O caso da bebê de sete meses que teria sido agredida pela própria mãe em Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, voltou a chamar atenção para um problema recorrente: os maus-tratos contra crianças. Além da investigação sobre o episódio, especialistas e órgãos de proteção alertam que identificar sinais de violência e acionar rapidamente a rede de atendimento pode ser decisivo para interromper o ciclo de agressões e proteger a vítima.
Dados da Casa da Criança e do Adolescente do Ceará mostram que, apenas nos cinco primeiros meses deste ano, a instituição realizou cerca de 1.200 atendimentos e mais de 10 mil procedimentos relacionados à assistência de crianças e adolescentes em situação de violência ou violação de direitos.
Maioria das agressões acontece dentro de casa
Segundo a Casa da Criança e do Adolescente, mais de 60% dos casos atendidos ocorreram dentro do próprio ambiente familiar.
Esse cenário torna a identificação da violência ainda mais difícil, já que os autores podem ser pais, mães, padrastos, madrastas, outros parentes ou pessoas que convivem diariamente com a criança.
De acordo com a coordenadora da instituição, Andrea Autran, as consequências vão muito além das lesões físicas.
O impacto pode atingir o desenvolvimento emocional, psicológico e social da criança, provocando medo constante, insegurança e alterações importantes no comportamento.
Entre os sinais observados com frequência estão choro persistente, receio de determinadas pessoas ou ambientes e mudanças bruscas na forma de agir.
Violência psicológica lidera os atendimentos
Os dados da instituição também mostram que a violência infantil assume diferentes formas e nem sempre deixa marcas visíveis.
Nos cinco primeiros meses do ano, foram registrados aproximadamente:
- 330 casos de violência psicológica;
- 280 casos de negligência;
- 270 casos de violência sexual;
- mais de 230 casos de violência física.
Os números reforçam que os maus-tratos contra crianças não se limitam às agressões físicas e podem ocorrer por meio de ameaças, abandono, negligência ou outras formas de violação de direitos.
Como identificar sinais de maus-tratos contra crianças
A rede de proteção orienta que familiares, vizinhos, professores e profissionais da saúde estejam atentos a mudanças no comportamento infantil.
Entre os principais sinais que podem indicar situações de violência estão:
- medo intenso de determinadas pessoas ou lugares;
- choro frequente sem motivo aparente;
- isolamento ou silêncio excessivo;
- mudanças repentinas de comportamento;
- lesões recorrentes acompanhadas de explicações inconsistentes;
- sinais de negligência, como falta de higiene ou ausência de cuidados básicos.
Esses indícios, isoladamente, não confirmam a existência de violência. No entanto, servem como alerta para que a situação seja comunicada aos órgãos responsáveis pela proteção da criança.
Denunciar pode interromper o ciclo da violência
A legislação brasileira determina que toda suspeita de violência contra crianças e adolescentes deve ser comunicada às autoridades competentes.
Quando há indícios de maus-tratos, a prioridade é garantir a proteção da vítima e, quando necessário, afastá-la da situação de risco.
Esse trabalho envolve uma rede integrada formada por profissionais da saúde, assistência social, educação, Conselho Tutelar, forças de segurança, Ministério Público e demais órgãos de proteção.
Além do acolhimento da criança, os fatos são apurados para a adoção das medidas previstas na legislação.
Onde denunciar casos de violência contra crianças
Qualquer pessoa pode comunicar suspeitas ou confirmar situações de violência contra crianças e adolescentes.
As denúncias podem ser feitas aos seguintes órgãos:
- Conselho Tutelar;
- Delegacias de Polícia;
- Ministério Público;
- Disque 100, canal nacional para denúncias de violações de direitos humanos.
As denúncias são fundamentais para que a rede de proteção possa iniciar a apuração dos fatos e adotar medidas voltadas à segurança da vítima.
O caso registrado em Aquiraz reforça a importância da atuação de familiares, vizinhos, profissionais da educação, da saúde e de toda a sociedade na proteção da infância. Em muitos casos, uma denúncia representa o primeiro passo para interromper um ciclo de violência e garantir que a criança receba acolhimento e atendimento especializado.




