A preservação da memória histórica e os impactos da seca de 1932 no Ceará foram o centro das discussões da Roda da Cidade, realizada nesta quinta-feira (25), no Auditório Miguel Dias. A edição teve como obra escolhida o romance Não Volte Sem Ele, de Rafael Caneca, que retrata a realidade dos campos de concentração criados para conter retirantes durante um dos períodos mais dramáticos da história cearense.
Além do autor, participaram do encontro a antropóloga e escritora Glória Diógenes e a psicóloga Nara Barreto. A conversa abordou temas como identidade, pertencimento, apagamento histórico e a importância da literatura para manter viva a memória coletiva.
Inspirado na seca de 1932, o romance acompanha a trajetória de Tomás e convida o leitor a refletir sobre os efeitos da fome, da violência e da perda da liberdade, mas também sobre a força dos vínculos humanos e da esperança em meio à adversidade.
Livro de Rafael Caneca amplia debate sobre memória histórica
Durante o encontro, Rafael Caneca destacou que participar da Roda da Cidade como autor da obra proporcionou uma experiência diferente daquela que costuma viver como mediador das discussões.
Segundo ele, o contato com os leitores permite compreender novas interpretações sobre a narrativa e enriquece o processo criativo.
"É sempre bom ver o que as pessoas interpretaram daquilo que você escreveu. Você acaba aprendendo mais e vendo que seu livro, quando vai para o mundo, ele não é mais seu. Ele é do leitor", afirmou.
O escritor também revelou que já iniciou a produção de um novo romance, que voltará a abordar questões relacionadas ao Estado e à realidade de pessoas marginalizadas pela sociedade.
Memória da seca de 1932 ajuda a compreender a identidade
Para a psicóloga Nara Barreto, um dos principais aprendizados da discussão foi a necessidade de preservar a memória coletiva para compreender quem somos enquanto sociedade.
Ela destacou que conhecer a história do Ceará fortalece a identidade das pessoas e impede que episódios marcantes sejam esquecidos.
"A gente precisa lembrar da história do nosso povo, da história do nosso estado, porque essa também é a nossa história. Quando a gente esquece dessa trajetória, esquece também de partes nossas que são imprescindíveis para saber quem somos e para construir a nossa narrativa de mundo", afirmou.
Nara também elogiou a forma como Rafael Caneca transformou um episódio doloroso da história cearense em uma narrativa literária capaz de despertar reflexão e sensibilidade.
Debate aborda apagamento histórico e disputa de narrativas
A antropóloga Glória Diógenes chamou atenção para a forma como determinados acontecimentos históricos são registrados e lembrados ao longo do tempo. Segundo ela, toda comunicação envolve uma disputa de narrativas.
Durante sua participação, Glória observou que, durante muitos anos, a população cearense pouco ouviu falar sobre os campos de concentração da seca de 1932, que frequentemente eram apresentados apenas como locais de apoio aos retirantes.
"No momento em que se nomeia campo de concentração dessa forma, se marca historicamente um processo de exclusão, de crueldade e de tentativa de apagamento de populações", afirmou.
A antropóloga acrescentou que a história costuma dar visibilidade a alguns grupos enquanto silencia outros, tornando a literatura uma importante ferramenta para recuperar vozes e experiências que permaneceram invisibilizadas.
Ao reunir literatura, história e diferentes perspectivas acadêmicas, a edição da Roda da Cidade reforçou o papel da leitura como instrumento para revisitar o passado, compreender o presente e estimular reflexões sobre identidade, memória e justiça social.




