Dark Horse é um filme de ficção inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A produção, que será lançada no Brasil com o título “O Azarão”, ganhou repercussão muito além do cinema depois que vieram a público informações sobre seu financiamento, incluindo repasses ligados a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e conversas do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) sobre recursos destinados ao projeto.
O filme Dark Horse sobre Bolsonaro voltou ao centro do debate político nesta sexta-feira (28), durante a entrevista de Flávio Bolsonaro à TV Globo. Questionado sobre sua relação com Daniel Vorcaro e o financiamento da produção, o candidato afirmou que sua única relação com o empresário esteve ligada ao filme e voltou a negar irregularidades. Flávio também sustentou que o dinheiro obtido não foi transferido diretamente para ele, mas destinado ao projeto cinematográfico.
O longa tem cerca de 1h40 de duração e traz o ator norte-americano Jim Caviezel interpretando Jair Bolsonaro. A direção é de Cyrus Nowrasteh, que também trabalhou no roteiro ao lado de Mark Nowrasteh. A obra foi registrada pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) como produção estrangeira e classificada como ficção.
A produção ainda não tem data definida para chegar aos cinemas brasileiros. Apesar de ter obtido o Registro de Obra Estrangeira (ROE), ela ainda precisa cumprir outras etapas regulatórias antes da exploração comercial no país.
O que é Dark Horse?
Dark Horse é uma cinebiografia ficcional sobre Jair Bolsonaro, construída a partir de episódios de sua vida e de sua trajetória política. O título em inglês significa, em uma tradução aproximada, alguém considerado improvável ou azarão em uma disputa. No Brasil, a distribuidora informou à Ancine que o longa deverá ser apresentado justamente como “O Azarão”.
O filme foi registrado como obra estrangeira e tem duração declarada de uma hora e 40 minutos. O registro foi concedido pela Ancine em 7 de agosto de 2026.
Essa etapa, entretanto, não significa que o filme já possa estrear nos cinemas. Depois do ROE, ainda é necessário obter o Certificado de Registro de Título (CRT) e cumprir o processo de classificação indicativa.
Dark Horse é um filme sobre Jair Bolsonaro?
Sim. O longa retrata Jair Bolsonaro e utiliza elementos de sua trajetória pessoal, militar e política para construir a narrativa. O ator Jim Caviezel, conhecido internacionalmente por produções como “A Paixão de Cristo”, interpreta o ex-presidente. Cyrus Nowrasteh dirige o longa e também participou da elaboração do roteiro.
Documentos relacionados à produção mostram que o roteiro foi desenvolvido a partir de pesquisas e consultas sobre episódios da vida de Bolsonaro. A Agência Pública revelou que Nowrasteh e seu irmão, Mark, enviaram perguntas à equipe brasileira para esclarecer acontecimentos que seriam incorporados à narrativa.
Embora tenha caráter biográfico, o filme de Bolsonaro aparece formalmente registrado como ficção, e não como documentário.
Quem está por trás do filme Dark Horse?
A produção brasileira ligada ao projeto é a Go Up Entertainment, comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama. O filme também contou com participação do deputado federal Mário Frias (PL-SP) em sua concepção. Documentos obtidos pela Agência Pública indicam que Frias elaborou o argumento que serviu de base para o roteiro desenvolvido por Cyrus e Mark Nowrasteh.
Outra estrutura que aparece no financiamento é o Havengate Development Fund, sediado nos Estados Unidos. Reportagens apontam que o fundo recebeu recursos relacionados ao financiamento do filme. A estrutura é controlada por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
É justamente a origem e o caminho de parte desse dinheiro que transformaram Dark Horse Bolsonaro em assunto político e judicial.
Qual é a relação de Daniel Vorcaro com Dark Horse?
Daniel Vorcaro aparece como um dos principais financiadores conhecidos do projeto. O ex-controlador do Banco Master destinou ao menos R$ 61 milhões para o financiamento do filme, enquanto reportagens publicadas em maio revelaram que as negociações chegaram a envolver aproximadamente R$ 134 milhões.
Os pagamentos teriam sido feitos por uma empresa ligada a Vorcaro para o fundo Havengate, nos Estados Unidos. As informações ganharam ainda mais repercussão quando vieram a público mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Nas conversas, Flávio aparece tratando dos recursos necessários para concluir o filme e cobrando o andamento dos repasses. A revelação criou uma ligação direta entre o candidato presidencial e o financiamento da produção, embora Flávio sustente que os recursos eram privados e destinados exclusivamente ao projeto cinematográfico.
Durante a entrevista à Globo nesta sexta-feira, Flávio voltou a tratar dessa relação. O candidato afirmou que seu contato com Vorcaro ocorreu em razão do filme e negou que tenha recebido pessoalmente os recursos destinados à produção.
O que o Banco Master tem a ver com o filme?
