A doação de órgãos no Ceará possibilitou a realização de 1.114 transplantes até 25 de agosto de 2026. Os números incluem 709 transplantes de córnea, 140 de rim, 152 de fígado, 82 de medula óssea e 21 de coração. Os dados mostram a dimensão de uma rede que depende tanto da estrutura hospitalar quanto de uma decisão tomada pelas famílias em um dos momentos mais difíceis do luto.
Familiares de doadores e pessoas transplantadas se encontraram no Paço Municipal, em Fortaleza, em uma ação de conscientização sobre a importância da doação. O encontro também resgatou histórias de pessoas que receberam uma nova oportunidade após um transplante e de famílias que, mesmo diante da perda, autorizaram a retirada de órgãos para beneficiar outros pacientes.
Uma das homenagens presentes no local foi a Árvore da Vida, construída com mensagens de familiares de pessoas falecidas e doadoras de órgãos. Entre as mensagens, estão declarações de parentes que encontraram na doação uma forma de manter parte da história dos entes queridos viva.
“Dizer sim à doação de órgãos acontece no momento de maior dor. É ter a sensação de saber que tem um pedacinho do meu filho ainda vivo”, diz uma das mensagens deixadas na árvore.
O processo, no entanto, envolve critérios médicos e legais rigorosos. A decisão da família só acontece depois da confirmação da morte encefálica, condição que precisa ser diagnosticada por profissionais habilitados e por meio de exames específicos.
Como funciona a autorização para doação de órgãos
A legislação brasileira estabelece que a doação de órgãos de uma pessoa falecida depende da autorização da família. Antes disso, é necessário confirmar o diagnóstico de morte encefálica.
A avaliação não é feita de maneira isolada. O diagnóstico exige exames clínicos e complementares, incluindo avaliações relacionadas às funções respiratórias e exames de imagem, conforme os protocolos médicos. Os profissionais responsáveis precisam ter formação e experiência específicas para realizar esse procedimento.
Outro ponto importante é a separação entre a equipe que confirma a morte encefálica e os profissionais envolvidos no transplante. O diagnóstico precisa ser realizado por médicos que não fazem parte da equipe responsável pelo transplante.
A confirmação da morte encefálica dá início a uma etapa considerada decisiva para a possibilidade de doação. A família recebe a informação e passa a ser acompanhada por profissionais preparados para esclarecer dúvidas e explicar como funciona todo o processo.
“Quando é identificado, é iniciado o diagnóstico de morte encefálica. A equipe da EDOTE já passa a acompanhar tanto o paciente quanto a família, para que sejam esclarecidas as dúvidas”, explicou Aline Alves, coordenadora de Transplante do IJF.
Esse acompanhamento é fundamental porque a família precisa compreender o diagnóstico, conhecer as possibilidades de doação e tomar uma decisão em um intervalo limitado de tempo.
O tempo é decisivo depois da morte encefálica
Após a confirmação da morte encefálica, começa uma corrida contra o tempo para viabilizar uma eventual doação.
A manutenção das condições clínicas do potencial doador permite que os órgãos permaneçam em condições adequadas enquanto a família é acompanhada e enquanto a rede de transplantes é acionada.
Em Fortaleza, todo o processo pode levar aproximadamente de 12 a 24 horas, embora o tempo varie conforme a resposta dos familiares e as circunstâncias de cada caso.
“A gente conversa com a família, sensibiliza, espera a resposta dessa família, se ela vai autorizar ou não. Ela autorizando, a partir da autorização familiar é que começa toda a articulação de todo esse processo”, explicou Aline Alves.
Depois da autorização, a Central Estadual de Transplantes é acionada para a identificação de possíveis receptores e para a organização das equipes responsáveis pelos procedimentos.
Essa articulação envolve diferentes profissionais e instituições. O objetivo é fazer com que os órgãos possam chegar aos pacientes que aguardam por um transplante dentro das condições e dos prazos médicos necessários.
Por isso, a decisão familiar é apenas uma das etapas de uma operação que depende de uma estrutura organizada em todo o Estado.
Ceará tem 57 hospitais notificadores de possíveis doadores
Atualmente, 57 hospitais públicos, privados e filantrópicos do Ceará são qualificados como unidades notificadoras vinculadas ao Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde.
