Os 11 tripulantes de um navio africano que permaneceu à deriva por cerca de dois meses no Oceano Atlântico foram resgatados em condições consideradas precárias e levados ao Porto de Fortaleza, no Ceará. A situação foi confirmada pela Polícia Federal, que apontou problemas como falta de higiene, restrição de acesso à água potável, elevado nível de estresse psicológico e ausência de comunicação com familiares durante o período em alto-mar.
A embarcação, identificada como NW AIDARA, estava sem controle desde o dia 5 de fevereiro, após apresentar falha no sistema hidráulico. A Marinha do Brasil realizou o resgate e o reboque do navio até a capital cearense na última sexta-feira (27), após a embarcação entrar em área sob jurisdição brasileira.
Falha técnica e isolamento em alto-mar
Segundo informações das autoridades, a falha que deixou o navio à deriva foi causada pelo rompimento de uma mangueira hidráulica, o que provocou vazamento de óleo e danos ao sistema de acionamento do leme. Com isso, o controle da direção foi comprometido, fazendo com que a embarcação seguisse à deriva até alcançar águas brasileiras.
Durante esse período, os tripulantes enfrentaram dificuldades severas de comunicação. O navio perdeu acesso aos sistemas de comunicação via satélite e rádio de alta frequência (HF), restando apenas o contato por Very High Frequency (VHF), limitado a embarcações próximas. Esse cenário contribuiu para o isolamento da tripulação, que chegou a solicitar socorro ainda em águas estrangeiras, sem resposta.
A situação a bordo também levou a uma medida extrema: a substituição do comandante por decisão da própria tripulação, diante do agravamento do estado emocional do líder da embarcação. O episódio evidencia o nível de tensão psicológica enfrentado durante o período de deriva.
Resgate de navio africano à deriva mobiliza Marinha e autoridades
A Marinha do Brasil informou que recebeu a primeira notificação sobre o caso em 25 de fevereiro, quando o navio ainda estava fora da área de responsabilidade brasileira, sob jurisdição de Dakar, em um trecho entre o Nordeste do Brasil e a África Ocidental. O Serviço de Busca e Salvamento foi acionado assim que o navio entrou na área do Salvamar Nordeste, a cerca de 675 milhas náuticas (1.250 quilômetros) da costa.
No dia 9 de março, o Navio-Patrulha Oceânico Araguari foi enviado para interceptar a embarcação, com o objetivo de restabelecer comunicação, avaliar as condições da tripulação e fornecer apoio, se necessário. Paralelamente, a corveta Caboclo partiu de Salvador (BA) com destino a Fortaleza (CE) para reforçar a operação.
Dias depois, o Navio Rebocador de Alto-Mar Triunfo deixou o porto de Natal (RN), realizou o resgate da embarcação estrangeira e conduziu o navio até o Porto de Fortaleza. A operação envolveu diferentes unidades navais e foi considerada bem-sucedida pelas autoridades.
De acordo com a Polícia Federal, o navio apresenta indícios de irregularidades documentais, incluindo divergências relacionadas à bandeira declarada e a registros eletrônicos analisados. Até o momento, nenhum responsável legal pela embarcação foi identificado ou se apresentou às autoridades.
A Polícia Federal segue atuando na verificação da situação migratória dos tripulantes e na adoção das medidas administrativas cabíveis, em conjunto com a Marinha do Brasil e outros órgãos competentes. As ações estão sendo conduzidas com base em princípios humanitários e na legislação vigente.
Em nota, o comandante do 3º Distrito Naval, vice-almirante Jorge José de Moraes Rulff, destacou que o sucesso da missão vai além da recuperação da embarcação. Segundo ele, a principal conquista foi garantir a integridade física e psicológica dos tripulantes, que agora têm a possibilidade de retornar aos seus países de origem após o período de risco enfrentado no mar.




