As águas da chuva que percorrem as ruas de Fortaleza podem transportar diferentes tipos de microplásticos pelo sistema de drenagem urbana. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou as microfibras como as partículas mais frequentes entre as amostras analisadas, além de encontrar materiais associados ao desgaste de pneus.
A pesquisa avaliou quatro áreas da capital cearense e investigou a relação entre a presença desses resíduos e características de ocupação urbana, como densidade populacional e uso do solo. O levantamento foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema) da UFC.
O trabalho também identificou diferentes polímeros nas amostras. Os resultados ajudam a compreender como atividades cotidianas, o tráfego de veículos e as características das áreas urbanizadas podem influenciar o transporte de partículas plásticas pela água durante os períodos de chuva.
Onde os microplásticos foram encontrados em Fortaleza?
As coletas foram realizadas em quatro áreas de Fortaleza: Meireles, Praia do Futuro I, Barra do Ceará e Cais do Porto. Os pontos foram escolhidos considerando as características de ocupação e uso do solo e a conexão das respectivas bacias de drenagem com áreas de praia.
A pesquisa foi conduzida pela cientista ambiental Victória Santos, com orientação do professor Michael Barbosa e co-orientação do professor Tommaso Giarrizo. O trabalho teve duração de dois anos. As amostras foram coletadas entre janeiro e abril de 2025, período de maior ocorrência de chuvas. Os pesquisadores foram aos pontos de desembocadura das galerias pluviais nos dias de precipitação e recolheram a água 30 minutos depois do início da chuva.
Depois da coleta, o material foi levado ao laboratório para a identificação e análise das partículas. Foram observadas características como concentração, formato e composição dos microplásticos encontrados. Segundo a UFC, o estudo é o primeiro realizado na América do Sul com o objetivo específico de relacionar o uso do solo urbano à presença de microplásticos nas águas pluviais.
Microfibras de tecidos aparecem entre as partículas mais encontradas
As microfibras foram o tipo de microplástico mais frequente no conjunto das amostras. Elas representaram entre 34,7% e 57,9% das partículas identificadas durante a pesquisa. Essas fibras podem estar relacionadas ao uso de tecidos sintéticos. Durante a utilização e a lavagem de roupas, materiais microscópicos podem se desprender das peças e alcançar sistemas de esgoto ou o ambiente, dependendo das condições de descarte e tratamento.
Em Fortaleza, as microfibras tiveram destaque em diferentes áreas analisadas, incluindo a Barra do Ceará, o Cais do Porto e a Praia do Futuro. Nesta última região, elas chegaram a representar 57,9% das partículas identificadas.
O resultado evidencia uma das possíveis conexões entre atividades domésticas e a presença de partículas plásticas no ambiente urbano. A composição encontrada, no entanto, varia de acordo com as características de cada área de drenagem.
Como as partículas de pneus chegam às águas da chuva?
Outra fonte de partículas identificada na pesquisa está relacionada ao desgaste de pneus. Durante o deslocamento dos veículos, o atrito entre os pneus e o pavimento provoca a liberação de pequenas partículas que podem permanecer acumuladas nas ruas.
Em períodos de chuva, parte desse material pode ser carregada pela água de escoamento. O sistema de drenagem urbana passa então a funcionar como uma das vias de transporte desses resíduos. O processo mostra que a presença de microplásticos no ambiente não está restrita ao descarte inadequado de embalagens, recipientes ou outros objetos. A circulação de veículos e outras atividades urbanas também podem contribuir para a formação e o deslocamento dessas partículas.
Em uma cidade litorânea como Fortaleza, esse fluxo ganha relevância porque determinadas bacias de drenagem possuem conexão com áreas próximas à costa.
Densidade populacional influencia concentração de microplásticos
A pesquisa também analisou a relação entre as características de ocupação urbana e a quantidade de microplásticos encontrada nas águas pluviais. De acordo com os resultados, as áreas com maior densidade populacional apresentaram maior quantidade de partículas. O mesmo padrão foi identificado nas regiões com maior proporção de uso residencial.
A relação observada permite associar a ocorrência dos microplásticos às características das áreas urbanizadas. Locais com maior concentração de moradores e atividades cotidianas podem apresentar maior quantidade de materiais passíveis de serem incorporados ao sistema de drenagem durante as chuvas.
O resultado também reforça a importância de analisar cada bacia de drenagem de forma individual. Diferentes padrões de ocupação podem influenciar tanto a quantidade quanto os tipos de partículas transportadas.
Quais tipos de plástico foram encontrados?
Além da forma e das características físicas das partículas, os pesquisadores analisaram os polímeros presentes nas amostras. Os polímeros são macromoléculas que compõem diferentes materiais plásticos utilizados no cotidiano.
Entre os mais identificados estavam o polietileno, o polipropileno e o tereftalato de polietileno (PET). Esses materiais estão presentes em uma ampla variedade de produtos, incluindo embalagens, sacolas e recipientes.
Alguns polímeros também podem estar presentes em fibras e tecidos, materiais utilizados na indústria e componentes empregados em diferentes atividades econômicas. A identificação da composição química das partículas ajuda a investigar possíveis fontes dos microplásticos e a compreender os caminhos percorridos por eles dentro do ambiente urbano.
Como os microplásticos podem chegar ao mar?
Durante uma chuva, a água percorre ruas, calçadas e outras superfícies antes de alcançar as estruturas de drenagem. Nesse percurso, pode incorporar materiais que estavam acumulados no ambiente, incluindo fragmentos plásticos, fibras e partículas provenientes do desgaste de pneus.
Parte dessa água é conduzida pelas galerias pluviais. Dependendo da bacia de drenagem e do destino do escoamento, os materiais transportados podem alcançar áreas próximas ao litoral.
Microplásticos são partículas plásticas com tamanho inferior a cinco milímetros. Por serem pequenos, podem ser difíceis de identificar e retirar do ambiente depois que são transportados pela água.
A presença desses resíduos é estudada em diferentes ambientes, incluindo águas, sedimentos e organismos. A preocupação científica está relacionada à capacidade de essas partículas permanecerem no ambiente e integrarem diferentes cadeias e processos ecológicos.
Para cidades costeiras, compreender o caminho percorrido pelos microplásticos é importante para identificar possíveis fontes de poluição e os pontos em que medidas de prevenção e controle podem ser aplicadas.
O que o estudo revela sobre a poluição em Fortaleza?
Os resultados da pesquisa da UFC permitem analisar a presença de microplásticos a partir da própria dinâmica urbana. Em vez de observar apenas o ambiente marinho, o trabalho investigou como características da cidade podem interferir na quantidade e na composição das partículas transportadas pelas águas pluviais.
A identificação de microfibras e partículas associadas ao desgaste de pneus aponta para fontes diferentes de microplásticos. De um lado, aparecem materiais relacionados a atividades domésticas e ao uso de tecidos; de outro, partículas associadas à circulação de veículos.
A relação observada com densidade populacional e uso residencial também mostra que a ocupação urbana é um elemento relevante para compreender a distribuição desses resíduos nas áreas analisadas. O levantamento amplia o conhecimento sobre a poluição por microplásticos em Fortaleza e fornece dados que podem contribuir para futuras pesquisas sobre drenagem urbana, qualidade ambiental e conservação de áreas costeiras. As análises e o tratamento dos dados foram concluídos em 2026. O estudo integra a produção científica da UFC sobre os impactos das atividades urbanas nos ambientes costeiros do Ceará.




