A policial militar Júlia Nathalia Girão Gomes, presa no caso da morte do soldado Raphael Sampaio da Silva, relatou ao advogado de defesa que saiu do batalhão com o colega e que estava no veículo quando ele foi baleado. Segundo Walmir Medeiros, defensor do casal suspeito, Júlia afirmou ter visto o momento dos disparos, mas não soube informar quantos tiros foram efetuados nem explicar como o carro foi interceptado.
A versão foi apresentada pelo advogado em entrevista à jornalista Emanuella Braga, da TV Cidade Fortaleza, nesta quarta-feira (12). Segundo Medeiros, Júlia está confusa sobre a sequência dos acontecimentos e apresenta dificuldade para relatar detalhes da ocorrência.
O advogado afirmou que, de acordo com o relato da policial, ela se lembra de ter deixado o batalhão com Raphael e de que o veículo foi interceptado. Depois, teria presenciado os tiros contra o soldado.
"Ela lembra que saiu do batalhão e que interceptaram o carro e que ele levou os tiros", afirmou o defensor durante a entrevista.
Questionado se Júlia teria visto os disparos, Medeiros respondeu que sim. Sobre a quantidade de tiros, porém, disse que a policial não apresentou um número.
Advogado revela versão de Júlia sobre os tiros contra Raphael Sampaio
De acordo com Walmir Medeiros, Júlia não conseguiu explicar de que maneira o carro foi parado ou quem teria feito a interceptação. Segundo ele, a policial apenas relatou que estava em um local escuro.
O advogado também questionou por que Raphael estaria naquele local e afirmou que ainda existem pontos da dinâmica que precisam ser esclarecidos pela investigação.
A versão apresentada pela defesa ainda precisa ser confrontada com os demais elementos reunidos pela Polícia Civil. A investigação conduzida pela Delegacia de Homicídios Contra Agentes de Segurança Pública (DHASP) busca estabelecer o percurso feito por Raphael, o local dos disparos e a sequência dos acontecimentos que terminou com o corpo encontrado em um veículo incendiado.
Defesa questiona velocidade da investigação
Durante a entrevista, Walmir Medeiros também criticou o ritmo das diligências realizadas pela Polícia Civil. O advogado afirmou que os investigadores estariam sendo pressionados a apresentar rapidamente respostas sobre o assassinato.
A declaração é uma avaliação da defesa e não representa uma conclusão oficial sobre a condução do inquérito. Medeiros disse que a investigação deveria reunir todos os elementos antes de apresentar uma versão definitiva sobre o crime.
O advogado também argumentou que investigações complexas podem permanecer com pontos sem esclarecimento por períodos prolongados e criticou a ânsia em desvendar o caso imediatamente, sob o risco de a investigação ficar "mal feita".
A defesa também afirmou que a casa da avó de Antoneudo Ribeiro, companheiro de Júlia, teria sido arrombada durante as diligências. Segundo Medeiros, celulares foram levados do imóvel.
O advogado relatou ainda que Antoneudo havia prestado depoimento como testemunha e, inicialmente, estava liberado. Posteriormente, segundo ele, peritos encontraram cédulas de identidade falsas e munições de calibre .38, o que resultou na prisão do homem.
Medeiros classificou a prisão como "forçada" e levantou a possibilidade de que a medida pudesse ter sido usada para pressionar Júlia. Essa avaliação, porém, é uma alegação da defesa e não foi apresentada como conclusão da investigação.
Antoneudo foi preso por falsificação e posse de munições
Antoneudo Ribeiro não foi preso, segundo informações obtidas pela reportagem, por suspeita de participação no assassinato de Raphael Sampaio. A prisão ocorreu após a apreensão de munições e diversas cédulas de identidade em branco.
Ele foi autuado por falsificação de documento público e posse irregular de arma de fogo, conforme os dispositivos legais informados no caso. A prisão foi mantida até a audiência de custódia.
A eventual participação de Antoneudo na morte de Raphael é uma questão separada e continua sendo analisada pela Polícia Civil.
Na entrevista, o advogado também negou que o companheiro de Júlia faça parte de uma facção criminosa. Segundo Medeiros, Antoneudo já havia sido acusado de envolvimento com organização criminosa em uma investigação relacionada a crimes cibernéticos, mas, conforme o defensor, não houve denúncia ou condenação por esse fato.
O advogado afirmou ainda que Júlia possui antecedentes relacionados ao mesmo contexto de acusações envolvendo crimes cibernéticos.
