As abelhas sem ferrão estão encontrando espaço até mesmo em quintais de casas e pequenos ambientes urbanos de Fortaleza. A criação, conhecida como meliponicultura, permite manter espécies nativas em caixas próprias e contribui para a polinização de plantas, além de possibilitar a produção de mel e outros produtos.
Um dos exemplos está no quintal do meliponicultor João de Almeida, em Fortaleza. No local, são criadas seis espécies de abelhas nativas do Nordeste: Jandaíra, Marmelada, Canudo, Jataí, Jati e Uruçu Amarela.
A estrutura ocupa um espaço residencial e mostra como a atividade pode ser desenvolvida próxima das pessoas, desde que sejam respeitadas as condições necessárias para a criação.
Segundo João, o trabalho desenvolvido no local tem também um objetivo de divulgação e multiplicação das espécies.
“Esse meliponário fica no quintal da casa do João, em Fortaleza. São seis espécies de abelhas nativas do Nordeste”, relata o material da reportagem sobre a criação.
Neste ano, as colônias mantidas no espaço produziram 25 litros de mel. O produto, dependendo da espécie e das características da produção, pode alcançar valores elevados no mercado especializado. No caso apresentado na reportagem, o preço de um litro varia de R$ 300 a R$ 1 mil.
Abelhas nativas ajudam na polinização
A criação das abelhas sem ferrão vai além da produção de mel. A atividade também está relacionada à preservação de espécies nativas e ao processo de polinização, fundamental para a reprodução de diversas plantas.
O meliponicultor cria colônias matrizes e pode multiplicá-las para formar novas colônias. A prática permite ampliar a quantidade de abelhas mantidas nos meliponários e, ao mesmo tempo, contribuir para a presença desses insetos em ambientes onde eles conseguem encontrar condições adequadas.
João explica que existem diferentes maneiras de iniciar uma criação. Uma delas envolve a captura de enxames que se estabeleceram livremente no ambiente.
Essa etapa pode ser difícil porque as próprias abelhas escolhem os locais onde constroem seus ninhos. Por isso, a captura exige cuidado e conhecimento para que a colônia seja transferida adequadamente.
Outra possibilidade é a multiplicação de colônias já existentes.
Nesse processo, parte das abelhas e das crias de uma caixa é transferida para outra estrutura preparada para receber uma nova colônia. O procedimento permite ampliar a criação sem depender exclusivamente da captura de abelhas encontradas na natureza.
Abelhas sem ferrão podem ser criadas até em apartamento
Uma das características que tornam a meliponicultura interessante para áreas urbanas é a capacidade de algumas espécies se adaptarem a espaços relativamente pequenos.
As caixas utilizadas na criação substituem as colmeias naturais e são chamadas de caixas racionais. Elas permitem que o criador acompanhe o desenvolvimento das colônias e faça o manejo necessário.
Conforme explicado na reportagem, algumas espécies podem ser mantidas até mesmo em apartamentos, desde que exista espaço adequado para que as abelhas possam sair e retornar às caixas.
A atividade, portanto, não depende necessariamente de grandes propriedades rurais.
No quintal de uma residência, por exemplo, é possível manter um meliponário adaptado às condições do espaço. O principal requisito é garantir que as abelhas tenham acesso ao ambiente externo para realizar suas atividades.
Além do mel, as colônias produzem outros materiais. Entre eles estão cera, geoprópolis e samburá, que funciona como fonte de alimento proteico para as próprias abelhas.
Produção de mel varia conforme espécie
A quantidade de mel produzida pelas abelhas nativas é uma das diferenças em relação à apicultura tradicional. A produção das espécies sem ferrão tende a ser menor, o que também contribui para o valor mais alto de determinados tipos de mel.
No caso apresentado na reportagem, o mel produzido pelas abelhas nativas chega a valores significativamente superiores aos observados em produtos convencionais.
