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REPERCUSSÃO

TCC de cearense sobre Eliza Samudio e Elize Matsunaga viraliza e provoca debate nas redes

Clara Souza, de 22 anos, analisou em mais de 130 páginas a forma como mídia e sociedade julgaram as duas mulheres em casos criminais distintos; trabalho recebeu nota máxima

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TCC de cearense sobre Eliza Samudio e Elize Matsunaga viraliza e provoca debate nas redes
Estudante cearense viraliza com TCC que analisa casos de Eliza Samudio e Elize Matsunaga. Foto: Reprodução

Um TCC sobre Eliza Samudio e Elize Matsunaga, apresentado por uma estudante cearense de Direito, ganhou repercussão nas redes sociais e abriu uma discussão sobre violência de gênero, exposição midiática e julgamento moral. Clara Souza, de 22 anos, apresentou o trabalho no fim de julho, em Sobral, e chamou atenção pelo título “Antes Elize do que Eliza”.

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A frase, que já circulava nas redes sociais, foi incorporada ao título da pesquisa como ponto de partida para uma análise acadêmica. A repercussão, porém, fez com que parte do público interpretasse a expressão fora do contexto apresentado no trabalho.

Em entrevista sobre a pesquisa, Clara explicou que o objetivo não é defender o crime cometido por Elize Matsunaga nem estabelecer equivalência entre as duas histórias. O foco está na maneira como as trajetórias pessoais das mulheres foram expostas e submetidas a julgamentos durante a cobertura dos casos.

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A pesquisa foi desenvolvida em mais de 130 páginas e utiliza os casos de Eliza Samudio e Elize Matsunaga para discutir a relação entre mídia e violência de gênero.

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A repercussão do TCC também foi registrada pelo Metrópoles, que publicou imagens da defesa e relatou que o trabalho recebeu nota máxima. Segundo a publicação, a estudante afirmou que a pesquisa nasceu da análise bibliográfica e do estudo dos dois casos, com consulta a livros, decisões judiciais, legislação e reportagens da época.

O que significa “Antes Elize do que Eliza”?

A frase que dá nome ao trabalho não é apresentada pela autora como uma defesa da violência. Dentro da pesquisa, ela é tratada como uma expressão que permite discutir sentimentos de medo, insegurança e descrença na proteção oferecida às mulheres diante de situações de violência.

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Clara explica que a comparação proposta não está entre o sofrimento de Eliza Samudio e o crime praticado por Elize Matsunaga.

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O ponto analisado é outro: como as duas mulheres tiveram aspectos de suas vidas pessoais explorados publicamente.

“Meu trabalho de conclusão de curso analisa os casos Eliza Samudio e Elize Matsunaga a partir de uma perspectiva muito específica, a relação entre a mídia e a violência de gênero”, explicou a estudante.

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A autora também reforça que as posições jurídicas das duas são completamente diferentes. Eliza Samudio foi vítima de um homicídio. Elize Matsunaga foi ré, julgada e condenada pela morte do marido, Marcos Matsunaga.

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A pesquisa, portanto, não equipara os crimes ou as posições das duas mulheres. A proposta é observar como elementos que vão além dos processos criminais passaram a fazer parte do julgamento público.

O trabalho considera aspectos como profissão, sexualidade, relacionamentos e origem social.

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A autora resume essa abordagem ao afirmar:

“A comparação não está entre aquilo que uma sofreu e o que a outra fez. Ela está nos mecanismos de julgamento moral aplicados a essas duas mulheres.”

Eliza Samudio foi vítima de um crime que teve enorme repercussão

Eliza Samudio foi assassinada em 2010, em um caso que envolveu o ex-goleiro Bruno Fernandes e outros acusados.

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A história ganhou grande repercussão nacional e foi acompanhada durante anos pela imprensa. O corpo da vítima nunca foi localizado.

A Justiça, entretanto, reconheceu juridicamente a morte de Eliza. Em 2017, o Ministério Público de Minas Gerais informou que o Tribunal de Justiça manteve a validade da certidão de óbito e a condenação de Bruno.

O caso também passou a ser discutido sob diferentes perspectivas relacionadas à violência contra a mulher e à exposição da vida privada da vítima.

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É justamente esse aspecto que interessa à pesquisa de Clara: observar como a vida de Eliza foi frequentemente discutida para além dos fatos criminais.

A trajetória pessoal, o relacionamento com Bruno e outros aspectos da vida da vítima foram incorporados ao debate público. Para a autora do TCC, esse processo permite analisar como mulheres envolvidas em casos de violência podem ser submetidas a avaliações morais que ultrapassam a discussão sobre o crime.

Elize Matsunaga foi condenada pela morte do marido

Do outro lado da pesquisa está Elize Matsunaga, condenada pela morte de Marcos Kitano Matsunaga, em 2012.