A conexão do Banco Master com Dark Horse ocorre principalmente por meio de Daniel Vorcaro. Vorcaro era controlador do banco quando participou das tratativas relacionadas ao financiamento da produção. Posteriormente, a instituição financeira e seu ex-controlador passaram a estar no centro de investigações sobre suspeitas de irregularidades financeiras.
Isso fez com que os repasses ao filme passassem a receber atenção adicional. O ponto importante é que não há indicação de que o Banco Master seja produtor do filme ou que Flávio Bolsonaro tenha sido sócio ou funcionário da instituição. A relação conhecida passa pelos recursos associados a Vorcaro e pelos contatos mantidos com ele para financiar o longa.
Há diferentes frentes de apuração relacionadas ao entorno da produção. Uma investigação da Polícia Federal analisa a possível destinação de emendas parlamentares a entidades ligadas à produtora Go Up Entertainment.
Em agosto, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a PF a acessar provas reunidas pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora. A medida busca reforçar a investigação relacionada ao destino de emendas parlamentares.
Em outra frente, há apuração relacionada aos aportes de Vorcaro no projeto. Por isso, é mais correto falar em investigações envolvendo o financiamento e estruturas ligadas ao filme do que afirmar que existe uma única investigação sobre Dark Horse.
Quanto custou o filme Dark Horse?
Uma perícia particular contratada pela defesa de Karina Gama e apresentada à Polícia Civil de São Paulo apontou que a produção havia consumido aproximadamente R$ 75,2 milhões.
Segundo o laudo, o filme teria sido financiado por investimentos privados e não haveria indicação de utilização de recursos públicos, emendas parlamentares ou Lei Rouanet na produção. O documento, no entanto, não tornou públicos todos os detalhes sobre financiadores, pagamentos e fornecedores.
A perícia informa ainda que o fundo Havengate celebrou contrato para investimento na produção e realizou aporte equivalente a cerca de R$ 75,2 milhões. A discussão sobre prestação de contas se tornou um dos principais pontos de cobrança sobre o projeto porque os valores divulgados nas negociações com Vorcaro chegaram a patamares superiores.
Por que Dark Horse entrou na campanha de Flávio Bolsonaro?
O filme passou definitivamente do noticiário cultural para o político depois da revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Flávio confirmou ter procurado o empresário em busca de financiamento para a produção sobre o pai e sustenta que não houve irregularidade.
O candidato afirma que se tratava de dinheiro privado para uma produção privada e que não ofereceu qualquer benefício público a Vorcaro em troca do investimento. A oposição, por outro lado, passou a questionar a proximidade de Flávio com o empresário e a transparência do financiamento.
O tema ganhou espaço ainda maior na campanha presidencial em agosto. A campanha de Lula passou a utilizar o caso Dark Horse e Flávio Bolsonaro em peças contra o candidato do PL na propaganda eleitoral, enquanto o assunto também apareceu no debate presidencial realizado pela Band em 23 de agosto, quando Ronaldo Caiado citou o episódio durante uma crítica política.
Nesta sexta-feira (28), Dark Horse ganhou uma nova exposição nacional ao ser abordado diretamente na entrevista de Flávio Bolsonaro à Globo.
O que Flávio Bolsonaro disse sobre Dark Horse na entrevista à Globo?
Durante a sabatina desta sexta-feira, Flávio Bolsonaro voltou a negar qualquer irregularidade no financiamento do longa. O candidato afirmou que sua relação com Daniel Vorcaro esteve ligada ao projeto cinematográfico e defendeu a busca por recursos privados para uma produção sobre Jair Bolsonaro.
Flávio também disse que o filme não utilizou recursos da Lei Rouanet e sustentou que o dinheiro obtido com patrocinadores não foi transferido diretamente para ele. Segundo o candidato, os recursos foram destinados à própria produção.
As declarações repetem a linha de defesa adotada por Flávio desde que as conversas com Vorcaro vieram a público. O candidato sustenta que os recursos eram privados e que a responsabilidade pela prestação de contas cabe à produtora.
A documentação detalhada, entretanto, não foi integralmente divulgada ao público. A perícia particular apresentada pela Go Up indicou os gastos gerais da produção, mas não publicou detalhadamente contratos, notas fiscais, pagamentos de elenco, fornecedores e todos os financiadores envolvidos.
Em agosto, antes da entrevista na Globo, Flávio já havia voltado a argumentar que o financiamento era privado e rejeitado a tentativa de associá-lo às irregularidades investigadas no Banco Master. Na sabatina, manteve essa posição ao responder novamente sobre Daniel Vorcaro e Dark Horse.
O resultado é que um projeto originalmente concebido como uma produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro acabou se transformando também em um dos assuntos políticos da campanha presidencial de 2026 — e ganhou nova repercussão ao entrar diretamente na entrevista de Flávio Bolsonaro à Globo.




