O empresário cearense Vanderson Aquino, presidente e fundador do Grupo Mêntore, contou detalhes da trajetória que o levou da venda de água de coco nos sinais de Fortaleza à construção de uma instituição de pagamento com atuação nacional. Em entrevista ao programa Conexões com Ricardo Bezerra, exibido nesta segunda-feira (31), ele também falou sobre o crescimento acelerado da empresa, os planos de expansão no mercado financeiro e a possibilidade de uma futura abertura de capital na Nasdaq.
A conversa percorreu diferentes fases da vida de Vanderson, dos períodos de dificuldade financeira na infância até a consolidação do Grupo Mêntore no mercado. Aos 42 anos, o empresário afirma que ainda enxerga a maior parte dos projetos como algo que está por vir e estabelece como principal objetivo transformar a empresa na maior instituição de pagamento do Brasil.
Infância difícil e venda de água de coco em Fortaleza
Vanderson nasceu no Ceará e passou parte da infância em uma realidade de dificuldades financeiras. Aos 13 anos, após a separação dos pais, a mãe precisou buscar emprego para sustentar a família. Foi nesse período que ele começou a vender água de coco nas ruas de Fortaleza.
Segundo o empresário, ele comprava os cocos na região da Duque de Caxias e os revendia na Avenida Bezerra de Menezes, nas proximidades do antigo Instituto dos Cegos. A atividade ajudou a família e também marcou uma das primeiras experiências de Vanderson com vendas.
Ao relembrar a fome que enfrentou durante a infância, ele fez uma reflexão sobre o significado da experiência. Para o empresário, a fome não representa apenas a ausência de alimento, mas também a falta de perspectiva para solucionar o problema.
“A fome não é a vontade de comer, a fome é a ausência da expectativa”, afirmou Vanderson durante a entrevista.
Apesar das dificuldades, ele diz que não enxerga o passado apenas como sofrimento. Na avaliação do empresário, cada etapa contribuiu para a formação profissional e pessoal que teve posteriormente.
“Eu não enxergo nenhum momento como um sofrimento. Eu enxergo todo momento muito preparativo”, declarou.
De office boy a contador
Antes de se tornar empresário, Vanderson também trabalhou como office boy em um escritório de contabilidade. O emprego ficava na região da Praça de Portugal, enquanto ele morava na Barra do Ceará.
Para economizar e lidar com as limitações impostas pelo próprio trabalho, ele chegou a percorrer cerca de 12 quilômetros a pé entre a casa e o escritório. Em alguns dias, precisava escolher entre utilizar o benefício de meia-passagem para ir ao trabalho ou para voltar para casa.
A experiência acabou abrindo portas para a carreira na contabilidade. Depois de atuar como office boy e contínuo, ele passou a trabalhar também com atividades contábeis e decidiu estudar na área.
“Eu sempre tive uma vontade de vencer. Não importa de onde a gente veio, importa para onde a gente vai”, afirmou.
A carreira profissional avançou com a passagem por uma empresa cearense do setor de concessionárias de caminhões e, posteriormente, pela Danone. Na multinacional, Vanderson atuou na área tributária e participou da implantação da fábrica da empresa em Maracanaú.
A experiência despertou nele a percepção de que o conhecimento adquirido no mercado poderia ser transformado em um negócio próprio.
Consultoria abriu caminho para o empreendedorismo
Antes do Grupo Mêntore, Vanderson fundou uma empresa de consultoria tributária chamada Taxx. A proposta inicial era levar serviços e conhecimento especializado para empresas de diferentes estados do Norte e Nordeste.
Ao longo dos anos, a empresa ampliou a atuação e passou a oferecer outros serviços relacionados à gestão empresarial. Segundo Vanderson, foram realizados mais de 5 mil projetos durante esse período.
A expansão da consultoria também contribuiu para a construção de uma rede de relacionamento que posteriormente seria importante para o novo negócio.
O nome Mêntore surgiu justamente dessa relação. Conforme explicou o empresário, clientes e parceiros passaram a chamá-lo de “mentor”, e a expressão acabou sendo incorporada à marca.
Grupo Mêntore nasceu em 2021
A instituição de pagamento foi criada em novembro de 2021, segundo Vanderson. O negócio começou com a participação de uma empresa de tecnologia e, posteriormente, de outro empresário cearense.
O primeiro cliente foi a Serval, empresa que, à época, tinha cerca de 6 mil funcionários. A contratação exigiu um período de avaliação e auditoria antes de a empresa confiar ao novo negócio o pagamento dos salários dos colaboradores.
