A estudante de Direito Clara Souza, de 22 anos, se pronunciou após a grande repercussão nas redes sociais do seu trabalho de conclusão de curso (TCC), que recebeu nota 10 e tem como título a frase “Antes Elize do que Eliza”. A aluna da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, afirmou que a pesquisa não busca defender crimes ou comparar juridicamente as trajetórias de Eliza Samudio e Elize Matsunaga.
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Clara explicou que a frase utilizada no título é justamente o ponto de partida da análise acadêmica. Segundo ela, o objetivo do trabalho é compreender por que uma expressão com forte impacto passou a circular entre usuários da internet e quais fenômenos sociais estão relacionados a esse discurso.
A repercussão do TCC aumentou após uma foto da defesa da monografia ser compartilhada por páginas e perfis nas redes sociais. O título chamou atenção e também gerou críticas de pessoas que interpretaram a proposta como uma tentativa de aproximar duas histórias diferentes.
Estudante afirma que não comparou crimes, mas julgamentos sociais
Clara destacou que Eliza Samudio e Elize Matsunaga ocupam posições completamente diferentes do ponto de vista jurídico.
Eliza Samudio foi vítima de um crime pelo qual o ex-goleiro Bruno foi condenado. Já Elize Matsunaga foi condenada pela morte do marido, Marcos Matsunaga, em 2012.
Segundo a estudante, a pesquisa não pretende igualar as duas situações. A comparação feita no trabalho, de acordo com ela, está relacionada à forma como a sociedade e a mídia construíram as imagens dessas duas mulheres.
“Eu não comparei o que uma sofreu com o que a outra fez”, explicou Clara no vídeo publicado nas redes sociais.
A estudante afirmou que o foco do TCC está nos mecanismos de julgamento moral que aparecem na cobertura de casos criminais e na maneira como a opinião pública passa a avaliar a vida pessoal das pessoas envolvidas.
Pesquisa surgiu da observação sobre narrativas de casos criminais
Clara contou que sempre teve interesse por casos criminais, mas que sua atenção não estava apenas nos crimes ou nas condenações.
O interesse da pesquisa, segundo ela, surgiu da observação sobre como essas histórias são contadas, quais informações ganham destaque e como personagens envolvidos nos casos passam a ser vistos pelo público.
Após começar a atuar com atendimento a mulheres vítimas de violência, a estudante afirmou que passou a observar essas narrativas por outro ponto de vista.
Ela destacou que, em muitos casos, mulheres vítimas de violência acabam sendo questionadas sobre aspectos da própria vida, como relacionamentos, comportamento, profissão ou decisões tomadas antes da agressão.
Segundo Clara, a pesquisa analisa como existe uma cobrança social para que a mulher vítima se encaixe em um determinado padrão para ser reconhecida como vítima.
TCC analisa papel da mídia na construção de imagens públicas
Com mais de 130 páginas, o trabalho aborda conceitos relacionados à violência de gênero, processo penal midiático e julgamento moral.
A estudante explica que o caso de Eliza Samudio foi analisado a partir da forma como aspectos da vida pessoal dela foram explorados durante a cobertura do crime.
Segundo Clara, elementos como profissão, relacionamentos e a disputa pelo reconhecimento da paternidade do filho foram frequentemente utilizados para construir uma determinada imagem pública da vítima.
Já no caso de Elize Matsunaga, a pesquisa observa como sua trajetória pessoal também foi utilizada para formar uma narrativa sobre sua personalidade após o crime.
Para Clara, em ambos os casos houve um julgamento que ultrapassou os fatos jurídicos e passou a avaliar características pessoais das mulheres envolvidas.
Frase do título é analisada como fenômeno social
A estudante também explicou o significado da expressão “Antes Elize do que Eliza”, que aparece como tema central da pesquisa.
Segundo Clara, a frase não representa uma defesa do crime cometido por Elize Matsunaga, nem uma tentativa de transformá-la em exemplo positivo.
Para ela, a expressão deve ser compreendida como um reflexo de um sentimento de insegurança de parte das mulheres em relação à proteção oferecida pelas instituições.
A estudante afirma que o trabalho busca entender por que algumas pessoas interpretam a frase como uma manifestação de medo e sensação de abandono diante de situações de violência.
“Compreender o sentido social dessa frase não significa concordar juridicamente com ela”, afirmou.
Trabalho recebeu nota máxima da banca examinadora
Apesar da repercussão e das críticas nas redes sociais, o TCC recebeu nota 10 da banca examinadora da Universidade Estadual Vale do Acaraú.
Segundo Clara, os professores também sugeriram que a pesquisa seja ampliada futuramente, com possibilidade de continuidade em um projeto de mestrado.
Atualmente, a estudante trabalha na assessoria jurídica da Defensoria Pública do Ceará, em uma área relacionada ao atendimento e enfrentamento da violência doméstica.
Após a repercussão do trabalho, Clara afirmou ter recebido mensagens de mulheres de diferentes partes do país interessadas em conhecer melhor a pesquisa e os argumentos apresentados na monografia.




