A investigação sobre a morte de Isabelle Caracristi reuniu diferentes elementos para embasar o pedido de prisão preventiva de João Munhoz Neto, namorado da jovem. Entre eles estão um áudio enviado por Isabelle a um primo horas antes da morte, mensagens recuperadas do celular, uma lacuna de quase 19 horas nos dados do aparelho e a retirada de uma câmera instalada na porta do apartamento onde o casal morava. A prisão preventiva foi mantida após a audiência de custódia realizada nesta quarta-feira (23).
Os elementos aparecem em conjunto na investigação e na decisão que decretou a prisão. Eles não representam, isoladamente, uma conclusão sobre o que aconteceu no momento da queda de Isabelle, cuja dinâmica ainda é apurada pela Polícia Civil.
Áudio enviado por Isabelle horas antes da morte
Um dos principais elementos citados na investigação é um áudio de aproximadamente 16 minutos enviado por Isabelle ao primo Alessandro Ferreira Caracristi no dia 13 de setembro, horas antes da morte.
Segundo o depoimento do familiar, a estudante relatou uma discussão com João, afirmou que havia sido ameaçada e pediu que o conteúdo fosse entregue à polícia caso alguma coisa acontecesse com ela. O relato integra os elementos reunidos pela Polícia Civil durante a investigação.
O primo também contou aos investigadores que Isabelle já havia relatado problemas no relacionamento. Em uma ligação ocorrida cerca de uma semana antes da morte, segundo ele, a jovem reclamou de ciúmes e de restrições para conversar com familiares e colegas. O familiar afirmou ainda ter ouvido João, ao fundo, mandando que Isabelle desligasse o telefone.
Em outro relato atribuído à jovem, aparece a frase “não acredite nele”, mencionada pelo primo em depoimento. O conteúdo passou a integrar o conjunto de informações analisadas na investigação que antecedeu a prisão preventiva.
Mensagens apontam conflitos na relação
Além do áudio, mensagens encontradas no celular de Isabelle foram analisadas pela Polícia Civil. Segundo os elementos descritos na investigação, as conversas indicam episódios de cobrança, vigilância e conflitos relacionados ao relacionamento.
A análise preliminar dos dados também apontou relatos da jovem sobre pressão emocional e sensação de estar presa à relação. Esses conteúdos são considerados pela investigação em conjunto com depoimentos e outros elementos técnicos, e não determinam, sozinhos, o que ocorreu no momento da queda.
Os investigadores também analisam a relação profissional entre Isabelle e João. Ela tinha 22 anos e estudava Direito, enquanto João, de 34 anos, é bacharel em Direito e atuava em escritório no qual os dois tinham vínculo profissional.
A decisão que decretou a prisão preventiva reúne esses elementos para descrever um contexto que, segundo a investigação, poderia indicar violência psicológica e comportamento de controle. A defesa de João contesta essa interpretação e sustenta outra versão para a morte da jovem.
Celular tem lacuna de quase 19 horas nos dados analisados
Outro ponto investigado é o intervalo sem registros recuperados no celular de Isabelle.
De acordo com a análise técnica divulgada no curso da investigação, foram extraídos dados do aparelho até aproximadamente 2h do dia 13 de setembro. Depois desse período, há uma lacuna que se estende até o horário estimado da morte, por volta das 20h40 — um intervalo de quase 19 horas.
O aparelho ficou fisicamente danificado após a queda, e os investigadores também trabalharam com informações que estavam armazenadas em servidores. Por isso, a ausência de determinados registros não permite concluir, por si só, que houve apagamento intencional de dados. O intervalo, porém, passou a ser considerado relevante para a reconstrução das últimas horas de Isabelle.
Além do celular da vítima, outros aparelhos eletrônicos também foram recolhidos durante a investigação e submetidos à análise. A Polícia Civil segue cruzando essas informações com depoimentos e imagens de segurança.
Câmera instalada na porta do apartamento foi retirada
A investigação também identificou que havia uma câmera particular instalada na soleira da porta do apartamento onde Isabelle e João moravam.
Segundo a Polícia Civil, o equipamento foi retirado do local, mas os investigadores não conseguiram precisar quando isso aconteceu. A ausência da câmera passou a ser considerada nas diligências porque o dispositivo poderia registrar movimentações na entrada do imóvel.
A retirada do equipamento é tratada como um elemento investigativo. Não há, até o momento, conclusão pública de que a câmera tenha sido retirada com o objetivo de eliminar provas ou de que seu conteúdo tenha sido deliberadamente apagado.
Prisão preventiva foi mantida após audiência de custódia
João Munhoz Neto foi preso pela Polícia Civil na terça-feira (22), em Fortaleza, após a investigação avançar para o pedido de prisão preventiva. Entre os fundamentos apresentados estão elementos relacionados ao contexto de violência psicológica investigado e à possibilidade de interferência na apuração.
A audiência de custódia ocorreu nesta quarta-feira (23), e a prisão preventiva foi mantida. Com isso, João permanece preso enquanto a investigação sobre a morte de Isabelle continua.
A defesa contesta a prisão e sustenta que João não teve participação na morte da jovem, apresentando a versão de que Isabelle teria cometido suicídio. Essa é uma tese da defesa e não corresponde a uma conclusão definitiva da investigação.
A investigação, portanto, ainda busca esclarecer a dinâmica da queda, além de confrontar os diferentes elementos reunidos desde a morte.
Relembre o caso Isabelle Caracristi
Isabelle Caracristi, de 22 anos, foi encontrada morta no pátio do condomínio La Piazza, na Aldeota, em Fortaleza, no dia 13 de setembro. Ela morava no local com João Munhoz Neto e familiares dele.
A perícia apontou politraumatismo compatível com impacto contra o solo. Os exames toxicológicos realizados até então não identificaram substâncias de interesse, enquanto outros procedimentos periciais e a análise de imagens e aparelhos eletrônicos continuaram sendo realizados. A dinâmica da queda não foi oficialmente esclarecida.
Nas imagens de segurança analisadas pela investigação, Isabelle aparece chegando ao condomínio no fim da tarde e, posteriormente, seguindo sozinha para o 23º andar. João havia deixado o local antes da queda e retornou horas depois, por volta das 22h48, segundo informações reunidas durante a apuração.
Pouco antes da morte, Isabelle também manteve contato com familiares. Segundo a mãe, Isorlanda, a filha havia reclamado de dores no pescoço e enviado uma mensagem dizendo “Mãe, eu te amo”. A mãe afirmou que normalmente recebia uma mensagem de despedida da filha à noite, mas não recebeu naquele dia.
A família só soube da morte no dia seguinte. Isorlanda relatou que tentou entrar em contato com a filha e foi ao condomínio com o filho Rafael depois de não conseguir notícias. Segundo o relato da família, ela descobriu no local que Isabelle havia morrido.
O irmão Rafael também prestou depoimento durante a investigação. Familiares passaram a cobrar esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte e sobre o relacionamento da jovem com João.
A partir dos depoimentos, imagens, mensagens, áudios, exames periciais e dados dos aparelhos eletrônicos, a Polícia Civil continua reconstruindo as últimas horas de Isabelle. João está preso preventivamente, após a manutenção da medida na audiência de custódia, enquanto o inquérito segue em andamento.




