O Banco de Olhos do Ceará registrou mais de 600 doações de córneas entre janeiro e agosto de 2026, resultado que reforça a importância da decisão das famílias de autorizar a retirada dos tecidos para transplante. Segundo as informações apresentadas pela coordenação do serviço, mais de 700 famílias disseram sim à doação no período, possibilitando que outras pessoas tenham a oportunidade de recuperar parte ou a totalidade da capacidade visual comprometida por doenças da córnea.
O número ganha ainda mais relevância durante o Setembro Verde, período dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos. No Ceará, a córnea ocupa a primeira posição entre os tecidos mais doados. Em uma década, foram realizados mais de 11 mil transplantes de córnea no Estado, conforme os dados apresentados pelo Banco de Olhos.
Por trás das estatísticas estão histórias de pacientes que passaram anos enfrentando limitações provocadas pela perda da visão. Uma delas é a do psicólogo Hilton Queiroz, que precisou passar por sete transplantes de córnea ao longo da vida.
Hilton recebeu o primeiro transplante aos 10 anos, em 1973, quando o procedimento ainda era realizado em caráter experimental. O diagnóstico era de ceratocone, doença que altera progressivamente o formato da córnea e pode provocar comprometimento severo da visão.
"Foi feito o transplante, mas deu um problema. Aí eu fiquei com a visão só de um olho."
A experiência inicial foi marcada pelo medo e pela incerteza. Com a evolução da doença e das técnicas médicas, porém, Hilton continuou buscando alternativas para recuperar a visão. Décadas depois, novos procedimentos permitiram avanços importantes em seu quadro.
Transplante de córnea pode recuperar visão comprometida
O ceratocone é uma doença ocular degenerativa que modifica a estrutura da córnea, camada transparente localizada na parte frontal do olho. Com a progressão da enfermidade, a córnea pode assumir um formato mais cônico, prejudicando a passagem adequada da luz e comprometendo a qualidade da visão.
Em casos avançados, quando outras formas de tratamento já não apresentam resposta suficiente, o transplante pode ser indicado para substituir a córnea comprometida.
Foi nesse contexto que a história de Hilton acompanhou também a evolução do transplante de córnea no Ceará. Depois dos primeiros procedimentos, ele passou anos levando a vida normalmente, estudando, entrando na faculdade, formando-se e constituindo família.
Aos 40 anos, entretanto, ele voltou a procurar atendimento especializado. Uma oftalmologista realizou novos transplantes, incluindo procedimentos no olho que apresentava maior comprometimento.
"Eu voltei a enxergar."
O resultado representou uma mudança significativa para o paciente. A recuperação da visão após um transplante não ocorre necessariamente de forma imediata. O acompanhamento médico é parte fundamental do processo, e a evolução pode acontecer gradualmente.
Hilton também relata o sentimento experimentado após os procedimentos que deram resultado.
"Foi um sentimento de gratidão, de alegria, de ver a visão aos poucos retornando, porque é um processo lento, mas que deu tudo certo."
Doação de córneas depende da autorização da família
A captação das córneas no Ceará envolve uma estrutura de atendimento que passa pelo acolhimento das famílias de potenciais doadores. Conforme explicou Lisiane Paiva, coordenadora do Banco de Olhos do Ceará, o contato com os familiares ocorre em um momento especialmente delicado, exigindo abordagem cuidadosa e informações claras sobre o processo.
"Nós acolhemos a família desse possível doador e fazemos durante esse acolhimento a entrevista."
Durante a conversa, a equipe procura conhecer informações relacionadas ao histórico do potencial doador e verificar se existem contraindicações para a doação.
"No acolhimento nós vamos conhecer um pouco daquela pessoa, saber se ela não tem nenhuma contraindicação para ser um possível doador."
O procedimento evidencia uma etapa fundamental para que a doação aconteça: a manifestação da família. Por isso, além de informar sobre a importância da doação, as campanhas de conscientização também buscam estimular as pessoas a conversar em vida com seus familiares sobre o desejo de serem doadoras.
A orientação ganha destaque justamente porque a decisão familiar pode representar a possibilidade de tratamento para outra pessoa que aguarda por um transplante.
Ceará ficou em primeiro lugar em doações de córneas em 2025
O desempenho registrado pelo Ceará também alcançou destaque nacional. De acordo com os dados apresentados pelo Banco de Olhos, o Estado terminou 2025 na primeira colocação do Brasil em doações de córneas.
A marca é associada, entre outros fatores, à participação da população e ao trabalho desenvolvido pelas equipes responsáveis pela captação e pelo acolhimento das famílias.
Para Hilton, a importância da doação pode ser compreendida a partir da própria experiência de quem recebeu uma córnea e teve a oportunidade de recuperar a visão.
O trabalho realizado pelas equipes também inclui ações de reconhecimento às famílias que autorizaram a doação. Em Fortaleza, um jardim foi criado como homenagem aos familiares que decidiram pela solidariedade em um momento de luto.
A iniciativa procura manter visível a contribuição dos doadores e de seus familiares para o sistema de transplantes.
Setembro Verde reforça importância de falar sobre doação
O mês de setembro é marcado pelo Setembro Verde, campanha de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos. A mobilização busca ampliar o conhecimento da população sobre o tema e estimular uma conversa que pode fazer diferença quando uma família enfrenta a perda de um ente querido.
A orientação apresentada durante a campanha é que as pessoas manifestem ainda em vida a vontade de doar. Isso permite que os familiares conheçam previamente essa decisão e estejam mais preparados para considerá-la em um eventual momento de luto.
A história de Maria Sofia, influenciadora e estudante de Direito que morreu aos 19 anos, também aparece como exemplo dessa corrente de solidariedade. A jovem precisou de um transplante de fígado e recebeu o órgão de uma família que havia autorizado a doação, mas não resistiu.
Mesmo diante da perda, a família de Maria Sofia decidiu manter o gesto solidário e autorizou a doação de quatro órgãos. Dessa forma, a história da jovem passou a fazer parte de outras trajetórias de pacientes beneficiados pelos transplantes.
A experiência também integra uma campanha de conscientização do Grupo Cidade de Comunicação em defesa da doação de órgãos.
O caso reforça uma das principais mensagens do Setembro Verde: a decisão tomada por uma família em um momento de dor pode representar uma nova oportunidade para outras pessoas.
No caso das córneas, os números do Ceará mostram a dimensão desse gesto. Centenas de doações realizadas em apenas oito meses de 2026 se transformaram em possibilidade de tratamento para pacientes que enfrentam diferentes doenças oculares.
Mais do que uma estatística, cada córnea captada depende de uma decisão familiar e de uma estrutura especializada para que o tecido possa chegar a quem aguarda pelo transplante. A conscientização, portanto, começa antes da necessidade médica: conversar sobre o desejo de doar é uma das formas de tornar essa decisão conhecida.
Para Hilton, que atravessou décadas entre procedimentos, dificuldades e novas possibilidades oferecidas pela medicina, a experiência traduz o impacto que uma doação pode ter na vida de quem espera.
"Dizer sim à doação de órgãos é um ato de amor."




