Poucas horas depois de sobreviver ao acidente que matou sete integrantes de uma delegação de basquete de Juazeiro do Norte, o atleta Bruno Lira deixou temporariamente o hospital para prestar uma última homenagem aos amigos. Durante o velório coletivo realizado nesta terça-feira (16), no Ginásio Poliesportivo da cidade, ele resumiu o sentimento compartilhado por familiares, colegas e sobreviventes da tragédia: “A maior vitória seria se todos tivessem voltado com vida”.
Bruno integrava a delegação que retornava da Copa Sobral 2026 após a conquista do título da categoria Sub-19. Na madrugada de segunda-feira (15), o ônibus que transportava atletas e integrantes da comissão técnica tombou na CE-187, entre os municípios de Tauá e Quiterianópolis, provocando uma das maiores tragédias recentes do esporte cearense.
Mesmo hospitalizado, o jovem afirma que fez questão de comparecer ao velório para demonstrar apoio às famílias das vítimas e aos companheiros de equipe. “Eu continuo hospitalizado. Peguei apenas uma liberação para prestar solidariedade”, afirma.
A cerimônia reúne familiares, amigos, estudantes, atletas e representantes da comunidade esportiva em um momento marcado pela emoção e pelas homenagens aos jovens que perderam a vida no acidente.
Sobrevivente do acidente com time de basquete deixa hospital para velório
Durante o velório, Bruno relata que não se lembra do momento exato do acidente. Segundo ele, as últimas recordações da viagem são de conversas com amigos pouco antes de dormir. “Eu me lembro de flashes. Estava conversando com meus amigos. Depois baixei a cabeça para dormir e não recordo mais nada”, relata.
O atleta afirma que só compreendeu a dimensão da tragédia quando acordou já em atendimento médico. “Acordei no hospital. Foram me passando as informações aos poucos para que eu não tivesse um choque tão grande”, explica.
O depoimento reforça relatos de outros sobreviventes, que também afirmam estar dormindo quando o ônibus saiu da pista e tombou na rodovia estadual.
Título conquistado horas antes ganha novo significado após tragédia
A viagem de retorno ocorria poucas horas após uma das maiores conquistas recentes da equipe. O grupo havia acabado de vencer a Copa Sobral 2026 na categoria Sub-19 e celebrava o resultado durante o trajeto de volta para casa.
Questionado sobre o título, Bruno afirma que a conquista esportiva perdeu importância diante da dimensão da perda. “Infelizmente, a taça não chegou aqui. A vitória fica guardada lá. Mas eu acho que a maior vitória mesmo seria se todos tivessem voltado com vida, como sempre acontece. Infelizmente, não foi o caso dessa vez”, diz.
A declaração emocionou familiares e amigos presentes no ginásio.
O contraste entre a conquista dentro das quadras e a tragédia registrada horas depois tem marcado os relatos de sobreviventes e pessoas próximas às vítimas.
“A gente se considera uma família”, afirma sobrevivente
Ao falar sobre a convivência com os colegas, Bruno destaca que os vínculos construídos ao longo dos anos ultrapassavam o ambiente esportivo. “Acho que a gente não se considera mais colegas. A gente se considera uma família”, afirma.
Segundo ele, participar da despedida era um dever moral diante da dor compartilhada pelo grupo. “Não prestar essa solidariedade à própria família seria um ato desumano”, declara. O atleta também chama atenção para o simbolismo do local escolhido para o velório coletivo.
“É uma despedida justamente numa quadra, que era onde todos amavam estar. Dos mais novos ao mais velho, eram atletas. Mesmo tendo treinador, ele também era atleta e jogava no adulto. É um momento triste, mas é um local que todos eles gostariam de estar”, relata.
Acidente com delegação de basquete comove o Ceará
O acidente ocorreu nas proximidades do distrito de Santa Teresa, em Tauá, enquanto a delegação retornava de Sobral para Juazeiro do Norte.
As vítimas fatais foram identificadas como Henrique Ferreira Bezerra, Jonatas Samuel dos Santos, João Paulo Sampaio de Alencar, Cauã Rodrigues Fratta, Luiz José de Moraes Neto, Matheus Henrique Ferreira e Marcos Miguel da Silva, assistente técnico da equipe.
Cinco dos corpos são velados no Ginásio Poliesportivo de Juazeiro do Norte. Os outros dois recebem homenagens em funerárias da cidade. Além da cerimônia de despedida, a Prefeitura de Juazeiro do Norte montou uma estrutura de acolhimento para familiares e sobreviventes, com atendimento psicológico, assistência social e apoio institucional.
Enquanto a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) investiga as circunstâncias do acidente, familiares e amigos tentam lidar com uma perda que interrompeu sonhos, projetos e trajetórias dentro do esporte. Entre eles está Bruno Lira, que deixou o hospital por algumas horas para dar o último adeus aos companheiros com quem comemorava, pouco antes da tragédia, uma conquista que agora se transformou em lembrança.



