Muito antes de se tornar um destino turístico procurado por visitantes de várias regiões do Ceará, o Maciço de Baturité já tinha sua história ligada ao café. Introduzida há mais de dois séculos, a cultura cafeeira continua movimentando a economia local e, agora, ganha novo impulso por meio da Rota Verde do Café, iniciativa que transforma a tradição agrícola em uma experiência turística e cultural.
Localizada a cerca de 100 quilômetros de Fortaleza, a região reúne condições únicas para a produção do chamado café sombreado arábica. Cultivado sob a copa de árvores nativas da Mata Atlântica, o sistema preserva o meio ambiente e confere características especiais aos grãos produzidos na serra.
Além de fortalecer a agricultura familiar, a atividade atrai turistas interessados em conhecer fazendas históricas, cafezais, casarões centenários e a trajetória que transformou o café em um dos símbolos do Maciço de Baturité.
Café sombreado do Maciço de Baturité preserva tradição de mais de 200 anos
O principal diferencial da produção local está no método de cultivo. Diferentemente de grande parte das lavouras brasileiras, o café do Maciço de Baturité cresce protegido pela sombra das árvores.
Segundo a produtora agrícola Mônica Farias, o sistema exige cuidados específicos e reforça o compromisso ambiental dos produtores.
“O café sombreado é diferente dos demais cafés. Ele é plantado debaixo da árvore, então a gente planta a árvore para poder ter café”, explica.
A sombra natural reduz a velocidade de amadurecimento dos frutos e contribui para o desenvolvimento de atributos valorizados pelos consumidores de cafés especiais. Em contrapartida, a produção é menor e exige mais tempo para atingir a fase produtiva.
Originária do Iêmen, a variedade arábica cultivada na serra chegou à região há mais de 200 anos. Enquanto desaparece em algumas áreas produtoras do país, ela continua preservada no Ceará graças ao trabalho de produtores locais.
Indicação Geográfica fortalece reconhecimento do café da serra cearense
Nos últimos anos, a produção ganhou ainda mais reconhecimento com a conquista do selo de Indicação Geográfica (IG), certificação que atesta a origem e as características únicas do produto.
A conquista é resultado de um longo trabalho desenvolvido junto aos cafeicultores da região por entidades parceiras e associações locais. Maria do Carmo, articuladora do Sebrae, destaca que o processo exigiu anos de acompanhamento técnico até a obtenção do reconhecimento.
“Foi um acompanhamento de três a quatro anos junto a esses produtores até chegar ao resultado da indicação geográfica”, afirma. A valorização da origem fortalece a identidade do produto e amplia as oportunidades de mercado para os produtores do Maciço de Baturité.
Mulheres ganham protagonismo na cafeicultura e no turismo rural
A presença feminina tem crescido tanto na produção quanto no turismo ligado ao café. Mônica Farias lembra que participou da fundação da Associação dos Cafeicultores Ecológicos e se tornou a primeira presidente da entidade.
“Muitas mulheres passaram também a nos acompanhar. Hoje, eu acho que cerca de 50% da associação é formada por mulheres”, relata. O avanço também pode ser observado no setor turístico. Guia da Rota do Café há cinco anos, Mikaelly Braz acompanha essa transformação diariamente.
Ela conta que, quando a iniciativa começou, apenas uma mulher trabalhava diretamente com os visitantes. Atualmente, o número chega a 12 profissionais e pode alcançar 15 durante o período da colheita.
Rota do Café transforma patrimônio histórico em experiência turística
Além da produção agrícola, a Rota Verde do Café permite aos visitantes conhecer parte da história econômica do Ceará.
O roteiro inclui cafezais, propriedades rurais, casarões históricos e espaços que preservam a memória do ciclo cafeeiro na serra.
Entre os pontos mais visitados está a antiga Estação Ferroviária de Baturité. Inaugurada em 1882 durante o reinado de Dom Pedro II, a estrutura foi criada para facilitar o transporte do café produzido na região até o Porto de Fortaleza, de onde a mercadoria seguia para mercados internacionais.
Hoje transformada em museu, a estação se tornou um dos principais símbolos da importância econômica que o café teve para o desenvolvimento regional.
Segundo Maria do Carmo, o contato com essa história desperta forte emoção entre os moradores e descendentes das famílias que ajudaram a construir a tradição cafeeira da serra.
“As famílias se emocionam quando falam do café, dessa plantação de café”, destaca.
Visitante da região, também chamada Maria do Carmo, conta que a experiência guiada tornou a visita ainda mais enriquecedora.
“É bom guiado assim, porque você vai conhecendo, ele vai falando sobre o tempo, a história e as peças”, relata.
Ao unir preservação ambiental, produção agrícola, memória histórica e turismo de experiência, a Rota do Café mantém viva uma tradição que ajudou a moldar o desenvolvimento do Maciço de Baturité e continua gerando oportunidades para produtores, empreendedores e comunidades da serra cearense.