Essas instituições têm papel estratégico porque são responsáveis por identificar e notificar situações que podem envolver potenciais doadores. Para fazer parte dessa estrutura, os hospitais precisam cumprir requisitos estabelecidos pelo sistema de transplantes.
A partir da identificação de um possível doador, profissionais especializados passam a acompanhar o caso. A equipe também atua junto aos familiares, oferecendo informações sobre o diagnóstico e sobre a possibilidade de doação.
Esse trabalho ajuda a organizar uma cadeia que começa dentro do hospital e pode terminar na realização de um transplante em outra unidade, beneficiando uma pessoa que aguardava por um órgão.
Os números de 2026 mostram diferentes dimensões dessa rede. O maior volume até 25 de agosto foi registrado nos transplantes de córnea, com 709 procedimentos. Em seguida aparecem fígado, com 152, e rim, com 140.
Também foram realizados 82 transplantes de medula óssea e 21 de coração no período.
Famílias relatam a dor e o significado de dizer sim à doação
Por trás dos números estão histórias de famílias que precisaram tomar uma decisão em meio à perda.
Joyce Amanda Soares, professora, falou sobre a experiência de se despedir do neto e saber que os órgãos dele poderiam ajudar outras crianças.
“Pra mim saber que ele iria salvar um monte de crianças que estariam esperando”, relatou Joyce.
Ela também associou a decisão da família ao significado que encontrou na partida do neto.
“Eu sei que meu neto foi um anjo enviado por Deus”, afirmou.
Outro relato presente na campanha mostra como a autorização pode ser interpretada pelos familiares como uma maneira de prolongar, simbolicamente, a presença de quem morreu.
“Não é fácil a decisão, mas foi a melhor decisão que eu tomei”, diz uma das mensagens deixadas na Árvore da Vida.
A experiência de quem recebeu um órgão também aparece como contraponto à dor dos familiares dos doadores.
Marilac Batista, transplantada, descreveu a emoção de descobrir que havia chegado o momento de receber um novo órgão.
“Quando eu recebi a notícia que ia ser transplantada, parecia que eu ia, assim, toda a gente tá esperando que vai pra maternidade”, contou.
O relato mostra a dimensão que a espera pode assumir para quem depende de um transplante. A chegada de um órgão representa a possibilidade de mudança na rotina e, em muitos casos, a continuidade da própria vida.
Transplantados recebem nova oportunidade de vida
A relação entre doadores e receptores é marcada por uma circunstância singular: enquanto uma família enfrenta a perda de uma pessoa querida, outra recebe a possibilidade de continuar a vida graças à decisão tomada naquele momento.
Essa relação também aparece na história de Maria Sofia, influenciadora e estudante de Direito que precisou de um transplante de fígado. Ela recebeu o órgão de uma família enlutada, mas não resistiu.
Mesmo diante da perda, os familiares de Maria Sofia decidiram seguir com a doação de quatro órgãos. A atitude deu continuidade à corrente de solidariedade associada à campanha do Grupo Cidade de Comunicação em prol da doação de órgãos.
A história de Maria Sofia permanece, assim, ligada a duas dimensões do processo: a necessidade de transplantes e a importância da decisão de doar.
A doação não elimina a dor de uma família que perdeu alguém. Mas, para quem aguarda um órgão, a autorização pode representar a oportunidade de continuar vivendo.
Por isso, a orientação central das campanhas de conscientização é que as pessoas conversem com seus familiares sobre o desejo de serem doadoras. Como a autorização após a morte depende da família, comunicar essa vontade antecipadamente pode ajudar a reduzir dúvidas em um momento de forte impacto emocional.
No Ceará, os 1.114 transplantes realizados até 25 de agosto mostram que a doação já transforma a vida de centenas de pessoas. Ao mesmo tempo, a estrutura formada por 57 hospitais notificadores, equipes especializadas e a Central Estadual de Transplantes demonstra que cada doação depende de uma cadeia que precisa funcionar rapidamente.
No centro dessa cadeia está uma decisão familiar.
E, para muitas pessoas que esperam por um transplante, essa decisão pode significar a chance de receber aquilo que Marilac Batista descreveu como uma nova oportunidade de vida.