O que Júlia relata sobre ter sido encontrada amarrada
Outro ponto abordado na entrevista foi a situação em que Júlia foi localizada às margens da BR-116, em Aquiraz. A policial foi encontrada com as mãos e os pés amarrados, segundo o relato apresentado pela defesa.
Medeiros afirmou que a policial apresenta dificuldades para explicar o que aconteceu nesse período. Segundo ele, Júlia disse que conseguiu soltar os próprios pés e fugir, mas não conseguiu liberar as mãos.
"Ela me disse: doutor, amarraram minhas mãos e meus pés. Meus pés eu consegui soltar", relatou o advogado.
A defesa também questionou as circunstâncias em que a policial foi encontrada e mencionou um vídeo que circula sobre o episódio. Segundo Medeiros, as imagens levantam dúvidas sobre a forma como Júlia teria sido amarrada.
O advogado afirmou que a policial não consegue lembrar de todos os detalhes do momento em que foi localizada. Ele também questionou quem teria feito as amarras e como elas foram realizadas.
A versão apresentada pela defesa ainda deverá ser confrontada com imagens, depoimentos e demais elementos reunidos pela Polícia Civil.
Advogado diz que Júlia está confusa sobre os acontecimentos
Medeiros afirmou que encontrou Júlia nervosa e chorando durante o atendimento na delegacia. Segundo o advogado, ela apresentava dificuldades para organizar cronologicamente os acontecimentos.
O defensor relatou ainda que emprestou o próprio paletó à policial porque, segundo ele, ela estava em uma situação que considerou inadequada na unidade policial. Posteriormente, afirmou ter levado um vestido da filha para que Júlia pudesse trocar de roupa.
Ao explicar a atitude, Medeiros disse que a dignidade da policial deveria ser preservada independentemente do resultado da investigação.
A manifestação faz parte da estratégia da defesa e não interfere, por si só, na apuração sobre a morte de Raphael.
Polícia investiga morte de Raphael Sampaio
Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos, foi encontrado morto dentro de um veículo incendiado na região do Ancuri, na divisa entre Fortaleza e Itaitinga, na manhã desta terça-feira (11).
Uma testemunha percebeu o carro em chamas e acionou as forças de segurança. O Corpo de Bombeiros controlou o incêndio e, após o trabalho das equipes, o corpo do policial foi localizado dentro do automóvel.
A Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) identificou lesões provocadas por disparos de arma de fogo. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), os ferimentos ocorreram quando Raphael ainda estava vivo. A carbonização aconteceu posteriormente.
A perícia também não identificou amputação traumática.
Raphael havia ingressado na Polícia Militar do Ceará em junho de 2022 e estava lotado na 2ª Companhia do 16º Batalhão de Polícia Militar.
Júlia, por sua vez, ingressou na Polícia Militar do Ceará em novembro de 2024. Ela e Raphael trabalhavam na mesma estrutura da corporação.
A policial foi presa em flagrante e autuada por homicídio durante as diligências realizadas após a localização do corpo. A Polícia Civil investiga se havia um possível relacionamento entre os dois policiais e se essa relação tem alguma ligação com o crime.
A motivação do assassinato ainda não foi oficialmente estabelecida.
O Ministério Público do Ceará criou uma força-tarefa para acompanhar a investigação. O grupo foi determinado pelo procurador-geral de Justiça, Herbet Santos, e reúne promotores que atuarão em conjunto com o titular da 2ª Promotoria de Justiça de Itaitinga em eventuais procedimentos investigatórios e judiciais relacionados ao caso.
A investigação permanece sob responsabilidade da DHASP. Os próximos depoimentos, imagens, exames periciais e demais elementos deverão ajudar a esclarecer a dinâmica dos tiros, a interceptação do veículo, a situação envolvendo Júlia e a eventual participação de outras pessoas.
Denúncias para a polícia
A população pode contribuir com investigações das forças de segurança do estado do Ceará repassando informações que auxiliem os trabalhos policiais. As informações podem ser direcionadas para o número 181, o Disque-Denúncia da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ou para o (85) 3101-0181, que é o número de WhatsApp, pelo qual podem ser feitas denúncias via mensagem, áudio, vídeo e fotografia ou ainda via "e-denúncias", o site do serviço 181, por meio do endereço eletrônico: https://disquedenuncia181.sspds.ce.gov.br/.




