Centenas de peixes foram encontrados mortos no Açude Cedro, em Quixadá, no Sertão Central do Ceará. Os registros feitos no reservatório repercutiram nas redes sociais, chamaram a atenção de moradores e levantaram questionamentos sobre as condições ambientais de um dos principais açudes do estado.
Até o momento, as causas da mortandade não foram confirmadas. Entre as hipóteses que deverão ser avaliadas pelos órgãos competentes estão o baixo volume de água, a redução dos níveis de oxigênio e uma possível alteração na qualidade da água do reservatório.
O GCMais entrou em contato com a Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará (SRH), a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) e a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace). A reportagem será atualizada caso os órgãos enviem posicionamento sobre o caso.
Atualização: confira a nota enviada pela Semace sobre o assunto
A Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) informa que a ocorrência registrada no Açude Cedro, em Quixadá, foi objeto de vistoria técnica realizada pela Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).
As informações sobre os procedimentos adotados, os levantamentos realizados e as possíveis causas da mortandade devem ser fornecidas pela Companhia, responsável pela apuração técnica no local.
Veja a nota da Cogerh sobre o tema
A equipe técnica da Gerência Regional da Bacia do Banabuiú já se encontra em campo no reservatório realizando uma vistoria técnica minuciosa. No local, os técnicos estão utilizando sondas de qualidade de água para a medição in loco (no próprio local) de parâmetros físico-químicos preliminares.
Paralelamente, a Gerência de Monitoramento foi acionada. As coletas de amostras de água estão sendo executadas obedecendo a critérios e horários específicos estabelecidos pelos protocolos de monitoramento ambiental.
A priori, não é possível afirmar categoricamente a causa deste fenômeno sem o respaldo das análises laboratoriais.
Contudo, a principal hipótese técnica trabalhada no momento está associada às condições hidrológicas severas do reservatório: o baixo volume armazenado combinado com variações climáticas locais pode provocar o fenômeno da anoxia (ausência crônica de oxigênio dissolvido) ou oscilações térmicas bruscas na coluna d'água. Esse estresse por oxigênio é uma causa frequente de mortandade em massa de peixes e camarões em reservatórios em processo de esvaziamento.
Até que os resultados laboratoriais sejam concluídos e o diagnóstico definitivo seja emitido, a Cogerh recomenda cautela e, preventivamente, orienta que a população evite o consumo de peixes e crustáceos encontrados mortos na beira ou recolhidos no espelho d'água sob essas condições.
O material coletado será encaminhado com urgência para laboratório especializado. Assim que os laudos técnicos forem emitidos, os resultados serão divulgados.
Açude Cedro opera com apenas 1,02% da capacidade
A mortandade de peixes ocorre em um momento de baixa disponibilidade hídrica no Açude Cedro.
Dados do Portal Hidrológico do Ceará, atualizados em 22 de junho de 2026, mostram que o reservatório possui capacidade total de 126,000 hectômetros cúbicos (hm³), mas armazena apenas 1,290 hm³, o equivalente a 1,02% da capacidade.
O sistema também informa que a vazão de perenização do reservatório é de 0,00 litro por segundo, indicando que não há liberação de água para manutenção do fluxo dos cursos d'água a jusante.
Além dos possíveis impactos ambientais, a mortandade de peixes pode afetar a atividade pesqueira desenvolvida na região e comprometer o equilíbrio do ecossistema aquático.
Órgãos ambientais devem investigar as causas
A expectativa é que os órgãos ambientais realizem vistorias e análises técnicas para identificar o que provocou a morte dos peixes.
As investigações deverão indicar se o episódio está relacionado às condições hidrológicas do reservatório, à qualidade da água ou a outros fatores ambientais. Os resultados também poderão orientar medidas para reduzir o risco de novos episódios.
Situação do Cedro contrasta com a maioria dos açudes do Ceará
O cenário observado no Açude Cedro é diferente da realidade da maior parte dos reservatórios do estado.
Segundo o Portal Hidrológico do Ceará, a maioria dos açudes monitorados está classificada na faixa considerada "muito confortável", que corresponde a volumes entre 70% e 100% da capacidade de armazenamento.
Em julho de 2026, apenas oito reservatórios estavam sangrando, concentrados principalmente nas regiões Norte do estado. Mesmo nesse contexto, o Cedro permanece entre os açudes com menor volume armazenado.
Quadra chuvosa terminou com mais da metade da capacidade armazenada
O baixo volume do Açude Cedro também contrasta com o resultado geral da quadra chuvosa de 2026 no Ceará.
Ao fim do período, os 144 reservatórios monitorados pela Cogerh acumulavam 53,82% da capacidade total, índice considerado positivo para a segurança hídrica do estado.
Durante a estação chuvosa, os açudes receberam 6,95 bilhões de metros cúbicos de água, o terceiro maior aporte registrado nos últimos dez anos. O resultado supera os 6,13 bilhões de metros cúbicos registrados em 2025, ficando atrás apenas de 2024, com 10,2 bilhões, e de 2023, com 7,1 bilhões de metros cúbicos.
Ao longo da quadra chuvosa, 48 reservatórios atingiram capacidade máxima e 27 continuam sangrando. Entre eles está o Açude Orós, segundo maior reservatório do Ceará, que voltou a verter pelo segundo ano consecutivo.
Apesar do cenário positivo no conjunto do estado, a distribuição da água continua desigual entre as bacias hidrográficas.
A Bacia do Litoral registra 98,8% da capacidade armazenada, seguida pelo Alto Jaguaribe (96,6%), Coreaú (94,7%), Acaraú (86%) e Serra da Ibiapaba (83,9%).




