O Residencial José Euclides, no Jangurussu, em Fortaleza, completa nesta segunda-feira (10) um ano sem homicídios. A marca é celebrada pelos moradores, que relatam mudanças na rotina da comunidade após um período em que o local foi marcado por conflitos e medo.
O último homicídio mencionado na apuração ocorreu em 9 de agosto de 2025, durante uma tentativa de chacina que deixou duas pessoas mortas e uma criança baleada. A criança sobreviveu. Desde então, como atestam moradores e articuladores sociais da região, não houve novos homicídios no residencial.
Com cerca de 13 mil moradores, distribuídos em 150 blocos e quase 3 mil apartamentos, o Residencial José Euclides passou a organizar uma programação para marcar a data. A mobilização reúne moradores e ações sociais e também envolve iniciativas de políticas públicas voltadas ao território.
Residencial José Euclides completa um ano sem homicídios
A mudança é percebida principalmente na rotina das famílias. Bruna Souza, moradora do residencial, afirma que as crianças passaram a permanecer nas áreas externas por mais tempo e que os moradores também conseguem circular com menos receio durante a noite.
“As crianças podem ficar até tarde na rua. A gente não fica com tanto medo como antes. Há um ano, mais ou menos às 20h30 já estava todo mundo dentro de casa. Era porta fechada, ninguém saía. Se saía para comprar alguma coisa, era com medo e tinha que voltar rápido, com medo de levar um tiro ou acontecer alguma coisa.”
Segundo Bruna, a mudança também alcançou os fins de semana.
“Hoje em dia a gente pode sair, pode ficar até tarde com as crianças. No fim de semana, as crianças ficam até uma da manhã brincando na rua, e antes a gente não conseguia fazer isso.”
Ações sociais fazem parte da mobilização da comunidade
A mobilização citada pelos moradores inclui cursos para jovens e adultos, atividades profissionalizantes e ações esportivas para crianças. A proposta, segundo os articuladores, é oferecer atividades e alternativas de ocupação principalmente para os jovens fora do horário escolar.
Entre as iniciativas mencionadas está a atuação de políticas públicas como a Cozinha Solidária, a Zona Viva e o Território Vivo. Dany Lopes, articuladora social, afirma que essas ações tiveram impacto na vida dos moradores.
“Acredito, tenho certeza, que devido a essas políticas estamos, sim, há um ano sem ter violência aqui no nosso residencial, e isso é motivo de comemoração”, diz ela.
Fogos marcam comemoração por um ano sem homicídios
A comunidade também preparou uma programação para esta segunda-feira (10). Estão previstos fogos de artifício e uma manifestação dos moradores nas janelas dos apartamentos, com panelas, para marcar a data. Segundo Dany, o uso dos fogos representa uma mudança no significado desse tipo de manifestação no território:
“Hoje os fogos de artifício são para comemorar a alegria, a paz no nosso território. O residencial sempre foi um residencial estigmatizado. Muita gente tinha medo de vir para cá presencialmente. Quando perguntavam onde a pessoa morava e diziam que era no Residencial José Euclides, as pessoas tinham medo de chegar até aqui.”
Para a articuladora, o período sem homicídios pode abrir portas para os moradores.
“Com esse um ano de paz, acredito que os moradores terão muitas outras possibilidades.”
Ceará registra queda nos crimes violentos em 2026
A comemoração no Residencial José Euclides ocorre em um período de redução dos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs) no Ceará. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), o estado registrou 125 ocorrências em julho de 2026, contra 260 no mesmo mês de 2025.
A redução foi de 51,9%, com 135 casos a menos. Conforme os dados apresentados, julho de 2026 teve o melhor resultado da série histórica para o mês no Ceará.
Os CVLIs abrangem homicídio doloso, feminicídio, lesão corporal seguida de morte e latrocínio.
Em Fortaleza, os registros passaram de 53 para 20 ocorrências na comparação entre julho de 2025 e julho de 2026, redução de 62,3%. Na Região Metropolitana de Fortaleza, foram 20 casos neste ano, ante 64 no mesmo mês do ano passado, queda de 68,8%.
No interior do Ceará, o número passou de 143 para 85 ocorrências, redução de 40,6%. Segundo a SSPDS, julho de 2026 também apresentou o melhor resultado da série histórica para o mês em Fortaleza, na Região Metropolitana e no conjunto do estado.
Fortaleza registra queda de 62,2% no acumulado do ano
Entre janeiro e julho de 2026, o Ceará contabilizou 971 CVLIs, contra 1.689 no mesmo período de 2025. A redução foi de 42,6%, equivalente a 718 ocorrências a menos.
Fortaleza passou de 444 para 168 registros no período, queda de 62,2%. Na Região Metropolitana, os casos diminuíram de 467 para 156, redução de 66,6%.
No interior, foram 647 ocorrências nos sete primeiros meses de 2026, contra 778 no mesmo intervalo do ano anterior, queda de 16,8%.
Ainda de acordo com os dados da SSPDS, o Ceará teve, no primeiro semestre de 2026, redução de 40,8% nos Crimes Violentos Letais e Intencionais.