A partir daí, o Grupo Mêntore iniciou uma expansão nacional baseada, segundo Vanderson, em tecnologia, relacionamento comercial e estrutura de compliance.
O empresário explicou que a estratégia comercial também envolveu o modelo de partnership, no qual profissionais podem atuar na prospecção de clientes e ter participação vinculada ao crescimento futuro da companhia.
“Nos primeiros dois anos, eu não fazia nada a não ser pensar nesse negócio. Eu trabalhava dia e noite, o tempo todo, pensando, trabalhando, fazendo comercial e criando uma estrutura”, relatou.
O que é uma instituição de pagamento?
Um dos principais pontos da entrevista foi a explicação sobre a diferença entre uma instituição de pagamento e um banco comercial.
Vanderson explicou que as instituições de pagamento passaram a ter uma estrutura regulatória própria a partir das mudanças promovidas no sistema brasileiro de pagamentos. Entre as diferenças citadas está a forma como os recursos dos clientes são tratados.
Segundo ele, quando uma pessoa deposita dinheiro em uma instituição de pagamento, o recurso não pode ser utilizado pela empresa da mesma maneira que um banco comercial utiliza os depósitos para operações de crédito.
O Grupo Mêntore atua principalmente no processamento de folhas de pagamento, permitindo que funcionários de grandes empresas tenham contas digitais e acesso a outros serviços financeiros.
A empresa também trabalha com benefícios e produtos voltados aos colaboradores.
Crédito para quem tem dificuldade de acesso
Um dos pilares apresentados por Vanderson durante a entrevista é ampliar o acesso ao crédito para pessoas que enfrentam dificuldades para obtê-lo no sistema tradicional.
O empresário citou a quantidade de brasileiros com restrições no cadastro de inadimplentes e afirmou que parte dessas pessoas continua tendo capacidade e disposição para honrar compromissos financeiros.
No modelo apresentado por ele, os empréstimos têm prazo curto e ticket médio de aproximadamente 20 dias. Vanderson afirmou que a inadimplência da operação gira em torno de 1%.
“O brasileiro quer pagar, ele quer honrar o nome. O problema é que a gente tem um aumento do preço muito grande, um salário mínimo muito baixo, então ele não tem condições de pagar”, disse.
R$ 80 bilhões movimentados e meta de R$ 300 milhões de lucro
O crescimento do Grupo Mêntore foi um dos principais destaques da entrevista.
Segundo Vanderson, a empresa movimentou mais de R$ 80 bilhões em 2026 até agosto. O número representa um avanço expressivo em relação aos R$ 18 bilhões movimentados no primeiro semestre de 2025, valor mencionado por Ricardo Bezerra durante a conversa.
O empresário também revelou uma projeção de lucro líquido de aproximadamente R$ 300 milhões em 2026. Para efeito de comparação, ele afirmou que o resultado de 2025 ficou em torno de R$ 120 milhões.
A empresa possui atualmente mais de 400 funcionários diretos e atende aproximadamente 1,2 milhão de vidas, segundo os dados apresentados pelo fundador.
A atuação já alcança diferentes regiões do país, de Manaus, no Amazonas, ao Rio Grande do Sul. Embora tenha expandido para São Paulo e outros mercados, o grupo mantém uma estrutura no Ceará.
De acordo com Vanderson, o Ceará representa atualmente cerca de 4% do market share da empresa.
São Paulo foi escolhido como centro da expansão
A ida para São Paulo foi apresentada pelo empresário como uma decisão estratégica. Para ele, estar na maior concentração financeira e empresarial do país é fundamental para encontrar profissionais, investidores, parceiros e oportunidades.
A sede do Grupo Mêntore fica em São Paulo, mas a empresa mantém uma estrutura relevante em Fortaleza.
Vanderson afirmou que não encontrou resistência por ser cearense ao entrar no mercado paulista. Na avaliação dele, o ambiente de negócios da capital paulista é mais concentrado naquilo que cada profissional ou empresa pode oferecer.
Ele também destacou que a construção de relacionamentos foi fundamental para romper barreiras e ampliar a presença nacional.
“Você começa a criar os apóstolos, aquelas pessoas que falam bem de você”, explicou.
Empresa quer ampliar atuação no mercado financeiro
Apesar de já ocupar posição relevante no segmento de instituições de pagamento voltadas ao processamento de folhas, Vanderson afirmou que o objetivo é ir além.
