A nova política tarifária dos Estados Unidos ampliou o impacto sobre as exportações cearenses. A partir da atualização das alíquotas, 96% dos produtos exportados pelo Ceará para o mercado norte-americano passam a ser taxados em 37,5%, resultado da soma da tarifa de 25%, em vigor desde 22 de julho, com os 12,5% anunciados na semana passada.
Entre os segmentos mais afetados estão os setores de calçados, confecções, máquinas e equipamentos elétricos, enquanto alguns produtos estratégicos para a economia cearense ficaram de fora da nova cobrança, como mel natural, cera de carnaúba, castanha de caju, café, petróleo e gás, que integram a lista de exceções divulgada pelos Estados Unidos.
Para o gestor de Negócios Internacionais Augusto Fernandes, embora parte dos produtos tenha sido preservada, o cenário exige atenção, principalmente para os setores que permaneceram na lista de tributação.
Segundo ele, os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro comercial do Ceará, o que torna qualquer alteração tarifária relevante para a economia estadual. Produtos como calçados e parte do setor de rochas ornamentais, por exemplo, precisarão adotar estratégias específicas para enfrentar as novas regras de exportação, afirma o especialista.
Fernandes explica que a mudança representa, na prática, uma atualização da política tarifária norte-americana. Conforme detalha, a tarifa de 10% aplicada anteriormente tinha validade temporária e foi substituída por uma alíquota de 12,5%, que se soma aos 25% já vigentes. "Na prática, ele vai substituir os 10 por 12,5%", explica Augusto Fernandes.
Insegurança nas negociações preocupa exportadores
O governo dos Estados Unidos justificou a sobretaxa alegando que produtos brasileiros teriam vínculos com trabalho forçado. Apesar disso, centenas de itens ficaram isentos da medida.
Para Augusto Fernandes, o principal problema vai além do aumento da tributação. Ele destaca que a sucessão de mudanças nas regras comerciais gera um ambiente de insegurança para empresas exportadoras.
Segundo o gestor, essa instabilidade dificulta a assinatura de contratos de longo prazo, já que empresários não conseguem prever quais tarifas poderão ser aplicadas futuramente. "Fica difícil negociar contratos de longo prazo, porque a gente não sabe se entra tarifa, se sai tarifa", afirma Augusto Fernandes.
Ele acrescenta que os contratos mais recentes já começam a prever cláusulas específicas para lidar com eventuais alterações nas tarifas, buscando reduzir riscos para compradores e exportadores.
Especialistas apontam impactos para economia e mercado de trabalho
Os efeitos do tarifaço também podem chegar ao consumidor brasileiro. Em um primeiro momento, parte dos produtos destinados à exportação pode permanecer no mercado interno, aumentando a oferta e pressionando os preços para baixo.
No entanto, esse movimento tende a ser temporário.
O conselheiro do Conselho Regional de Economia (Corecon), Thiago Holanda, alerta que as consequências mais relevantes podem surgir nos próximos meses, caso as exportações diminuam.
Segundo ele, a redução das vendas externas pode levar empresas a diminuir a produção e adiar investimentos, criando um ambiente desfavorável para o mercado de trabalho.
"A médio e longo prazo, a perspectiva não é tão boa", afirma Thiago Holanda. O economista explica que esse cenário pode resultar em perda de postos de trabalho, desaceleração da economia e redução da renda disponível das famílias. "As empresas passam a produzir menos e investir menos e, com isso, nós podemos ter um aumento do número de desempregados", completa o conselheiro.
Estado avalia medidas para reduzir os efeitos da sobretaxa
Apesar das dificuldades, especialistas avaliam que o comércio exterior deve buscar alternativas para reduzir os impactos da medida.
Thiago Holanda afirma que uma das estratégias imediatas é direcionar parte da produção ao mercado interno, enquanto, paralelamente, empresas procuram ampliar relações comerciais com novos países.
"O caminho mais rápido é deixar parte da produção para ser absorvida pelo mercado interno. Já a procura por novos mercados consumidores é uma alternativa mais demorada, mas necessária", explica Thiago Holanda.
Enquanto isso, o Governo do Ceará iniciou um levantamento para identificar os setores mais afetados pela nova política tarifária.
Segundo informações da Secretaria da Fazenda do Ceará (Sefaz-CE), técnicos analisam cerca de 4 mil produtos para dimensionar os impactos sobre a economia estadual.
A avaliação inicial aponta que alguns segmentos importantes escaparam da sobretaxa, como pescado, castanha, coco e cera de carnaúba. Já setores como o de calçados seguem entre as maiores preocupações.
De acordo com a Sefaz, a expectativa é concluir esse diagnóstico nos próximos dias para, em seguida, discutir medidas de apoio aos segmentos mais prejudicados pela nova política comercial dos Estados Unidos.




