Os recentes casos de esquartejamento registrados em Fortaleza e Caucaia colocaram novamente em evidência a crueldade associada à atuação de grupos criminosos no Ceará. Nas últimas semanas, partes de corpos foram encontradas em praias e outros pontos da Capital e da Região Metropolitana, em ocorrências investigadas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Em março, pernas, braços e uma cabeça foram localizados em diferentes pontos da Praia da Leste, no Pirambu. Os membros teriam sido levados pelas correntes marítimas até a faixa de areia. Em junho, uma cabeça foi encontrada na Praia do Cumbuco, em Caucaia.
Já em diferentes dias de julho, outras partes de cadáveres foram localizadas na Praia do L, na região da Vila do Mar. A cerca de três quilômetros dali, no bairro Jacarecanga, dois corpos esquartejados foram encontrados dentro de sacos de náilon, em um canal com grande quantidade de lixo.
Os episódios são investigados pelas autoridades de segurança.
Esquartejamentos em Fortaleza chamam atenção das autoridades
O caso de Jacarecanga é apontado pela polícia como uma ação que teria sido determinada por Carlos Mateus da Silva, conhecido como “SKDUN”. Segundo a investigação mencionada na transcrição, ele seria chefe da facção criminosa que atua no Pirambu.
Ainda conforme as informações apresentadas, Carlos Mateus estaria escondido no Rio de Janeiro e teria dado de lá a ordem para que os corpos fossem desmembrados. A investigação aponta que as mortes teriam sido praticadas de maneira brutal com o objetivo de transmitir uma mensagem aos inimigos.
O secretário da Segurança Pública, Roberto Sá, afirmou conhecer a identidade do suspeito e sua localização, mas explicou que a prisão depende de uma operação em outro estado.
“Sei quem foi, onde está, só que está num estado cuja operação para efetuar essa captura e prisão é muito complexa, que é o Rio de Janeiro. Então, se tivesse em qualquer outro estado em que a gente consegue fazer esse tipo de operação e desdobramento para fazer a captura, já estaria na mão, porque o estado do Ceará é o estado que mais faz prisões fora do próprio estado.”
Psicólogo explica impacto de crimes brutais
Para o psicólogo Vicente Melo, a prática de crimes com elevado grau de violência não permite, por si só, estabelecer um diagnóstico psicológico sobre os autores. Ele falou com a equipe de reportagem da TV Cidade Fortaleza sobre o assunto:
“Não necessariamente a gente vai partir do pressuposto que essa pessoa tem algum diagnóstico, é um psicopata... Pessoas com ou sem o diagnóstico infelizmente podem vir a cometer um crime grotesco, brutal.”
O especialista também destaca o impacto provocado por episódios desse tipo sobre a população. A exposição de partes de corpos em espaços públicos tem como objetivo intensificar a percepção de insegurança e produz medo mesmo entre pessoas que não estão diretamente envolvidas nos conflitos.
A ocorrência de mortes seguidas de esquartejamento, portanto, não é analisada apenas pela dimensão criminal, mas também pelos efeitos provocados na sociedade.
Violência também marcou o caso das “Meninas do Mangue”
A prática de esquartejamento não é recente no Ceará. Em 2018, um triplo homicídio ocorrido em um manguezal no Vila Velha ficou conhecido como o caso “As Meninas do Mangue”.
As vítimas, Nara Aline, Darcielle Ancelmo e Ingred Ferreira, foram obrigadas a cavar a própria cova antes de serem esquartejadas ainda com vida. O crime foi registrado em vídeo e posteriormente divulgado nas redes sociais.
Os autores, apontados como integrantes da extinta facção Guardiões do Estado, foram condenados a oito anos de prisão por homicídio triplamente qualificado, tortura e ocultação de cadáver.
O episódio permanece como um dos casos de violência extrema associados à disputa entre grupos criminosos no estado e ajuda a contextualizar a forma como crimes dessa natureza podem ser utilizados para intimidar adversários.
Pesquisadora relaciona violência extrema ao poder das facções
A pesquisadora Messiane Vieira, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC), afirma que a violência extrema pode funcionar como instrumento de demonstração de força dos grupos criminosos.
“Quando se vê um crime com uso de tanta tanta brutalidade, como é o caso de uma decapitação, de um esquartejamento, fica mais fácil de perceber a gritante existência das facções em Fortaleza. Esses crimes acontecem também porque destruir o corpo do inimigo gera formas de maior expressão da violência nos grupos. É uma tentativa de se impor através do terror, se impor através do poder e do pânico que é gerado tanto no outro, tido como inimigo, como na sociedade.”
A avaliação relaciona a destruição dos corpos à tentativa de estabelecer controle e produzir medo. Nesse contexto, os crimes ultrapassariam o confronto direto entre integrantes de grupos rivais e passariam a funcionar também como mensagens para outros criminosos e para a população.
Denúncias para a polícia
A população pode contribuir com investigações das forças de segurança do estado do Ceará repassando informações que auxiliem os trabalhos policiais. As informações podem ser direcionadas para o número 181, o Disque-Denúncia da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ou para o (85) 3101-0181, que é o número de WhatsApp, pelo qual podem ser feitas denúncias via mensagem, áudio, vídeo e fotografia ou ainda via "e-denúncias", o site do serviço 181, por meio do endereço eletrônico: https://disquedenuncia181.sspds.ce.gov.br/.