A meta declarada é transformar o Grupo Mêntore na maior instituição financeira do Brasil, ampliando a quantidade de produtos oferecidos aos clientes.
O empresário, no entanto, disse que não pretende transformar a companhia necessariamente em um banco comercial. Segundo ele, o foco está em ampliar o portfólio dentro do modelo de instituição de pagamento.
Mêntore e o projeto de IPO na Nasdaq
Outro assunto abordado durante o Conexões foi a possibilidade de uma futura abertura de capital da empresa.
Vanderson contou que o grupo foi procurado pelo UBS, banco que realizou um processo de due diligence na companhia. Segundo o empresário, após a análise, a instituição avaliou que o Grupo Mêntore poderia estar preparado para realizar uma oferta pública inicial de ações, um IPO, em aproximadamente três anos.
Ele afirmou ainda que a empresa teria sido a única escolhida pelo banco no Brasil em 2025 para esse tipo de projeto.
Apesar da possibilidade de abertura de capital, Vanderson afirmou que não pretende simplesmente vender a empresa.
“Eu acho que dinheiro tem que ter um destino. Muitas vezes você vende, coloca um monte de dinheiro no bolso e não tem o que fazer no dia seguinte”, declarou.
Mêntore quer participar novamente de disputa pelo Crediamigo
A entrevista também abordou a participação do grupo em uma disputa relacionada à operação do programa Crediamigo, do Banco do Nordeste.
Vanderson afirmou que o Grupo Mêntore chegou a vencer o processo, mas posteriormente foi desclassificado. Segundo ele, a proposta apresentada representaria uma economia de aproximadamente R$ 1 bilhão a cada dois anos para o Banco do Nordeste.
O empresário disse que pretende participar novamente caso uma nova disputa seja aberta e defendeu a possibilidade de reduzir os custos de operação do programa.
Ética, cultura e crescimento
Para Vanderson, um dos principais desafios atuais do grupo é crescer sem perder a cultura empresarial construída desde o início.
Ele citou a necessidade de acompanhar mudanças tecnológicas, manter estruturas de cibersegurança e cumprir as exigências do Banco Central.
A ética também aparece, segundo ele, como um dos valores centrais da companhia. Para o empresário, agir corretamente não deve depender da possibilidade de obter mais lucro ou da existência de fiscalização.
“É você fazer o certo independente de quanto você tenha a ganhar”, afirmou.
A responsabilidade social também está entre os planos. Vanderson disse que pretende ampliar ações voltadas para crianças de escolas públicas, oferecendo apoio para que tenham oportunidades de desenvolvimento que ele próprio não teve durante a infância.
De volta ao Ceará no futuro
Mesmo com a expansão nacional e a rotina concentrada em São Paulo, Vanderson afirmou que pretende voltar a morar no Ceará no futuro.
Ele contou que se imagina estabelecido novamente no estado, ao lado da família, e revelou o desejo de construir uma rotina menos concentrada exclusivamente no trabalho.
Aos 42 anos, o empresário também afirmou que pretende continuar atuando mesmo que, futuramente, reduza o ritmo profissional. Para ele, parar completamente não parece fazer sentido.
“Eu me sinto muito grato. Eu acho que eu tenho muito mais do que eu poderia sonhar, mas o interessante é que cada dia eu estou sonhando mais, com vontade de ter mais. Não de ter mais bens, mas de realizar mais coisas”, disse.
Fora do trabalho, Vanderson revelou que pretende dedicar mais tempo aos cavalos e está construindo um espaço no Ceará para desenvolver essa atividade.
O que explica o sucesso de Vanderson Aquino?
No encerramento da entrevista, Ricardo Bezerra perguntou qual seria, na visão do empresário, a chave para o sucesso alcançado até aqui.
A resposta resumiu uma ideia que esteve presente em praticamente toda a conversa: sonhar, acreditar e agir.
“Vontade, sonhar com alguma coisa e coragem para, no dia seguinte, dar um passo e tentar realizar”, respondeu Vanderson.
A trajetória apresentada no Conexões com Ricardo Bezerra reúne diferentes etapas de uma carreira construída a partir do Ceará: a venda de água de coco, o trabalho como office boy, a formação em contabilidade, a experiência em grandes empresas, a criação de uma consultoria e, posteriormente, a fundação de uma instituição de pagamento que hoje busca ampliar sua presença no mercado financeiro brasileiro.




