Confesso que ainda estou me adaptando ao cinema brasileiro. Durante muito tempo, meu hábito de ir ao cinema esteve mais ligado às produções internacionais, especialmente aos filmes de suspense, terror e às grandes histórias de Hollywood. Mas tenho descoberto produções nacionais que estão mudando essa relação. Aos poucos, estou assistindo a cada vez mais filmes brasileiros, inclusive nas salas de cinema, e "Assalto à Brasileira" foi mais uma experiência interessante nessa caminhada.
O longa, dirigido por José Eduardo Belmonte, parte de um episódio real ocorrido em 1987, em Londrina, no Paraná. Na ocasião, sete homens invadiram uma agência do Banestado e fizeram mais de 300 pessoas reféns. O caso entrou para a história como um dos maiores assaltos a banco do país em número de pessoas mantidas em cativeiro.
A história acompanha Paulo, interpretado por Murilo Benício, um jornalista recém-demitido que vai ao banco receber sua rescisão e acaba no meio do assalto. O que poderia ser apenas uma situação de desespero se transforma em uma oportunidade inesperada: ele percebe que pode conseguir uma grande reportagem e passa a participar das negociações entre os criminosos e a polícia.
É justamente aí que o filme encontra seu tom. Em vez de apostar somente na tensão de um assalto com centenas de reféns, Belmonte mistura suspense, situações absurdas e humor. Os personagens são cheios de contradições, e algumas cenas fazem rir mesmo diante de uma situação que, na vida real, seria extremamente assustadora.
Murilo Benício tem uma atuação que chama atenção, equilibrando o desespero do jornalista com a esperteza de alguém que enxerga uma oportunidade profissional no meio do caos. Christian Malheiros e Robson Nunes também se destacam como os assaltantes Moreno e Barba. O elenco consegue dar humanidade aos personagens sem transformar o crime em algo simplesmente heroico.
Outro aspecto interessante é a ambientação nos anos 1980. A fotografia, a direção de arte e a trilha sonora ajudam a reconstruir aquele período, marcado por dificuldades econômicas e pela inflação. O filme também provoca uma reflexão sobre a realidade social brasileira e sobre como, naquele contexto, parte da população chegou a acompanhar o assalto e até torcer pelos criminosos.
A recepção da crítica especializada tem sido positiva. O longa conquistou três prêmios no Festival de Brasília, incluindo Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator para Murilo Benício e Melhor Ator Coadjuvante para Christian Malheiros. Críticos também destacaram o equilíbrio entre comédia e suspense, além da capacidade de transformar um episódio histórico em uma narrativa divertida e, ao mesmo tempo, crítica.
Saí da sessão com a sensação de que o cinema brasileiro tem muito a oferecer e que vale a pena abrir espaço para essas histórias. "Assalto à Brasileira" não é apenas um filme sobre um roubo a banco. É também uma história sobre pessoas comuns colocadas em uma situação extraordinária, sobre as contradições do país e sobre a capacidade brasileira de encontrar humor até nos momentos mais improváveis.
Ainda estou nessa descoberta do nosso cinema, mas confesso que estou gostando cada vez mais do caminho. E esse é um filme que merece entrar na lista de quem gosta de uma boa história, com tensão, humor e um pouco de reflexão.






