O piloto cearense Alex Bacana entrou na fase decisiva da missão de dar a volta ao mundo em um avião monomotor experimental. Após deixar a Rússia e chegar ao Alasca, ele já percorreu cerca de 70% da expedição e agora se prepara para uma das etapas mais simbólicas da jornada: o retorno à cidade de Oshkosh, nos Estados Unidos. Ao pousar novamente no aeroporto, o aviador pretende consolidar um feito histórico e se tornar o primeiro brasileiro a completar uma volta ao mundo solo passando pelos cinco continentes.
A aeronave está passando por uma revisão completa em Fairbanks, no centro do Alasca. A manutenção é realizada em um hangar especializado, com participação do próprio piloto, que acompanha a desmontagem e a inspeção do avião de prefixo Zulu Romeo Quebec (ZRQ) antes da próxima etapa da viagem.
Embora a parte mais complexa da burocracia internacional tenha ficado para trás, os desafios continuam. Nos últimos dias, Alex enfrentou temperaturas próximas de 0°C, dificuldades para encontrar hospedagem e precisou improvisar locais para descansar enquanto aguarda a conclusão da manutenção.
Segundo o piloto, a expectativa é de decolar nos próximos dias e levar aproximadamente uma semana até Oshkosh, no estado de Wisconsin, cidade que recebe anualmente o maior encontro de aviação experimental do planeta.
Piloto fará em Oshkosh a conclusão simbólica da volta ao mundo
O retorno a Oshkosh representa um dos momentos mais importantes do projeto Frotas Pelo Mundo.
Foi nesse mesmo aeroporto que Alex fez uma escala no início da expedição, antes de seguir rumo ao Canadá, Groenlândia, Europa, África, Ásia e Oceania. Agora, ao retornar ao ponto de partida da travessia internacional depois de cruzar os cinco continentes, ele considera concluída a chamada "rota curta" da volta ao mundo.
"Quando eu pousar lá agora na volta, eu vou ter finalizado essa versão mais curta da volta ao mundo, passando pelos cinco continentes. Já vou garantir esse título para o nosso Ceará e para o nosso Brasil de ser o primeiro brasileiro a dar a volta ao mundo solo passando pelos cinco continentes."
Além do significado pessoal e histórico, a cidade recebe a EAA AirVenture, considerada a maior feira de aviação do mundo. O evento reúne milhares de aeronaves, fabricantes, pilotos, palestras técnicas e apresentações aéreas, transformando Oshkosh na capital mundial da aviação experimental durante o período da feira.
Como foi a travessia entre Rússia e Alasca
Antes de retornar aos Estados Unidos, Alex enfrentou uma das etapas mais delicadas de toda a expedição.
A saída da Rússia exigiu uma série de procedimentos de segurança. Segundo o piloto, sete oficiais acompanharam todo o processo até a aeronave, autorizando oficialmente sua saída do país.
Já durante o voo rumo a Nome, no Alasca, a viagem foi marcada por condições meteorológicas adversas. Em diversos momentos, o avião acumulou gelo nas asas, obrigando Alex a reduzir a altitude para minimizar os riscos. A aproximação ao aeroporto também ocorreu sob chuva intensa.
Apesar das dificuldades, o piloto afirma que voltar ao território americano trouxe um sentimento de alívio.
"Os cartões de crédito voltam a funcionar, volta a ter internet, volta a ter GPS. Já dá um ânimo novo. Acho que o pior da viagem em termos de burocracia ficou para trás, na Ásia e na Rússia."
Perrengues continuam acompanhando a expedição
Mesmo com a etapa mais burocrática superada, a rotina da expedição continua marcada por imprevistos.
Sem encontrar hospedagem disponível em cidades remotas da Sibéria e do Alasca, Alex precisou improvisar onde dormir. Na Rússia, passou a noite em um apartamento vazio conseguido por intermédio de um motorista de táxi. Já no Alasca, dormiu em um trailer próximo a um lago enquanto aguardava a manutenção da aeronave.
O piloto relata as dificuldades com bom humor.
"Ontem dormi num trailer meio abandonado porque não tinha hotel. Antes disso, na Rússia, também consegui um apartamento vazio para passar a noite. Dois dias sem tomar banho, comendo biscoito... Perrengue é o que temos. Bom é o dia sem perrengue."
O que ainda falta para Alex Bacana voltar ao Brasil
A expedição Frotas Pelo Mundo já soma 121 dias de viagem e percorreu aproximadamente 70% da rota planejada, passando por mais de 20 países e cruzando os cinco continentes.
Desde a decolagem em Fortaleza, Alex Bacana enfrentou panes elétricas em voo, travessias oceânicas, temperaturas de -20°C no Ártico canadense, calor superior a 50°C na Arábia Saudita, interferências de GPS, restrições de espaço aéreo provocadas por conflitos internacionais e inúmeros desafios burocráticos.
Depois da passagem por Oshkosh, a rota seguirá pelo restante dos Estados Unidos, Canadá, América Central e América do Sul até o retorno ao Brasil.
Para o piloto, a missão vai muito além da conquista esportiva ou da aventura aérea.
"Apesar de parecer uma viagem de turismo, não é. É uma missão. A ideia é inspirar as pessoas a saírem da zona de conforto e mostrar que, com planejamento, dedicação e sacrifício, é possível realizar projetos grandes. Eu tirei minha licença de piloto aos 44 anos. Oito anos depois, estou aqui dando a volta ao mundo. Quero trazer esse orgulho para o Ceará e para o Brasil."




