Uma das publicações será direcionada a crianças e jovens e terá como foco temas como planejamento, perseverança, disciplina e realização de sonhos. A ideia de Frota é que o livro tenha distribuição gratuita em escolas e bibliotecas públicas do Nordeste.
O segundo projeto terá uma abordagem voltada ao mundo empresarial. A proposta é relacionar situações vividas durante a viagem com assuntos como gestão, planejamento estratégico, gerenciamento de riscos, tomada de decisões e capacidade de adaptação.
Para Frota, a experiência mostrou que o planejamento é indispensável, mas também precisa considerar situações inesperadas. “Planejamento é necessário, mas você tem que saber que alguma coisa vai dar errado”, afirma o piloto.
Piloto cearense Alexandre Frota planeja dois livros
A ideia de transformar a viagem em conteúdo educacional e empresarial surgiu a partir dos desafios encontrados ao longo da preparação e da própria circunavegação. Frota passou quase dois anos estruturando o projeto antes de iniciar a viagem, que envolveu levantamento de aeroportos, rotas, abastecimento, autorizações e regras para a circulação de uma aeronave experimental em diferentes países.
O planejamento inicial previa a passagem por 45 países. Ao longo da execução, porém, a rota foi alterada por questões burocráticas, meteorológicas e operacionais. Ao final, segundo os números apresentados pelo piloto, foram 33 países, cinco continentes, aproximadamente 80 mil quilômetros percorridos, 107 pousos e cerca de 300 horas de voo.
A experiência também representa a realização de um projeto que começou a ser desenhado ainda antes da viagem. Em 19 de outubro de 2022, Frota registrou para si um planejamento detalhado da possível volta ao mundo, incluindo rotas, necessidades de combustível, possíveis patrocinadores e questões burocráticas.
Volta ao mundo teve 33 países, cinco continentes e 107 pousos
A viagem foi realizada em um RV-10, aeronave experimental de quatro lugares construída em alumínio a partir de um kit da fabricante Van’s Aircraft. Para ampliar a autonomia, o avião recebeu modificações que, segundo Frota, permitiram aumentar significativamente o tempo de voo em determinados trechos.
O piloto iniciou a jornada com aproximadamente 600 horas de voo acumuladas e terminou a viagem com cerca de 900 horas. Alguns dos deslocamentos tiveram aproximadamente nove horas de duração, enquanto o voo mais longo chegou a cerca de dez horas, entre as Filipinas e a Coreia do Sul.
A rota passou por diferentes regiões do planeta, incluindo América do Sul, Caribe, América do Norte, Europa, África, Ásia e Oceania. No trecho pelo extremo norte, Frota passou por Canadá e Groenlândia, incluindo pousos em pistas de asfalto e cascalho, além da passagem pelo Círculo Polar Ártico.
A experiência, no entanto, não foi marcada apenas pelos quilômetros percorridos. O piloto relata que a burocracia internacional foi um dos principais obstáculos encontrados durante a operação.
Burocracia e problemas mecânicos marcaram a viagem
Em alguns países, a autorização para a entrada do avião experimental exigiu longos períodos de espera. Nas Filipinas, por exemplo, Frota afirma ter aguardado oito dias pela liberação da aeronave e buscado apoio da diplomacia brasileira na Ásia.
Também houve mudanças de rota. O piloto não conseguiu realizar os pousos planejados na China e no Japão nas condições inicialmente previstas, o que obrigou a reorganização de etapas da viagem. No México, uma interrupção na autorização também fez com que ele retornasse aos Estados Unidos.
Durante a passagem pela África, Frota relata um problema relacionado ao sistema de combustível. Uma questão envolvendo a pressão do tanque provocou vazamento e danos à estrutura, levando a uma solução emergencial com material de reparo.
Outro episódio ocorreu no trecho entre Dubai e a Índia, quando os dois barramentos elétricos da aeronave apresentaram falhas. Segundo o piloto, a situação afetou sistemas de navegação e comunicação e exigiu apoio para manter o contato com o controle de tráfego aéreo.
As condições meteorológicas também interferiram na viagem. Em uma das saídas do Brasil, Frota precisou aguardar próximo a Caponga, no Ceará, até que uma formação de nuvens permitisse a continuidade do voo. Em outros trechos, como entre Índia e Tailândia, ele relata ter enfrentado condições adversas e precisado alterar altitude e rota.
Avião experimental foi adaptado para enfrentar longos trechos
A escolha do avião também fez parte do desafio. O RV-10 utilizado na viagem é uma aeronave experimental, categoria que trouxe dificuldades adicionais para obtenção de autorizações internacionais.
A autonomia original do modelo foi ampliada por modificações realizadas antes da viagem. O objetivo era permitir que a aeronave pudesse cumprir etapas mais longas com maior margem operacional.
Depois de concluir a volta ao mundo, Frota afirma que, caso realizasse uma nova expedição semelhante, optaria por uma aeronave certificada. A principal razão apontada por ele está justamente nas dificuldades burocráticas encontradas para levar um avião experimental por diferentes países.
Apesar dos problemas, a experiência também passou a ser tratada pelo piloto como material para compartilhar conhecimentos além da aviação.
Experiência será levada para escolas e empresas
A partir dos dois livros, Frota pretende transformar situações concretas da viagem em exemplos sobre tomada de decisão, planejamento e adaptação. O projeto voltado ao público jovem terá como eixo a ideia de mostrar que grandes objetivos exigem preparação, disciplina e persistência.
A publicação destinada ao ambiente empresarial seguirá outro caminho, usando os acontecimentos da viagem para discutir temas relacionados à administração e aos riscos envolvidos em decisões de grande porte.
A trajetória ajuda a explicar a escolha desses assuntos. Frota começou a se aproximar da aviação ainda na infância, quando vivia na Vila União, em Fortaleza, nas proximidades do antigo aeroporto. Na fábrica de móveis da família, a Móveis Jacira, chegou a construir pequenos aviões de madeira.
O primeiro voo ocorreu quando seu tio e padrinho, Silvio Flores, o levou em um pequeno ultraleve. Anos depois, aos 27, Frota chegou a buscar a licença para pilotar por lazer, mas interrompeu o projeto por questões financeiras e profissionais.
Aos 44 anos, retomou o objetivo. Fez a formação para piloto privado em Itápolis, buscou qualificação para voo por instrumentos em Juiz de Fora e realizou o primeiro voo solo em um Cessna 152.
Agora, depois da volta ao mundo, a intenção é transformar o que foi vivido no cockpit em conteúdo para outros públicos. Além dos livros, Frota planeja realizar palestras no Ceará e em outras regiões do Brasil, abordando planejamento estratégico, gerenciamento de riscos, tomada de decisão e adaptação a situações inesperadas.




