A história do bairro Floresta começou às margens da Lagoa do Urubu, na zona oeste de Fortaleza. Muito antes da urbanização avançar sobre a região, o espelho d’água servia como fonte de alimento, trabalho e sobrevivência para famílias que passaram a ocupar o entorno da lagoa em uma área ainda marcada pela presença de mata e características rurais.
Hoje, o bairro reúne mais de 28 mil moradores e convive com diferentes realidades urbanas. Enquanto parte da população preserva memórias ligadas à pesca, aos caminhos de terra e à convivência comunitária, outras áreas enfrentam problemas relacionados à moradia precária, infraestrutura e degradação ambiental.
A Lagoa do Urubu segue como um dos principais símbolos afetivos da região. Para muitos moradores, foi ela quem impulsionou o surgimento do bairro. Segundo o professor de história André Totti, a proximidade com a água foi decisiva para a ocupação do território.
“A água é um recurso fundamental para a humanidade, seja pela alimentação, para tomar banho ou para plantar. Imagino que criar o bairro em torno da lagoa era justamente para ter esse acesso fácil à água”, afirma.
Lagoa do Urubu impulsionou ocupação do bairro Floresta
Antes da expansão urbana, o Floresta era cercado por vegetação e tinha perfil predominantemente rural. Pescador aposentado, Neném da Horta lembra que a lagoa sempre foi vista como riqueza para os moradores da região.
“A lagoa aqui pra nós é uma riqueza. Tem cará de todo tamanho, tambaqui, curimatã, traíra, toda qualidade de peixe aqui dentro”, relata. Com o passar das décadas, a paisagem mudou. A urbanização avançou principalmente a partir dos anos 1990, período marcado pela construção de conjuntos habitacionais e crescimento populacional da região.
Mesmo assim, moradores antigos ainda guardam lembranças de quando o trajeto pelas ruas era feito entre áreas de mata. Morador do bairro há 45 anos, Francisco Lucivando da Silva recorda a época em que atravessava caminhos cercados pelo verde para chegar à escola.
“Quando eu estudava no colégio da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a gente ia e voltava por dentro dos matos”, conta. Atualmente, o Floresta está localizado na Regional 3 e faz divisa com bairros como Álvaro Weyne, Jardim Iracema e Barra do Ceará.
Moradores apontam impactos ambientais na lagoa
Apesar da importância histórica e afetiva da Lagoa do Urubu, moradores e especialistas afirmam que a área enfrenta problemas ambientais antigos. Segundo André Totti, o despejo de esgoto e a poluição afastaram parte da população do uso tradicional da lagoa.
“Hoje a gente percebe que a lagoa está poluída. É um espaço belíssimo, mas que carece de mais cuidado e infraestrutura. O esgoto acaba desembocando na lagoa e isso impede que ela seja utilizada como antes”, explica o historiador.
O cenário evidencia um dos principais contrastes vividos pelo bairro: ao mesmo tempo em que a lagoa permanece como símbolo da memória local, ela também reflete os desafios urbanos enfrentados pela comunidade.
Comunidade enfrenta desafios ligados à moradia
Mesmo com a presença de conjuntos habitacionais, o déficit de moradia ainda faz parte da realidade de parte dos moradores do Floresta. Em uma ocupação instalada há cerca de três anos, aproximadamente 1.500 famílias vivem em casas improvisadas de lona, madeira e alvenaria.
Pastor e pedreiro, Manoel Cleiton afirma que o período chuvoso agrava as dificuldades da comunidade. “Quando chove, a água entra nas barracas. A maioria aqui não tem condição de construir uma casa de tijolo e acaba vivendo em barraco”, relata.
Dentro de uma das moradias improvisadas, Maria Cleonice da Silva de Souza vive com a neta e afirma que as chuvas dificultam a permanência da família no local. “Meu bisneto ficou doente por causa da chuva e minha neta precisou ir para a casa da mãe dela. Eu peço a Deus por uma casa e saúde, porque não consigo mais trabalhar”, desabafa.
Areninha virou espaço de convivência no Floresta
Entre os espaços mais movimentados do bairro está a Areninha construída às margens da lagoa. O local se transformou em ponto de encontro para crianças, idosos e comerciantes ambulantes da região.
Segundo Diego Amaro, responsável pelo equipamento, o espaço passou a ter papel importante na convivência comunitária.
“A Areninha é a principal área de socialização daqui. Tem crianças, idosos e também vendedores que conseguem tirar renda vendendo alimentos e outros produtos”, afirma. Para André Totti, equipamentos de lazer e projetos habitacionais ajudam a fortalecer inclusão urbana e convivência social em regiões periféricas da capital.
“A gente percebe um trabalho da prefeitura em construir espaços de lazer e habitação. Isso cria oportunidades para as pessoas vivenciarem esporte, cultura e convivência, além de ajudar na redução da criminalidade”, avalia.
Mesmo diante das dificuldades, moradores afirmam que o sentimento de acolhimento segue como uma das principais marcas do bairro. Pensionista, Eva Lima diz que a convivência com os vizinhos continua sendo motivo de orgulho desde que chegou ao Floresta, em 1963.
“Eu não tenho queixa de ninguém. Todo mundo respeita a gente”, afirma, aos risos.




