Fortaleza ocupa uma posição de destaque quando o assunto é cobertura vegetal urbana. Segundo dados do IBGE, a capital cearense é a cidade mais arborizada do Nordeste e está entre as oito capitais mais verdes do Brasil. O resultado reforça a importância das áreas verdes para a qualidade de vida da população, especialmente em uma cidade que convive com altas temperaturas durante praticamente todo o ano.
Apesar do reconhecimento nacional, especialistas avaliam que os benefícios da arborização ainda não estão distribuídos de forma equilibrada. Enquanto algumas regiões concentram grandes áreas verdes e espaços de preservação ambiental, outros bairros convivem com poucas árvores, menos sombra e temperaturas mais elevadas.
O debate ganha força em meio à percepção crescente dos moradores sobre o calor na capital.
“O calor tá demais, né? Todo tempo no protetor”, relatou uma moradora durante reportagem sobre o tema.
Outro entrevistado também percebe mudanças no clima da cidade.
“Essa pele da gente, né? O clima tá diferente mesmo, bem diferente.”
Já o aposentado Targino resumiu uma sensação compartilhada por muitos fortalezenses:
“Rapaz, tá muito quente, pintura medonha, pensa. E aí só vai na água, direto. Se desidratar, não vai.”
Como a arborização ajuda a reduzir o calor na cidade
A presença de árvores exerce papel fundamental no equilíbrio ambiental dos centros urbanos.
Além de proporcionar sombra, a vegetação contribui para amenizar a sensação térmica, melhorar a circulação de pedestres e tornar os espaços públicos mais confortáveis.
Segundo a engenheira agrônoma e paisagista Flávia Goes, a diferença pode ser percebida facilmente em diversos pontos de Fortaleza.
“Em locais que você nota, avenidas e espaços públicos onde não temos sombreamento e árvores de grande copa, a gente sente a incidência dos raios solares muito mais forte. Fica aquela sensação de quintura que o fortalezense conhece bem.”
A especialista destaca que árvores de maior porte ajudam a reduzir a temperatura ambiente e favorecem a ocupação dos espaços públicos por moradores, ciclistas e pedestres.
Parque do Cocó impulsiona índice de áreas verdes
Grande parte do desempenho de Fortaleza nos indicadores de arborização está relacionada à existência de importantes áreas de preservação ambiental.
A cidade possui 14 unidades de conservação, incluindo o Parque Estadual do Cocó, considerado o principal pulmão verde da capital.
Com mais de 1.500 hectares, a área desempenha papel estratégico para a preservação ambiental e influencia diretamente os índices de cobertura vegetal da cidade.
Especialistas apontam desigualdade na cobertura vegetal
Embora os números sejam positivos, urbanistas observam que a arborização não está distribuída de forma homogênea.
Para o arquiteto e urbanista Marco Aurélio Duarte, o principal desafio é democratizar o acesso aos benefícios proporcionados pelas áreas verdes.
“Fortaleza tem até um índice relativamente bom de áreas verdes. O problema é que essa cobertura está muito concentrada no Parque do Cocó. Grande parte dessa área não é acessível à população. O acesso ocorre apenas em alguns trechos.”
Segundo ele, a desigualdade fica evidente quando se comparam diferentes regiões da cidade.
“Temos áreas bastante preservadas no lado leste de Fortaleza. Já em regiões próximas ao Rio Maranguapinho, por exemplo, a arborização é muito menor. É uma cidade arborizada, mas com uma grande desigualdade entre bairros e regiões.”
Essa diferença impacta diretamente o conforto térmico, a mobilidade e a qualidade ambiental dos espaços urbanos.
Projetos buscam ampliar a arborização em Fortaleza
Nos últimos anos, iniciativas públicas têm buscado ampliar a presença de árvores em diferentes regiões da capital.
Entre elas estão os programas Árvore na Minha Calçada e Fortaleza Mais Verde, desenvolvidos para aumentar a cobertura vegetal em ruas, avenidas, praças e demais áreas públicas.
O diretor de Conservação da UrbFor, Raphael Martins, explica que as mudas utilizadas nesses projetos são produzidas no Horto Municipal.
“Essas mudas são destinadas ao plantio em avenidas, praças, lagoas e áreas verdes da cidade. Existe um cronograma permanente para ampliar a cobertura vegetal em diferentes regiões.”
Especialistas também defendem a utilização de espécies adequadas ao ambiente urbano e capazes de oferecer maior sombreamento.
“Precisamos de árvores de grande porte, com ampla área de sombreamento. Temos excelentes espécies nativas do Ceará e do Brasil que podem cumprir esse papel”, afirma Flávia Goes.
Espaços verdes ganham importância diante das mudanças climáticas
A discussão sobre arborização urbana está cada vez mais ligada à adaptação das cidades às mudanças climáticas.
Além de reduzir a temperatura, as áreas verdes contribuem para o bem-estar da população, ampliam espaços de convivência e ajudam na preservação ambiental.
A recente reinauguração do Parque Zoológico Municipal do Passaré reforçou essa importância.
O professor Thiago Florêncio destaca os benefícios desses ambientes.
“É fresco, agradável e ajuda também na preservação ambiental. Fortaleza tem muitos prédios e construções, então espaços assim fazem diferença.”
Quem também aprova a presença de mais áreas verdes são as crianças.
“É muito legal estar aqui. Quando fizeram isso, todo mundo ficou animado para vir. Tem lugar para brincar e é muito bom”, afirmou a estudante Maria Luiza, de 11 anos.
Enquanto Fortaleza mantém posição de destaque entre as capitais mais verdes do Brasil, especialistas defendem que o próximo passo seja ampliar a arborização em regiões que ainda possuem pouca cobertura vegetal. A meta, segundo eles, é garantir que os benefícios ambientais, climáticos e sociais das árvores cheguem a toda a população da cidade.




