Em meio ao crescimento acelerado de Fortaleza, com avenidas movimentadas, prédios e trânsito intenso, o bairro Monte Castelo ainda preserva características que lembram cidades do interior. Na região, vizinhos continuam se conhecendo pelo nome, moradores mantêm conversas nas calçadas e histórias antigas seguem vivas na memória de quem acompanhou a transformação do bairro ao longo das décadas.
Localizado na zona oeste da capital, o Monte Castelo carrega parte importante da história de Fortaleza. O bairro, que já foi conhecido como Açude João Lopes, reúne lembranças ligadas à formação da cidade, à religiosidade, às tradições comunitárias e até à Segunda Guerra Mundial.
Monte Castelo preserva rotina tranquila em meio ao crescimento de Fortaleza
Com os 300 anos de Fortaleza sendo celebrados em 2026, bairros tradicionais ajudam a mostrar como a capital mudou ao longo do tempo sem apagar completamente suas origens. O Monte Castelo é um desses exemplos.
Mesmo cercado pelo desenvolvimento urbano, o bairro mantém um perfil predominantemente residencial e um cotidiano mais tranquilo, marcado pela convivência entre moradores antigos e novas gerações.
O aposentado Joel Marques Pessoa, que saiu de Tianguá, na Serra da Ibiapaba, e mora no bairro há mais de quatro décadas, relembra como era a região quando chegou ao local.
“Saí da Serra da Ibiapaba. Em 1990, eu fiz residência fixa aqui, onde eu estou hoje, Monte Castelo. Quando nós chegamos aqui, era precário. Esse colégio não tinha muro, era mais matagal. Essa rua que nós estamos em frente aqui, que eu moro, era só lama. Isso aqui era um açude, onde mulheres lavavam roupa.”
Bairro nasceu ao redor do antigo Açude João Lopes
Antes da urbanização, da chegada do comércio e do asfaltamento das vias, a região era conhecida como João Lopes, em referência ao açude que existia no bairro.
O reservatório marcou a vida de muitas famílias durante décadas e ajudou a construir a identidade da comunidade. Entre os anos 1950 e 1970, mulheres utilizavam o local para lavar roupas, enquanto crianças aproveitavam o espaço para lazer e convivência.
A autônoma Auricélia Barbosa, que nasceu e cresceu no bairro, guarda lembranças da infância vivida às margens do açude.
“Minha mãe lavava roupa junto com outras mulheres, a gente tomava banho, era coisa maravilhosa.”
Nome do bairro faz referência à Segunda Guerra Mundial
O nome Monte Castelo surgiu durante o período da Segunda Guerra Mundial. O antigo bairro Açude João Lopes foi rebatizado em homenagem à Batalha de Monte Castelo, travada na Itália, da qual participaram soldados brasileiros, incluindo combatentes cearenses.
O historiador Waldejares Oliveira explica que outros bairros de Fortaleza também receberam nomes ligados ao conflito naquele período.
“E naquele fervor nacionalista após a Segunda Guerra Mundial, alguns bairros de Fortaleza foram rebatizados com nomes de batalhas na qual participaram cearenses naquele conflito. Um desses bairros é o Açude João Lopes, que depois passou a se chamar Monte Castelo. Então o nome Monte Castelo é uma referência a uma importante batalha da Segunda Guerra Mundial na qual participaram e morreram cearenses.”
A principal avenida do bairro também homenageia um combatente cearense: o sargento Hermínio.
Praça Redonda guarda lembranças de encontros e festas antigas
Entre os pontos mais tradicionais do bairro está a Praça Coronel João Pontes, conhecida popularmente como Praça Redonda.
O espaço marcou gerações e já foi cenário de encontros comunitários, quermesses, festas e apresentações culturais.
Segundo o historiador Waldejares Oliveira, a região era um dos principais pontos de convivência social da comunidade durante os anos 1970.
“Nós estamos aqui na Praça Benjamin Barroso, bem do lado de onde funcionava o Clube Internacional. Era um ponto de encontro na época ali. Estamos nos anos 1970. Estamos falando ali do que o pessoal daquela época chamava de quermesse. Esses encontros em que os mais jovens agitavam no fim de semana.”
Fé e comunidade ajudaram a construir o bairro
Grande parte dos moradores que ajudaram a formar o Monte Castelo veio do interior do Ceará, levando para o bairro costumes religiosos e forte espírito comunitário.
A aposentada Marina, natural de Mombaça, chegou ao bairro ainda jovem e construiu uma trajetória ligada à igreja e às ações sociais da comunidade.
“Sempre fui da igreja, sempre. Lá de Mombaça eu já vim, quando cheguei aqui já fui com os padres, gostando da igreja.”
A Paróquia Senhor do Bonfim, que já possui cerca de seis décadas de atuação, tornou-se um dos símbolos da vida comunitária no bairro.
Dona Marina participou de diversos projetos sociais e relembra uma das iniciativas mais marcantes da região: a construção de moradias populares ao lado de Dom Aloísio Lorscheider na década de 1980.
“Em 1985, eu estava em Aparecida com o Dom Aloísio Lorscheider e foi despejado um terreno ali. Aí ele falou pra mim: Marina, quando chegar lá a gente vai resolver isso aí. Aí eu cheguei e ele falou: Marina, você vai administrar isso. Eu disse: não, Dom Aloísio, eu não sou engenheiro, não sou arquiteto, não sou pedreiro, por quê? Ele disse: não, você vai. Aí eu fiquei. Foram as primeiras 120 casas.”
Moradores destacam qualidade de vida e sentimento de pertencimento
Apesar das transformações urbanas e da valorização imobiliária da região, moradores afirmam que o Monte Castelo continua preservando o sentimento de comunidade.
O bairro faz divisa com regiões tradicionais como São Gerardo, Ellery, Carlito Pamplona, Álvaro Weyne, Farias Brito e Presidente Kennedy, além de estar próximo de importantes corredores viários, como a Avenida Bezerra de Menezes.
Mesmo com a movimentação típica de uma capital, muitos moradores afirmam que ainda encontram no bairro um ambiente acolhedor e familiar.
“Eu tenho muita amizade por causa do futebol. Eu não tenho o que dizer daqui dos moradores”, afirmou Joel Marques Pessoa.
Já Dona Marina resume em poucas palavras a relação afetiva construída com o bairro ao longo da vida.
“O povo do Monte Castelo é muito bom. É muito bom mesmo. Hoje eu me sinto muito feliz aqui.”




