O Brasil pode enfrentar pelo menos seis ondas de calor entre setembro e dezembro de 2026, segundo uma análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). A estimativa considera o comportamento das temperaturas em períodos influenciados pelo El Niño e aponta que os episódios de calor extremo vêm se tornando mais frequentes e abrangentes no país.
A projeção não significa que seis eventos já tenham datas definidas. Trata-se de uma estimativa baseada no histórico climático, enquanto a intensidade e a distribuição dos episódios dependerão da evolução das condições atmosféricas e oceânicas nos próximos meses. O cenário analisado também indica a possibilidade de contrastes entre regiões brasileiras, com períodos de estiagem em algumas áreas e volumes elevados de chuva em outras.
Ondas de calor no Brasil estão mais frequentes e abrangentes
O comportamento das ondas de calor no Brasil mudou nas últimas décadas. Segundo a análise do Cemaden, episódios que eram menos frequentes e mais regionalizados nas décadas de 1980 e 1990 passaram, principalmente a partir de 2010, a alcançar áreas maiores do território. A mudança se tornou ainda mais evidente depois de 2020, quando os períodos de temperaturas muito elevadas passaram a apresentar maior extensão.
O levantamento considera um histórico de 47 anos de registros de temperatura em períodos associados ao El Niño. A partir desse conjunto de dados, o Cemaden chegou à estimativa de pelo menos seis ondas de calor entre setembro e dezembro deste ano. O número, entretanto, pode variar conforme a evolução do fenômeno climático. No último episódio de El Niño citado nas análises, o Brasil chegou a registrar nove ondas de calor em um único ano.
Como o El Niño pode influenciar o clima no Brasil
O El Niño é um fenômeno climático relacionado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. O Cemaden confirmou o desenvolvimento do fenômeno em 2026 e projeta efeitos que podem se estender para 2027.
No Brasil, os efeitos não são necessariamente iguais em todas as regiões. As projeções do órgão indicam possibilidade de redução das chuvas e aumento das temperaturas no Norte e no Nordeste, enquanto o Sul pode registrar aumento das precipitações. Também há possibilidade de atraso no início da estação chuvosa no Sudeste e no Centro-Oeste.
Esse comportamento ajuda a explicar por que o cenário climático previsto para os próximos meses combina temperaturas elevadas com períodos de estiagem e episódios de chuva intensa. A classificação do fenômeno como “Super El Niño”, porém, deve ser tratada com cautela. Em nota divulgada em maio, o próprio Cemaden afirmou que ainda era prematuro classificar o evento dessa forma, embora o monitoramento apontasse possibilidade de impactos importantes.
O que caracteriza uma onda de calor?
Uma onda de calor não corresponde simplesmente a um dia com temperatura muito alta. O fenômeno envolve uma sequência de dias com temperaturas significativamente acima dos valores considerados normais para determinada região.
A definição utilizada nas análises considera períodos de pelo menos três dias consecutivos com temperaturas máximas e mínimas excepcionalmente elevadas.
A temperatura durante a noite também é importante. Quando as mínimas permanecem altas, o intervalo de recuperação térmica entre um dia e outro diminui, fazendo com que o calor se acumule por períodos mais prolongados.
Por isso, uma sequência de dias quentes pode representar uma situação diferente de um pico isolado de temperatura. A duração e a persistência do calor são elementos fundamentais para caracterizar o fenômeno.
Previsão indica contraste entre estiagem e chuvas intensas
O cenário climático projetado para o segundo semestre de 2026 não aponta para um comportamento uniforme em todo o território brasileiro. No Norte e no Nordeste, as projeções do Cemaden indicam possibilidade de redução das chuvas e temperaturas mais altas. O cenário pode favorecer períodos de estiagem e aumentar a pressão sobre recursos hídricos.
Já no Sul, a expectativa apresentada pelo órgão é de aumento das chuvas. Em determinadas áreas, volumes elevados podem aumentar a possibilidade de alagamentos, enchentes e outros impactos associados à precipitação intensa.
No Centro-Oeste e no Sudeste, existe a possibilidade de atraso no início da estação chuvosa, o que pode afetar a recuperação de reservatórios e prolongar condições de tempo mais seco. Dessa forma, a previsão de novas ondas de calor ocorre dentro de um cenário climático mais amplo, marcado por diferenças significativas entre as regiões.
Calor deve continuar entre os principais pontos de atenção
A possibilidade de pelo menos seis ondas de calor entre setembro e dezembro reforça a necessidade de acompanhamento das atualizações meteorológicas durante os próximos meses. A maior frequência desses episódios também amplia a importância do monitoramento de condições que podem ser agravadas pelo calor persistente. Entre os pontos de atenção estão o risco de incêndios, a pressão sobre recursos hídricos e os impactos das temperaturas elevadas em atividades que dependem diretamente das condições climáticas. O Cemaden já destacou a relação entre o aumento da probabilidade de ondas de calor e condições favoráveis à propagação do fogo.
A análise histórica mostra que o fenômeno deixou de ser predominantemente localizado e passou a alcançar áreas mais extensas do país. Ao mesmo tempo, a influência do El Niño cria condições diferentes para cada região brasileira.
Assim, a previsão de pelo menos seis episódios até dezembro deve ser entendida como uma estimativa climática, e não como um calendário de ondas de calor já definido. A evolução das condições do oceano e da atmosfera continuará sendo determinante para a intensidade, a duração e a distribuição desses eventos ao longo de 2026.




