Quase 30 anos após a morte de Frei Damião, um dos personagens mais curiosos ligados à trajetória do missionário continua despertando a atenção de fiéis. O papagaio que, segundo relatos, pertenceu ao frade capuchinho permanece vivo na zona rural de Livramento, no Cariri da Paraíba, e tem idade estimada entre 80 e 95 anos, acima da expectativa de vida comum para aves da espécie.
Há cerca de dez anos, o animal vive na casa de Dona Nenzinha, onde recebe alimentação, acompanhamento e cuidados específicos devido à idade avançada. A história faz com que visitantes percorram quilômetros para conhecer de perto a ave, considerada por muitos uma lembrança da passagem de Frei Damião pelo Nordeste.
Segundo a família, o papagaio é legalizado e já apresenta limitações naturais do envelhecimento. Como perdeu parte da firmeza nas patas, passou a utilizar uma estrutura metálica adaptada para conseguir permanecer apoiado no poleiro por mais tempo.
"Fiquei ansiosa para conhecer o papagaio de Frei Damião. Para mim, ele é uma relíquia", afirma Dona Nenzinha, responsável pelos cuidados do animal.
Onde vive hoje o papagaio de Frei Damião
O papagaio mora atualmente na zona rural de Livramento, no Cariri paraibano.
A ave chegou à família por intermédio da missionária Anitta Neiva, que acompanhou Frei Damião durante anos e ficou responsável pelo animal após a morte do religioso, em 1997.
Anitta conheceu Rogério, filho de Dona Nenzinha, quando ele atuava em uma paróquia em Patos, no Sertão da Paraíba, ainda durante sua formação sacerdotal. Os dois desenvolveram amizade e, já debilitada, a missionária pediu que o papagaio fosse entregue à mãe dele.
Dona Nenzinha chegou a viajar para buscar a ave em Portugal. Cerca de um ano depois, Anitta morreu. Atualmente, o padre Rogério reside no país europeu e participou do processo que trouxe o papagaio para o Brasil.
"O papagaio ficou com ela quando Frei Damião faleceu. Depois ela conheceu meu filho, eles se tornaram amigos e pediu que ele o entregasse para mim", relembra Dona Nenzinha.
Como a ave chegou ao religioso
Segundo relatos preservados pela família, antes de viver com Frei Damião o papagaio pertencia a um médico.
Na década de 1980, quando o religioso estava em Portugal, costumava sair diariamente para cumprir sua rotina de oração e atividades missionárias.
Sempre que via Frei Damião deixando a casa, o papagaio repetia uma frase que acabou ficando conhecida entre as pessoas próximas:
"Já vai?"
O comportamento chamou a atenção do proprietário da ave, que decidiu presentear o religioso com o animal.
A partir desse momento, o papagaio passou a acompanhar a rotina de Frei Damião até a morte do missionário.
Idade avançada exige cuidados especiais
Embora papagaios possam viver entre 60 e 80 anos, dependendo da espécie, a estimativa é que o antigo companheiro de Frei Damião tenha ultrapassado essa média.
Hoje, a ave apresenta mobilidade reduzida e já não consegue permanecer apoiada por longos períodos apenas com as patas.
Para oferecer mais conforto, Railton, outro filho de Dona Nenzinha e irmão do padre Rogério, confeccionou um suporte para auxiliar o animal.
"Fiz um corre-bico para ele segurar no bico. Assim consegue ficar mais tempo no poleiro e não precisa permanecer deitado o tempo todo", explica.
Além da idade, o papagaio também chama atenção pela coloração diferente da encontrada na maioria das aves da espécie no Brasil, característica que reforça os relatos de que ele tenha origem portuguesa.
Quem foi Frei Damião
Nascido em Bozzano, na Itália, em 1898, Frei Damião chegou ao Brasil em 1931 e dedicou grande parte da vida às missões populares realizadas no Nordeste.
Durante décadas, percorreu cidades do Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e outros estados celebrando missas, conduzindo procissões, atendendo confissões e visitando comunidades.
Sua atuação o transformou em uma das principais referências da religiosidade popular nordestina.
Frei Damião morreu em 1997, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), seguido de parada cardiorrespiratória.
Em 2019, o Vaticano reconheceu oficialmente suas virtudes heroicas e concedeu ao religioso o título de Venerável, uma das etapas do processo de beatificação na Igreja Católica.