A Jandaíra é um dos exemplos. O litro pode chegar a R$ 300, conforme informado pelos criadores entrevistados.
A quantidade produzida também depende da espécie, das condições ambientais e da estrutura disponível para as colônias.
Por isso, a meliponicultura reúne dois aspectos diferentes: a atividade produtiva e a conservação de abelhas nativas.
Meliponicultor também trabalha com abelhas com ferrão
O meliponicultor e apicultor Thiago Soares começou a criar abelhas com e sem ferrão há três anos. A atividade dele está concentrada principalmente na zona rural de Amontada.
No local, o criador mantém um apiário e um meliponário. A produção envolve tanto abelhas africanizadas quanto espécies nativas.
Thiago destaca o papel das abelhas na polinização das plantas cultivadas na propriedade.
“Devido à grande ajuda que as abelhas nos trouxeram com a polinização dos frutos, do coqueiro, também, logicamente, tem o mel”, afirma.
O mel excedente produzido pelas colônias é utilizado para fabricação de produtos comercializados pelo criador.
“Essa sobra do mel a gente acaba colhendo, fazendo alguns produtos de mel puro, 100% puro e natural, da natureza direto para os nossos clientes e complementando a renda”, acrescenta Thiago.
Do início do ano até o período registrado na reportagem, a produção chegou a 500 quilos de mel de abelha africana e 12 litros de mel de abelhas nativas.
A diferença de volume evidencia uma característica da atividade: enquanto a criação de abelhas com ferrão permite uma produção maior de mel, as espécies nativas podem apresentar uma produção mais limitada, mas com produtos de maior valor agregado.
Meliponário urbano também existe em Fortaleza
Além da criação mantida no quintal de João, Thiago possui um pequeno meliponário em Fortaleza, onde cria abelhas da espécie conhecida como cupira.
O trabalho começa, em alguns casos, com o resgate das colônias. As abelhas são retiradas de locais onde foram encontradas e transferidas para caixas padronizadas utilizadas na criação.
As cupiras também chamam atenção pela forma como constroem suas estruturas.
As abelhas utilizam barro para formar partes da arquitetura interna da colônia. A construção pode apresentar formatos que chamam atenção de quem acompanha o desenvolvimento do meliponário.
Dentro das caixas, o mel fica armazenado em pequenos potes produzidos pelas próprias abelhas.
A retirada do produto é feita de maneira diferente da extração tradicional do mel em colmeias. Na criação mostrada pela reportagem, os criadores utilizam pipetas para retirar o mel dos recipientes.
O procedimento permite coletar o produto diretamente dos potes.
Criação une preservação e geração de renda
A experiência dos dois criadores mostra como a criação de abelhas pode assumir diferentes formatos no Ceará.
Em áreas rurais, a atividade pode estar associada à produção agrícola e à geração de renda. Em espaços urbanos, a criação de espécies nativas também pode funcionar como uma forma de aproximar a população da conservação ambiental.
A polinização é um dos principais serviços ecológicos associados às abelhas. Ao visitar flores em busca de alimento, os insetos transportam pólen e contribuem para a reprodução das plantas.
Esse processo tem impacto direto sobre a produção de frutos e sementes.
Para os criadores, portanto, manter as colônias vai além da produção comercial. Há também uma preocupação com a manutenção de espécies nativas e com a presença desses polinizadores nos ambientes onde vivem.
A meliponicultura ainda exige conhecimento sobre as espécies, manejo adequado e atenção às condições do local onde as colônias são instaladas.
Mesmo assim, a possibilidade de criar abelhas sem ferrão em espaços menores amplia o acesso à atividade e cria uma alternativa para quem deseja trabalhar com conservação e produção dentro de uma mesma prática.
Em Fortaleza, os meliponários urbanos mostram que a presença das abelhas não está restrita ao campo. Com caixas adequadas e acesso ao ambiente externo, espécies nativas conseguem ocupar pequenos espaços e continuar cumprindo seu papel na natureza.