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O caso ocorreu em São Paulo e também teve ampla cobertura da imprensa. Elize foi acusada de matar o marido e destruir e ocultar o cadáver.

Em dezembro de 2016, após sete dias de julgamento, o Tribunal de Justiça de São Paulo informou que Elize foi condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão, em regime inicial fechado.

A Justiça também registrou que o júri reconheceu a autoria do homicídio e do crime de destruição e ocultação de cadáver.

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O processo recebeu atenção intensa da mídia desde os primeiros momentos. Documentos do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo registram que houve ampla divulgação de imagens relacionadas ao caso, inclusive fotos do cadáver de Marcos, o que chegou a motivar um pedido de segredo de Justiça. O pedido, contudo, foi negado.

Esse histórico é relevante para entender a pesquisa de Clara. O trabalho não parte apenas dos crimes em si, mas da maneira como a cobertura jornalística e o debate social construíram narrativas sobre as pessoas envolvidas.

Pesquisa discute julgamento moral feito pela mídia

Um dos principais pontos do TCC é justamente a diferença entre o julgamento jurídico e o julgamento social.

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Nos tribunais, existem regras, provas, acusação, defesa e procedimentos definidos. Nas redes sociais e na cobertura pública de crimes, entretanto, a avaliação pode avançar para aspectos da personalidade, comportamento e vida privada dos envolvidos.

É nesse espaço que Clara concentra parte da pesquisa.

A estudante observa que, embora Eliza e Elize estejam em posições jurídicas opostas, ambas tiveram suas histórias pessoais amplamente expostas.

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No caso de Eliza, a discussão pública muitas vezes passou por perguntas relacionadas à sua relação com Bruno e à sua vida pessoal. Já no caso de Elize, a imagem construída ao redor da ré também foi acompanhada por avaliações sobre sua personalidade, relacionamento e origem social.

A pesquisa procura mostrar como esses elementos podem influenciar a maneira como o público interpreta uma mulher envolvida em um caso criminal.

A discussão não significa retirar a responsabilidade de quem comete um crime. O próprio trabalho diferencia a condição de vítima de Eliza da condenação de Elize.

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O que está em análise é a forma como a sociedade constrói diferentes narrativas sobre mulheres que aparecem no noticiário policial.

Psicóloga alerta para diferença entre compreender e justificar um crime

A discussão levantada pelo TCC também envolve a forma como mulheres podem interpretar histórias de violência a partir das próprias experiências.

A psicóloga Gabriela Hissa explica que parte do público pode se identificar com a trajetória de Elize ao relacioná-la a experiências próprias ou de pessoas próximas em relacionamentos abusivos.

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Essa identificação, entretanto, não significa que a prática de um crime possa ser justificada por uma situação de violência anterior.

O debate sobre relacionamentos abusivos precisa considerar caminhos de proteção, redes de apoio e mecanismos institucionais para mulheres que estejam em situação de violência.

Esse é um ponto importante para a leitura da pesquisa: compreender os fatores sociais e psicológicos que influenciam a percepção de um caso não significa transformar essa compreensão em justificativa para uma conduta criminosa.

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A própria estrutura do trabalho de Clara parte dessa diferenciação ao colocar lado a lado uma vítima de homicídio e uma mulher condenada pela morte do marido.

TCC recebeu nota máxima e pode virar pesquisa de mestrado

Além da repercussão nas redes sociais, o trabalho teve reconhecimento dentro do ambiente acadêmico.

O TCC foi aprovado com nota máxima, e a banca sugeriu que a pesquisa seja ampliada para um projeto de mestrado.

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A repercussão também fez o estudo chegar a pessoas que não tinham contato com o ambiente universitário. Segundo Clara, ela recebeu mensagens de mulheres de diferentes partes do Brasil que tiveram acesso ao trabalho e se identificaram com o debate proposto.

“Recebi muitas mensagens de mulheres de todos os cantos do Brasil que leram a pesquisa, que gostaram, que acham importante que esse debate seja cada vez mais espalhado. Isso é gratificante para mim”, relatou.

A estudante também reforça que o conteúdo completo do TCC apresenta discussões que não aparecem integralmente no título ou em uma fala curta.

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A viralização, nesse sentido, acabou ampliando o alcance de uma pesquisa que originalmente seria apresentada apenas no ambiente acadêmico.

O episódio também mostra como um título pode ganhar significado próprio quando circula nas redes sociais. No caso de Clara, a expressão “Antes Elize do que Eliza” despertou reações antes mesmo de parte do público conhecer a pesquisa que estava por trás dela.

A proposta da estudante é justamente provocar uma reflexão sobre essa reação e sobre os mecanismos utilizados para julgar mulheres envolvidas em casos de violência.

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