O papa Leão XIV afirmou nesta segunda-feira (28) que posições políticas de extrema direita não são uma expressão autêntica do cristianismo. A declaração ocorreu durante a conversa com jornalistas no voo de volta a Roma, após uma visita de quatro dias à França, quando ele falava sobre correntes religiosas na Alemanha.
Questionado sobre o crescimento de grupos extremistas na Alemanha e a redução do número de fiéis no país, o Pontífice afirmou que seria necessário analisar se existe alguma relação entre os dois fenômenos. Leão XIV também disse que pretende manter o diálogo com representantes das Igrejas Católica e Protestante alemãs.
“Vemos também algumas manifestações que combinam essas posições de extrema direita com um determinado tipo de religião. E não é apenas a minha opinião: tanto os líderes da Igreja Católica quanto os da Igreja Protestante na Alemanha já se pronunciaram a respeito, afirmando que isso não constitui uma expressão autêntica do cristianismo”, declarou.
Na sequência, o papa citou os valores do Evangelho como referência para a atuação religiosa diante do extremismo.
“Voltamos aos valores do Evangelho, que não são sobre ódio e divisão, mas sobre compreensão e compaixão”, afirmou.
Leão XIV não citou partido alemão
O papa não mencionou nominalmente nenhum partido alemão ao responder à pergunta. A manifestação ocorreu em um momento de avanço eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD), principal força política de extrema direita do país.
Nas eleições federais de 2025, a AfD recebeu 20,8% dos votos de segunda lista e ficou atrás apenas da União Democrata-Cristã (CDU), que obteve 22,6%. A legenda conquistou 152 cadeiras no Bundestag.
Em setembro de 2026, a AfD também obteve cerca de 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt. Naquele estado, a legenda é classificada pelos serviços de inteligência locais como extremista de direita.
A sigla também venceu a eleição estadual de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Apesar dos resultados, a formação de governos com a AfD permanece limitada pela posição dos demais partidos de não estabelecer coalizões com a legenda.
Papa defende participação política pelo bem comum
Durante a conversa com os jornalistas, Leão XIV também afirmou que a Igreja deve incentivar os cidadãos a participarem dos processos políticos e fazerem escolhas voltadas ao bem comum.
O Pontífice disse que a Igreja pode contribuir por meio da Doutrina Social Católica, com ensinamentos sobre valores que, segundo ele, promovem a vida e se contrapõem à divisão e ao ódio.
Leão XIV também avaliou que as consequências de ideias extremistas podem ser maiores do que as conhecidas atualmente e defendeu uma atuação da Igreja voltada ao diálogo com diferentes setores da sociedade.
Viagem à França teve unidade europeia como tema
A declaração sobre a Alemanha ocorreu no encerramento da viagem de quatro dias de Leão XIV à França. Na última etapa, em Metz, cidade próxima às fronteiras com Alemanha e Luxemburgo, o papa falou sobre a trajetória de integração europeia e destacou a importância do diálogo entre diferentes culturas e tradições.
Em Metz, o Pontífice também participou de um encontro inter-religioso no Centro de Congressos Robert Schuman. Na ocasião, defendeu que as religiões atuem em favor da dignidade humana e rejeitem o uso do nome de Deus para justificar violência ou opressão.
O local leva o nome de Robert Schuman, um dos nomes ligados à criação do projeto de integração europeia. Durante a viagem, Leão XIV defendeu valores como liberdade, democracia, Estado de Direito e unidade entre os países europeus.
Papa critica aumento dos gastos militares
A guerra entre Rússia e Ucrânia também esteve entre os temas abordados pelo Pontífice. Leão XIV defendeu que os negociadores estejam dispostos a fazer concessões para alcançar um acordo de paz.
Sem citar diretamente os países envolvidos em determinado momento do discurso, o papa classificou o conflito como um novo massacre sem sentido e mencionou o apelo feito pelo papa Bento XV em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, em defesa de negociações.
Leão XIV também criticou o aumento dos gastos militares na Europa e questionou se o crescimento dos investimentos em defesa representa uma preparação para a paz ou para novos conflitos. Ele afirmou que os países devem evitar a ideia de que o rearmamento seja, por si só, uma resposta aos problemas internacionais.
Imigração também foi abordada durante visita
Ao lado do presidente francês Emmanuel Macron, Leão XIV defendeu a integração de imigrantes nos países europeus e pediu a criação de caminhos legais e seguros para a migração.
O papa também mencionou a necessidade de cooperação internacional no combate ao tráfico de pessoas e defendeu que os imigrantes sejam recebidos com condições de integração nas sociedades europeias.
Leão XIV fala sobre relações entre países
Durante a passagem por Metz, o Pontífice também afirmou que as relações entre indivíduos e Estados estão se tornando “cada vez mais incivilizadas”.
Leão XIV relacionou essa deterioração ao enfraquecimento do compromisso com a palavra dada e à presença de mentiras e enganos nas relações internacionais. A declaração fez parte das manifestações do papa sobre a necessidade de diálogo e cooperação entre países.
A viagem à França terminou nesta segunda-feira, quando Leão XIV deixou o país pelo aeroporto de Metz-Nancy-Lorraine com destino a Roma.




