A troca de críticas entre os deputados federais André Fernandes (PL-CE) e Erika Hilton (PSOL-SP) ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (29). O parlamentar cearense publicou um vídeo nas redes sociais em que utiliza o nome de registro da deputada paulista ao comentar o embate político entre os dois. A publicação gerou reações de entidades ligadas à defesa dos direitos da população LGBTQIA+ e reacendeu discussões sobre transfobia, identidade de gênero e os limites do discurso político no Brasil.
A repercussão levou o tema para além do confronto entre os parlamentares, envolvendo também debates jurídicos sobre o reconhecimento da identidade de gênero e o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação a práticas consideradas discriminatórias contra pessoas trans.
Como começou o embate entre André Fernandes e Erika Hilton
A divergência teve origem durante discussões na Câmara dos Deputados sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata da redução da jornada semanal de trabalho e da substituição gradual da escala 6x1.
Durante o debate, André Fernandes criticou a atuação de Erika Hilton e afirmou que a parlamentar não teria conseguido avançar com propostas mais amplas relacionadas à pauta trabalhista.
A resposta veio da própria deputada, que rebateu as críticas e citou um vídeo antigo produzido por André Fernandes antes de sua entrada na política institucional. A troca de acusações rapidamente ultrapassou o plenário e passou a repercutir nas redes sociais.
Foi nesse contexto que o deputado cearense publicou um novo vídeo direcionado à parlamentar, intensificando a discussão.
O que é deadnaming e por que a prática gera controvérsia
O vídeo divulgado por André Fernandes passou a ser criticado por utilizar o nome de registro de Erika Hilton.
A prática é conhecida como "deadnaming", expressão utilizada para descrever o uso do nome anterior de uma pessoa trans sem seu consentimento. Organizações de defesa dos direitos humanos apontam que essa conduta pode ser utilizada para constranger, ridicularizar ou deslegitimar a identidade de gênero da pessoa atingida.
O tema tem sido cada vez mais debatido em ambientes institucionais, educacionais e jurídicos, especialmente após avanços no reconhecimento dos direitos da população trans no Brasil.
O que diz o STF sobre transfobia no Brasil
Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal determinou que atos de homofobia e transfobia sejam enquadrados na Lei nº 7.716/1989, conhecida por tratar dos crimes resultantes de discriminação ou preconceito, até que o Congresso Nacional aprove legislação específica sobre o tema.
A decisão passou a servir como referência para casos envolvendo manifestações discriminatórias contra pessoas LGBTQIA+.
Além disso, o ordenamento jurídico brasileiro reconhece o direito de pessoas trans alterarem prenome e gênero em documentos oficiais sem necessidade de cirurgia ou autorização judicial, reforçando o princípio da autodeterminação da identidade de gênero.
Uso do nome de registro pode configurar discriminação?
Especialistas em direitos humanos e juristas apontam que a utilização deliberada do nome de registro de uma pessoa trans pode ser interpretada como prática discriminatória quando ocorre com intenção de ofender, constranger ou negar sua identidade de gênero.
Entretanto, a caracterização de eventual crime depende da análise de cada situação concreta, levando em consideração fatores como contexto, intenção da manifestação e seus impactos.
Por essa razão, eventuais responsabilizações dependem da avaliação das autoridades competentes e, quando cabível, do Poder Judiciário.
Conselho LGBT do Ceará divulga nota de repúdio
A repercussão do episódio levou o Conselho Estadual de Combate à Discriminação LGBT+ do Ceará (CECD/LGBT) a divulgar uma nota pública de solidariedade à deputada Erika Hilton.
No documento, a entidade reafirma o compromisso com a defesa dos direitos humanos, da cidadania e da dignidade da população LGBTI+, além de destacar que a transfobia é reconhecida pelo STF como conduta equiparada ao crime de racismo.
O Conselho também ressaltou a importância da participação de pessoas LGBTQIA+ em espaços de representação política e institucional.
A manifestação foi acompanhada por posicionamento da Secretaria da Diversidade do Ceará, que reforçou a necessidade de fortalecimento das políticas públicas voltadas à proteção da população LGBTI+ e ao combate à discriminação.
Caso amplia debate sobre identidade de gênero e discurso político
Além da disputa entre os dois parlamentares, o episódio ampliou discussões sobre respeito à identidade de gênero, direitos fundamentais e os limites do discurso político nas redes sociais.
Especialistas e organizações da sociedade civil defendem que o reconhecimento da identidade de gênero é um elemento fundamental para garantir cidadania e dignidade às pessoas trans.
Ao mesmo tempo, o caso evidencia como manifestações feitas por agentes públicos em plataformas digitais podem alcançar grande repercussão e provocar debates nacionais sobre direitos humanos, legislação e convivência democrática.
Enquanto apoiadores e críticos de André Fernandes e Erika Hilton seguem repercutindo o episódio nas redes sociais, a discussão continua mobilizando diferentes setores da sociedade e reforçando um debate que ultrapassa o campo partidário.




