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Penélope e Pepito podem deixar zoológico de Sorocaba após questionamentos sobre condições de vida

Ação do Ministério Público e da ANDA pede transferência de dois ursos-de-óculos para um santuário no interior paulista. Laudo técnico aponta problemas no recinto, sinais de estresse e necessidade de melhores condições de bem-estar.

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Penélope e Pepito podem deixar zoológico de Sorocaba após questionamentos sobre condições de vida
Foto reprodução


A possibilidade de uma nova transferência de animais silvestres de um zoológico para um santuário reacende o debate sobre as condições de vida de espécies mantidas em cativeiro no Brasil. Desta vez, os protagonistas são Penélope e Pepito, dois ursos-de-óculos que vivem no Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba, no interior de São Paulo. Uma ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), em conjunto com a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA), solicita que os animais sejam encaminhados ao Santuário Rancho dos Gnomos, localizado em Joanópolis.

O pedido foi apresentado à Justiça no dia 22 de outubro e prevê que a transferência seja realizada em até 30 dias, caso a solicitação seja acolhida. A iniciativa está fundamentada em um relatório técnico da Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil), que identificou problemas nas instalações utilizadas pelos animais.

Entre os pontos levantados estão espaço considerado insuficiente, baixa incidência de luz solar, umidade excessiva, falhas estruturais e sanitárias, ausência de estímulos ambientais adequados e presença frequente de urubus no recinto. O documento também relata sinais de estresse em Penélope. Já Pepito permanece isolado em uma área de contenção para tratamento de esporotricose, doença provocada por fungos do gênero Sporothrix.

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A situação chama atenção porque o bem-estar de um animal silvestre não depende exclusivamente de alimentação e acompanhamento veterinário. As condições do ambiente também precisam permitir que ele desenvolva comportamentos naturais da espécie, explore o espaço, procure alimento, escale e tenha estímulos físicos e sensoriais.

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Pesquisas científicas sobre ursos-de-óculos mantidos em cativeiro reforçam essa preocupação. Um estudo publicado em 2002 por pesquisadores Michael J. Renner e Jennifer Plebani Lussier identificou que a introdução de estruturas para escalada ampliou a diversidade de comportamentos e a utilização do espaço pelos animais observados. Outra pesquisa, publicada no Journal of Veterinary Behavior em 2022, analisou estratégias de enriquecimento ambiental e identificou benefícios na exploração, na busca por alimentos e na redução de comportamentos repetitivos. Os trabalhos mostram que oferecer um recinto não significa, por si só, garantir qualidade de vida: é necessário considerar as necessidades comportamentais de cada espécie.

A alternativa apresentada na ação é o Santuário Rancho dos Gnomos, que possui área gramada, abrigos, estruturas para escalada, piscina com capacidade para 100 mil litros e ambientes climatizados. Diferentemente de um zoológico aberto à visitação, o espaço não recebe público e mantém uma equipe multidisciplinar voltada ao manejo e à reabilitação de animais silvestres, inclusive aqueles que necessitam de cuidados especiais.

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Outro detalhe torna a possível mudança ainda mais significativa. Penélope e Pepito tiveram um filhote em 2015, chamado Juco. Depois de passar pelo Zoológico Municipal de Piracicaba, o animal foi encaminhado, em 2022, ao Rancho dos Gnomos, onde recebeu o nome de Yahran. Caso a transferência dos pais seja concretizada, os três poderão passar a viver no mesmo santuário.

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Penélope chegou ao zoológico de Sorocaba em 2011, procedente de Sapucaia do Sul, no Rio Grande do Sul. Pepito foi levado ao local no ano seguinte, vindo de Salvador, na Bahia. Os dois pertencem à espécie Tremarctos ornatus, conhecida como urso-de-óculos ou urso-andino, nativa da Cordilheira dos Andes e classificada como vulnerável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

A diretora jurídica da ANDA, Letícia Filpi, defende que os animais tenham acesso a condições dignas de vida. A entidade argumenta que a transferência representa uma oportunidade de oferecer um ambiente mais compatível com as necessidades físicas e comportamentais da espécie.

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O caso também acontece pouco tempo depois da transferência do elefante Sandro, que deixou o mesmo zoológico de Sorocaba e foi encaminhado ao Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso, após uma disputa envolvendo as condições de permanência do animal no parque.

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A Prefeitura de Sorocaba informou à imprensa que ainda não havia sido notificada oficialmente sobre a ação. Portanto, a transferência de Penélope e Pepito depende de decisão judicial.

Mais do que uma discussão sobre zoológicos e santuários, a situação dos dois ursos levanta uma questão necessária: quando as condições de um recinto não atendem às necessidades de uma espécie, é preciso avaliar se a permanência naquele espaço ainda é a melhor alternativa. A proteção da fauna exige que o cuidado vá além da sobrevivência, considerando também a possibilidade de uma vida com saúde, estímulos e dignidade.

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