Um relatório da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP) reúne 61 episódios de ataques contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e seus bispos desde 2018, envolvendo políticos, influenciadores e grupos bolsonaristas. A informação foi publicada pelo colunista Bernardo Mello Franco, do jornal O Globo, nessa quarta-feira (30).
Segundo o levantamento citado pelo colunista, os registros incluem ameaças, intimidações, ofensas e manifestações contra a atuação da CNBB e de integrantes da Igreja Católica. O documento reúne episódios ocorridos ao longo dos últimos oito anos e inclui declarações de políticos e publicações feitas nas redes sociais.
O relatório foi produzido pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz, organismo ligado à CNBB, e organiza os episódios em uma cronologia. Entre os nomes mencionados estão políticos do PL, influenciadores identificados com o bolsonarismo e outros atores que fizeram críticas à entidade ou a integrantes do episcopado.
Relatório reúne episódios registrados desde 2018
De acordo com o levantamento divulgado, a cronologia começa em 2018, ano da eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República. Um dos episódios citados envolve uma declaração feita pelo então candidato durante a campanha eleitoral, quando ele classificou a CNBB e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) como “parte podre da Igreja Católica”.
Em 2019, outro episódio relacionado à família Bolsonaro aparece no levantamento. Eduardo Bolsonaro publicou uma crítica à CNBB e afirmou que a esquerda teria se “infiltrado” na entidade.
O documento também reúne declarações de outros políticos. Entre os nomes citados estão Paulo Bilynskyj e Gil Diniz, além de manifestações atribuídas a influenciadores ligados ao campo bolsonarista.
Um dos casos mencionados envolve ainda o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer. Segundo o levantamento, a cor vermelha das vestes utilizadas pelo cardeal foi usada por críticos nas redes sociais para associá-lo ao PT.
Ataques envolveram políticos, influenciadores e bispos
O relatório não reúne apenas declarações de parlamentares. Segundo as informações divulgadas sobre o documento, também foram catalogadas publicações de influenciadores, vídeos produzidos por grupos ligados à direita e episódios direcionados individualmente a bispos.
Entre os temas recorrentes estão acusações de que a CNBB teria alinhamento com a esquerda ou com o PT, além de críticas à Campanha da Fraternidade e às posições públicas adotadas pela entidade em temas sociais.
O material também registra episódios classificados como ameaças e intimidações, além de manifestações que ultrapassariam a crítica política convencional. A própria apresentação do levantamento diferencia os diversos tipos de ocorrência reunidos na cronologia.
A quantidade de registros divulgada, porém, aparece de forma diferente em publicações sobre o levantamento. Em reportagem publicada pelo Brasil de Fato em 28 de setembro, o relatório era descrito como reunindo 58 ataques. Já a informação publicada por Bernardo Mello Franco, em O Globo, aponta 61 investidas.
Nova tensão entre Flávio Bolsonaro e a CNBB
A divulgação do levantamento ocorre em meio a uma nova tensão entre a CNBB e Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República.
No último domingo (27), Flávio acusou integrantes da CNBB de terem participado da divulgação de uma informação que ele classificou como falsa e que relacionava sua candidatura a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
O candidato afirmou que pessoas de dentro da entidade teriam ajudado a disseminar o conteúdo. A acusação foi feita sem apresentação de provas, segundo as informações publicadas sobre o episódio.
A CNBB reagiu e afirmou que não apoia partidos ou candidaturas. A entidade também negou envolvimento na produção ou divulgação de informações falsas relacionadas à disputa eleitoral.
A controvérsia envolve ainda um projeto apresentado na Câmara dos Deputados em 2007 que tratava do título de Nossa Senhora Aparecida. A proposta foi apresentada pelo então deputado Victório Galli e posteriormente arquivada.
O que diz o levantamento sobre a relação com a Igreja
O documento da Comissão Brasileira de Justiça e Paz busca organizar episódios que, segundo a entidade, demonstram uma sequência de conflitos envolvendo a CNBB e setores identificados com a direita bolsonarista.
A cronologia inclui manifestações sobre a atuação política da Igreja, críticas às campanhas promovidas pela CNBB, ataques a bispos e episódios relacionados à presença da entidade em debates sociais e políticos.
O levantamento também registra situações envolvendo as redes sociais, onde críticas à CNBB e aos seus integrantes ganharam alcance durante diferentes momentos do período analisado.
A publicação do relatório ocorre em um momento de forte disputa política em torno da atuação de instituições religiosas no debate eleitoral. A nova troca de acusações entre Flávio Bolsonaro e a CNBB recolocou a entidade no centro da discussão pública e deu visibilidade ao histórico reunido pela CBJP.




