Moradores ameaçados por facções criminosas e obrigados a deixar suas próprias casas passaram a ser alvo de um protocolo específico de atuação das forças de segurança do Ceará, segundo o secretário da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), Roberto Sá. Em entrevista à TV Cidade nesta quarta-feira (5), o gestor afirmou que a mudança ocorreu após a identificação de que esse tipo de ocorrência precisava de uma resposta integrada em todo o Estado.
Roberto Sá explica que, antes da criação da estratégia, situações envolvendo expulsões de moradores eram enfrentadas de acordo com a realidade de cada região, sem uma metodologia única de atuação. Segundo ele, a nova orientação reúne informações de inteligência, ações da Polícia Militar, investigações da Polícia Civil e medidas judiciais para acelerar a resposta das instituições.
O secretário afirma que o objetivo é identificar rapidamente onde estão ocorrendo as ameaças, quais grupos podem estar envolvidos e qual deve ser a atuação das forças de segurança.
“Eu quero saber quando, onde, quem contra quem, e nós vamos estabelecer uma estratégia que a atuação vai ser a mesma se for aqui em Fortaleza, se for em Sobral, se for em Juazeiro, se for em Camocim”, afirma Roberto Sá.
Ceará criou protocolo após casos de moradores ameaçados por facções
Nos últimos meses, casos de famílias que deixaram suas residências após ameaças atribuídas a organizações criminosas chamaram atenção no Ceará.
Em Fortaleza, uma das situações ocorreu na comunidade do Barreirão, no bairro Barroso. Segundo informações repassadas à reportagem da TV Cidade, cerca de oito famílias teriam recebido a determinação para deixar os imóveis após uma mudança no controle territorial da região.
De acordo com os relatos obtidos no local, alguns moradores tiveram pouco tempo para retirar seus pertences. Uma das mudanças contou com acompanhamento de equipes da Polícia Militar, incluindo policiais do Batalhão de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (Raio), para garantir a segurança durante a saída da família.
Conforme os relatos, a expulsão teria ocorrido após uma disputa entre grupos criminosos pelo domínio da área. Algumas casas já estavam vazias, enquanto outras ainda tinham objetos deixados pelos moradores que saíram às pressas.
Uma das pessoas afetadas relatou que a família perdeu o imóvel onde vivia após anos de esforço para construir a residência. Segundo o relato, a casa havia sido levantada com recursos obtidos por meio de trabalho e empréstimos, mas precisou ser abandonada diante das ameaças.
Ainda conforme informações repassadas na ocasião, uma moradora teria sido ameaçada após instalar câmeras de segurança na residência. A suspeita dos criminosos, segundo o relato, era de que os equipamentos poderiam ser utilizados para repassar informações a um grupo rival.
Família deixou casa após mensagens ameaçadoras em Tianguá
Outro caso ocorreu no município de Tianguá, na Serra da Ibiapaba, onde uma família deixou a própria residência após encontrar mensagens ameaçadoras escritas na fachada do imóvel.
Segundo informações divulgadas na época, as mensagens faziam referência a uma facção criminosa e determinavam que os moradores deixassem a casa. Os escritos também continham ameaças de morte e utilizavam a expressão “X9”, termo usado por grupos criminosos para acusar pessoas de colaborar com forças de segurança.
Após encontrar as mensagens, a família deixou o imóvel por medo da violência anunciada. O caso passou a ser acompanhado pelas forças de segurança, que iniciaram diligências para identificar os responsáveis.
A Secretaria da Segurança Pública informou que equipes especializadas acompanham ocorrências relacionadas à atuação de organizações criminosas e realizam ações para investigar possíveis envolvidos.
Como funciona o protocolo contra expulsões de moradores
Segundo Roberto Sá, a criação do protocolo ocorreu após a identificação de que as expulsões de moradores precisavam ser tratadas como uma ocorrência com resposta coordenada em todo o território cearense.
O secretário explica que a estratégia combina informações produzidas pelos setores de inteligência com a atuação operacional da Polícia Militar e as investigações conduzidas pela Polícia Civil.
“É um trabalho em que a inteligência abasteça a resposta imediata, que é da Polícia Militar, associada à investigação e a medidas cautelares que a Polícia Civil pede”, explica Roberto Sá.
O gestor afirma que a integração entre as instituições permite identificar padrões de atuação das organizações criminosas, direcionar equipes para as áreas afetadas e adotar medidas para responsabilizar suspeitos.
Segundo Roberto Sá, mais de uma centena de prisões relacionadas a essas práticas foram realizadas após ações contra grupos criminosos. O número foi informado pelo próprio secretário durante a entrevista.
Polícia orienta vítimas de ameaças a procurar canais oficiais
Durante a entrevista, Roberto Sá orientou moradores que estejam enfrentando ameaças a buscar imediatamente ajuda das forças de segurança.
O secretário afirma que situações desse tipo podem ser comunicadas à Polícia Militar pelo número 190 ou registradas junto à Polícia Civil, presencialmente ou pelos canais digitais disponibilizados pelo órgão.
Ele também destacou o Disque Denúncia 181 como uma alternativa para pessoas que desejam repassar informações sem se identificar.
“Se a pessoa estiver passando por essa situação e não quiser se identificar, ligue para o 181. É o telefone do Disque Denúncia que garante o anonimato”, orienta Roberto Sá.
Segundo o secretário, as informações recebidas pelo canal são encaminhadas para as equipes responsáveis pela apuração.
Combate às facções continua como prioridade da segurança pública
Roberto Sá afirma que o enfrentamento às organizações criminosas permanece como uma das principais prioridades da segurança pública no Ceará.
Para o secretário, casos envolvendo ameaças e expulsões de moradores demonstram a necessidade de manter ações permanentes de inteligência, integração entre as instituições e resposta rápida das forças policiais.
A estratégia, segundo ele, busca impedir que grupos criminosos ampliem o controle territorial e garantir que moradores possam permanecer em suas comunidades com segurança.




