O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) telefonou para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta sexta-feira (21), para tratar das tarifas impostas pelo governo norte-americano a produtos brasileiros. Segundo o Palácio do Planalto, Lula defendeu a retomada das negociações e afirmou que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para aplicar as taxas são “infundadas”.
A conversa ocorre em meio à escalada das medidas comerciais adotadas pelo governo Trump contra produtos do Brasil. Atualmente, os produtos brasileiros estão sujeitos a duas tarifas adicionais anunciadas pelos Estados Unidos, de 25% e 12,5%, que se somam em determinados casos, embora existam exceções para produtos específicos.
De acordo com o governo brasileiro, Lula argumentou durante a ligação que a manutenção das tarifas prejudica as relações comerciais entre os dois países e defendeu que a negociação seja utilizada para buscar uma solução.
Segundo a nota divulgada pelo Planalto, Trump concordou sobre a importância de preservar relações comerciais fortes entre Brasil e Estados Unidos e propôs que representantes dos dois governos voltem a se reunir em breve.
Quais são as tarifas aplicadas pelos EUA ao Brasil
O telefonema acontece depois de novas medidas comerciais adotadas pelo governo norte-americano.
Uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos entrou em vigor em 22 de julho. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), essa medida atinge cerca de 15% do volume exportado pelo Brasil aos EUA em 2025, equivalente a aproximadamente US$ 5,8 bilhões.
Entre os setores apontados como mais afetados estão madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, produtos cerâmicos e açúcar.
Além dessa tarifa específica, o Brasil também foi incluído em uma medida que aplica uma sobretaxa de 12,5% a produtos de países que, segundo o governo norte-americano, não impedem adequadamente a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
As duas taxas podem se somar em determinados produtos, elevando o impacto sobre as exportações brasileiras para o mercado norte-americano.
Lula contesta justificativas apresentadas pelo governo Trump
Durante a conversa, Lula voltou a contestar os argumentos utilizados pelo governo dos Estados Unidos para justificar as medidas comerciais.
Segundo o Palácio do Planalto, entre os temas citados pelos norte-americanos estão questões relacionadas a desmatamento, acordos preferenciais de comércio, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações associadas a trabalho forçado.
O governo brasileiro considera essas alegações sem fundamento e tem defendido essa posição nas negociações com os Estados Unidos.
A estratégia adotada pelo governo Lula é tentar manter aberta a possibilidade de diálogo antes de avançar para outras medidas. Na semana passada, o Brasil informou aos Estados Unidos que havia iniciado um processo de reciprocidade em resposta ao tarifaço.
A ligação com Trump representa, nesse contexto, uma tentativa direta de reabrir o canal de negociação entre os dois presidentes.
Segurança pública também entrou na conversa
Além das tarifas, Lula e Trump trataram da cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado.
Segundo o Planalto, o presidente brasileiro afirmou que o Brasil possui instrumentos para enfrentar organizações criminosas sem precisar classificá-las como grupos terroristas.
A discussão ocorre depois que os Estados Unidos classificaram, em maio deste ano, as facções brasileiras PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
Na conversa, Lula teria apresentado ações adotadas pelo governo brasileiro para combater financeiramente as organizações criminosas. O presidente também citou a intenção de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima.
Outro ponto mencionado foi o projeto de lei Antifacção e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, apresentada pelo governo federal ao Congresso.
De acordo com a Presidência, Trump demonstrou disposição para ampliar a cooperação entre os dois países na área e indicou que funcionários de alto escalão poderiam ser mobilizados para dar continuidade às conversas.
Presidentes também discutiram guerras e conflitos internacionais
A conversa entre Lula e Trump também abordou conflitos internacionais, especialmente as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.
Segundo a nota do governo brasileiro, os dois presidentes concordaram sobre a necessidade de buscar uma solução negociada para a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Trump também falou sobre as perspectivas de resolução do conflito envolvendo o Irã.
Lula, por sua vez, defendeu uma atuação diplomática por meio da Organização das Nações Unidas (ONU). O presidente brasileiro criticou a atuação do Conselho de Segurança da organização e propôs a realização de uma reunião extraordinária para discutir alternativas diplomáticas para os conflitos.
Relação entre Lula e Trump passou por períodos de aproximação e tensão
A conversa desta sexta-feira ocorre depois de uma série de mudanças na relação entre os dois presidentes desde o início dos atuais mandatos.
Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e relacionou a medida, entre outros argumentos, ao processo judicial envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Meses depois, Lula e Trump tiveram um breve encontro durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. O contato foi seguido por novas conversas entre os dois governos e por uma aproximação diplomática.
Em outubro de 2025, os presidentes voltaram a se encontrar durante uma agenda na Malásia. Posteriormente, houve redução de parte das tarifas aplicadas aos produtos brasileiros e alterações nas medidas relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Em maio de 2026, Lula viajou aos Estados Unidos para uma reunião com Trump na Casa Branca. O encontro durou cerca de três horas e incluiu um almoço entre os presidentes.
A relação, entretanto, voltou a enfrentar tensão após os Estados Unidos classificarem PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e avançarem com novas medidas comerciais contra o Brasil.
Agora, com a nova ligação, o governo brasileiro tenta novamente abrir espaço para uma negociação direta sobre as tarifas.
O próximo passo indicado pelo Planalto é a retomada das reuniões entre as equipes dos dois países. A expectativa é que os representantes brasileiros e norte-americanos voltem à mesa de negociação para discutir tanto as tarifas quanto outros pontos da relação bilateral.




