O entregador baleado por um policial militar após ser confundido com um assaltante, no último domingo (29), em Fortaleza, segue em recuperação e relatou à reportagem da TV Cidade os momentos que antecederam os disparos. O caso ocorreu no bairro Papicu e reacendeu o debate sobre os impactos da saúde mental dos agentes de segurança pública no exercício da função.
Diego, de 24 anos, afirma que ainda sente dores e inchaço nas regiões atingidas pelos tiros e, por isso, está impossibilitado de trabalhar. Com receio de represálias, ele preferiu não ter a identidade visual divulgada.
Segundo Diego, ele havia chegado ao condomínio para realizar uma entrega e se identificou como motoboy quando foi abordado pelo policial.
“Eu cheguei tranquilo, me identifiquei como motoboy, disse que vinha fazer a entrega no condomínio. Ele estava totalmente arrogante, me xingando e mostrando a arma. Quando tentou me dar um tapa, eu desviei. Aí ele disse que ia me matar se eu não corresse e puxou a arma. Só escutei o tiro e senti a queimação no ombro e na parte de baixo.”
Imagens de câmeras de segurança registraram a abordagem. Nas gravações, o policial aparece abordando o entregador antes dos disparos.
Ferimentos e afastamento do trabalho
O jovem explicou que nenhuma bala ficou alojada em seu corpo, mas as lesões ainda provocam limitações nos movimentos.
“Quando estico a mão, sinto bastante incômodo porque a área está inchada. Não estou trabalhando nesses dias por causa disso.”
Sem poder realizar entregas, Diego afirma estar sem condições de garantir o próprio sustento.
Policial estava afastado por motivo de saúde
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), o policial militar envolvido no caso estava afastado das funções por razão de saúde. A pasta não detalhou qual era a condição médica do agente.
A Justiça decretou a prisão preventiva do policial responsável pelos disparos.
Debate sobre saúde mental nas forças de segurança
O episódio trouxe novamente à tona a discussão sobre o acompanhamento psicológico de profissionais da segurança pública. Em entrevista à TV Cidade, o psicólogo Paulo Anderson destacou que o nível elevado de ansiedade e o estresse contínuo podem afetar o comportamento dos agentes.
“Muitas vezes esse policial está submetido a uma carga intensa de trabalho, vira noites de serviço e enfrenta situações de grande tensão. O acompanhamento clínico permanente é fundamental para evitar o agravamento de problemas relacionados à saúde mental.”
Segundo o especialista, além do acompanhamento durante a atividade profissional, é necessário um trabalho contínuo no período pós-serviço, já que a exposição frequente a situações de risco pode gerar desgaste emocional e desorganização mental.
O que diz a vítima
Ao comentar a decisão judicial, Diego afirmou esperar que o caso tenha uma resposta rigorosa das autoridades.
“Eu espero que a justiça seja feita. Não sei se ele tem problemas de saúde ou se estava afastado, mas o certo é que ele precisa responder pelo que fez.”
O caso segue sendo investigado pelas autoridades competentes.




