é o Beco da Poeira, que também reúne diversas lojas populares e vende desde brinquedos até eletrônicos e acessórios.
Permissionário no local há cerca de um ano, Amilton Melgaço diz que o fluxo de consumidores no Centro tem garantido sua renda. Ele destaca que o movimento constante é um dos fatores que fazem o comércio da região continuar forte.
“Muito bom ter movimento. Tem um fluxo do Centro, é mais aqui. Está dando tudo certo, é minha fonte de renda, é daqui que eu vejo meu sustento vindo”, afirma Amilton Melgaço.
Galerias e comércio popular surgiram no Centro da capital
De acordo com o historiador Waldejares Oliveira, o Centro de Fortaleza foi o berço das primeiras galerias comerciais da cidade, modelo que permanece ativo até hoje.
Ele explica que o formato do bairro ajudou a impulsionar esse tipo de comércio. Segundo o pesquisador, algumas ruas estreitas favoreceram o surgimento de corredores comerciais internos.
“Por conta da planta feita por Adolfo Herbster, o Centro de Fortaleza tem algumas ruas mais estreitas. Nessas ruas começam a surgir galerias que vão ganhar peso. Nos anos 60, o surgimento do que hoje chamamos de Galeria Pedro Jorge talvez seja o ponto de destaque desse momento”, afirma Waldejares Oliveira.
O historiador acrescenta que, a partir da década de 1960, o comércio popular ganhou destaque e passou a crescer paralelamente às grandes lojas instaladas na região.
Ruas temáticas reforçam identidade comercial do bairro
Outra característica marcante do Centro são as ruas temáticas, onde lojas de segmentos semelhantes se concentram.
A rua Major Facundo, por exemplo, é conhecida pelas lojas de tecidos e produtos têxteis. Já a rua Castro e Silva se destaca pelo comércio de artigos para festas.
A vendedora Maria do Livramento explica que é possível encontrar praticamente tudo para a organização de eventos em um único local.
“Aqui você encontra artigo para decoração, balões, vela, prato, copo, talher, tudo descartáveis e gerais. Temos também bombons, fantasias, TNT, colares havaianos, artigos gerais para festa”, conta Maria do Livramento.
O comércio familiar também é comum na região. Muitos negócios passam de geração para geração, como relata o empresário Emanuel Vinícius, que cresceu ajudando os pais na loja.
“Desde pequeno meus pais já traziam a gente para cá. Aqui é um ambiente muito familiar. Hoje, graças a Deus, a gente já está assumindo”, afirma Emanuel Vinícius.
Algumas ruas reúnem mais de um segmento comercial. A rua Pedro Pereira, por exemplo, concentra lojas de instrumentos musicais, materiais elétricos e também óticas.
O vendedor Bruno Moreira explica que a diversidade de produtos atrai clientes em busca de diferentes itens.
“Diversifica tudo. De cabos a instrumentos. Tudo que você procurar na Pedro Pereira você vai encontrar”, afirma Bruno Moreira.
Uma das empresárias que atua na região é Áurea Elizete, que realizou o sonho de ter um negócio próprio no setor óptico.
“Eu tinha um sonho de colocar algo para mim. Resolvi que o que eu sabia fazer era vender óculos. Eu amo o que eu faço”, afirma Áurea Elizete.
Centro de Fortaleza mantém importância econômica
Além da tradição comercial, a região também reúne equipamentos históricos e culturais importantes, como a Praça do Ferreira, o Passeio Público, a Praça dos Leões, a Estação das Artes e o Mercado Central. O bairro ainda abriga diversos templos religiosos, entre eles o Santuário de São José, considerado a terceira maior catedral do Brasil.
Para o vice-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Fortaleza, Assis Cavalcante, a estrutura de transporte e a diversidade de produtos ajudam a manter o Centro como destino de compras.
“São diversas linhas de ônibus que trazem as pessoas para o Centro de Fortaleza. O bairro também tem a parte histórica que atrai turistas, cinema e toda uma estrutura que faz os consumidores gostarem de vir ao Centro para fazer compras”, afirma Assis Cavalcante.
Ele destaca ainda que o comércio local permite uma relação direta entre consumidores e lojistas.
“O cliente pode pesquisar mais, negociar diretamente com o dono da loja, porque muitas são pequenas lojas. Então ele negocia direto”, acrescenta.
Mesmo com o crescimento do comércio em bairros da cidade, especialistas acreditam que o Centro continuará sendo uma referência econômica.
Segundo o historiador Waldejares Oliveira, o bairro deve passar por transformações, mas não perderá sua importância.
“Isso não quer dizer que o Centro vai morrer. Pelo contrário, ele vai ganhar novas conotações. A prefeitura já incentiva há alguns anos a habitação residencial no Centro. Se há residências, há comércio e abastecimento. O que vai acontecer não é o fim do Centro, mas uma transformação do comércio da região”, conclui Waldejares Oliveira.




